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Como ficou o Le Meurice após a reforma

Shoichi Iwashita visitou o hotel francês e nos conta tudo o que viveu por lá

por Shoichi Iwashita 1 Set 2016 09:52

Existe uma distância estilística não muito esperada entre o térreo do Meurice — com seus maravilhosos restaurantes e bar, alguns dos mais belos e elegantes da capital parisiense — e os andares acima, onde estão os quartos. A sensação é a de que você está em dois hotéis diferentes, apesar de ter sido reaberto no ano 2000 depois de dois anos fechado para reforma. Se os salões deste hotel mítico, inaugurado em 1835 (ou seja, há quase duzentos anos), foram repaginados de forma muito bem sucedida por Philippe Starck, entregando exatamente o tipo de ambiente e experiência que a gente espera de um hôtel palace, é como se, de alguma forma, o restante do hotel, todo em estilo Louis XVI, já tivesse envelhecido e se tornado datado (apesar de eu amar demais os banheiros inteiros em mármore — veja as fotos abaixo —, como no Four Seasons de Milão, que, na minha opinião, são atemporais…) O problema também está em pagar € 1100 por noite, que é praticamente o mesmo valor da diária dos seus ótimos vizinhos — o recém-reinaugurado Ritz ou o jovem palace Mandarin Oriental — que possuem ótimas academia (a do Meurice é bem pequena e só tem pesos livres de até 10 kg), piscina (tudo bem que tanto a do Ritz quanto a do MO são indoor), jardim e quartos renovados e adaptados às necessidades dos gadgets dos viajantes contemporâneos; características essa que faltam ao Meurice… Sem falar que você ainda pode pegar um quarto com vista para o pátio interno (para garantir a vista ampla e incrível para o Jardin des Tuileries, a place de la Concorde, o Louvre, o teto do d’Orsay e a Tour Eiffel, só reservando suítes cujas diárias começam em € 4000 por noite).

A localização, no entanto, é imbatível (quem me acompanha por aqui sabe que, na minha opinião, o 1er arrondissement é sempre o melhor bairro para se hospedar, já que, além da oferta incrível de lojas, programas culturais e jardins, você está a três estações de metrô do Marais — sem fazer baldeação! — e quatro de Saint-Germain-des-Près; as regiões do coração). E tem também dois endereços favoritos a alguns passos (com uma arcada que faz com que você consiga ir e vir mesmo em dias de chuva): o Angelina, bem ao lado mesmo, o salon de thé com um dos melhores chocolates quentes de Paris e que serve um doce-assinatura, o Mont-Blanc, um doce de castanha que eu amo, e a livraria Galignani.

Mesmo não se hospedando no hotel, frequente — sem parcimônia — seus ambientes, principalmente o restaurante principal comandado por Alain Ducasse (onde os incríveis café da manhã e brunch são servidos; não perca já que é fabuloso começar o dia aqui; amo o chão todo de mosaico, os mármores, os lustres de cristais, as grandes janelas para a rua e as intervenções starckianas) e o Bar 228, dois dos ambientes mais lindos e elegantes da cidade. Tampouco deixe de visitar a brasserie Dalí (uma homenagem ao pintor catalão que passava um mês por ano no Meurice e fazia ao staff pedidos tão surrealistas quanto suas obras), com menu também assinado por Ducasse, para provar as várias opções de club sandwich (de frango, de salmão defumado, vegetariano, mas eu sempre vou no de lagosta; em francês, homard bleu ) ou as deliciosíssimas pâtisseries do chef Cédric Grolet. E que a Dorchester Collection convide logo o Philippe Starck para repaginar todos os 160 quartos do hotel, repetindo a mesma fórmula de sucesso conquistada nos salões.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.