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Cipriani: o hotel mais completo de Veneza

Shoichi Iwashita visita um dos locais mais bonitos de toda a cidade italiana

por Shoichi Iwashita 26 Mai 2017 12:46

Depois de me hospedar no Cipriani em Veneza e no Brenners Park em Baden Baden, eu definitivamente vou precisar criar uma categoria hotéis-míticos-e-com-alma-que-sobreviveram-bem-ao-tempo. Distante na medida certa da confusão claustrofóbica das hordas de turistas em Veneza, o Cipriani é praticamente um oásis que ocupa a ponta da ilha de Giudecca, que dá de frente para San Marco (jantar no terraço de um dos restaurantes do hotel, o Cip’s Club, com vista para tout Venise é uma experiência imperdível até para quem não está hospedado, e ainda tem uma das melhores tartes tatin que já comi na vida; você vê nas fotos abaixo). Mas não só: qual hotel do mundo possui funcionários — há décadas trabalhando lá — que são personagens tão míticos quanto o Cipriani? (O barman Walter Bolzonella é amigo de várias figuras de Hollywood incluindo o ator George Clooney; e na cidade que abriga alguns dos eventos de arte mais importantes do mundo, as Bienais de Arte — desde 1895! —, Arquitetura e Cinema, espere sempre encontrar uma clientela importante no Cipriani nas aberturas dos eventos). Onde mais — além de dormir em lençóis de linhos impecavelmente passados — você pode pedir pelo serviço de quarto um autêntico tiramisù veneziano às 3h da manhã? (Uma das histórias que se conta sobre a origem da sobremesa é que o tiramisù teria sido criado no Vêneto para o famoso escritor-conquistador-libertino-colecionador-de-mulheres Giacomo Casanova). Em qual hotel de Veneza, você vai encontrar jardins, spa, uma linda e espaçosa piscina olímpica outdoor — a única piscina na Veneza central, cuja água (salgada) está sempre a 29 graus — e o Roberto, o portiere cantor e filósofo que te recebe com um sorrisão assim que você desce do barco?

O luxo do Cipriani, no entanto, não é aquele dos palazzi venezianos que a gente ama — Loredan, Albrizzi, Pisani Moretta —, com suas fachadas de influências mouriscas, estuque e afrescos cheios de esplendor, pintados pelos maiores artistas de épocas passadas — pense em Tiepolo, Zanchi, Guardi — quando a Serenissima era uma das repúblicas mais ricas do mundo. Inaugurado em 1958, por Giuseppe Cipriani, o fundador do também mítico Harry’s Bar de Veneza (onde foi criado o Carpaccio e o Bellini), o hotel foi concebido para ser uma casa de amigos, mais informal, e é essa a atmosfera do hotel, apesar de todos os caros Murano nos quartos (vasos, luminárias, e uma delicada e belíssima moldura de vidro no espelho do banheiro feita a mão com ouro e prata pelos artesãos das ilhas vizinhas; Murano é um grupo de sete ilhas a três quilômetros daqui). E na suíte Dogaressa, de número 63 (no palazzo Vendramin, anexo posteriormente ao hotel), um sonho de quarto com vista para a lagoa e o skyline de San Marco (a maioria dos outros quartos têm vista para o outro lado da ilha ou saem na piscina), você ainda tem na decoração tecidos antigos e originais Fortuny e Rubelli, dois grandes nomes históricos dos ricos tecidos venezianos. Foi com o Cipriani de Veneza que começou a história da Orient-Express, que comprou o hotel do Signor Cipriani em 1976, rede de hotéis que em 2014 passou a se chamar Belmond, já com mais de 40 propriedades no mundo incluindo vários hotéis históricos como o Copacabana Palace, o Grand Hotel Timeo, o Reid’s Palace e o trem Orient-Express, cuja jornada termina em Veneza.

Aberto apenas sete meses por ano (de março a outubro), aproveite o delicioso café-da-manhã-com-vista servido no Oro, o restaurante gastronômico que tem um macarron Michelin, até às 11h da manhã (no quarto, o café pode ser servido até às 11h30); tome um drinque na piscina no fim da tarde; e use e abuse do barquinho de madeira com estofados de veludo do Cipriani, que tem um píer próprio a alguns passos da Piazza San Marco e do Harry’s Bar (o trajeto dura apenas cinco minutos), que te busca e leva a qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada (é só usar o telefone do ponto e pedir para te buscarem), porque, além das vistas, não há meio de locomoção mais charmoso.

COMO CHEGAR AO BELMOND HOTEL CIPRIANI



Se locomover em Veneza é sempre um desafio para os não iniciados. O Cipriani fica numa ilha, a Giudecca, e para ir do aeroporto Marco Polo [VCE] para o hotel (se você estiver com muitas malas, é bom ter um carro para ir da área de desembarque do aeroporto até o píer de onde sem os barcos-táxi; é uma caminhada de uns 10 minutos), você pode 1. organizar o transfer de 40 minutos com um barco só para você com o hotel (calcule € 200) ou 2. pegar um barco público do aeroporto até a Piazza di San Marco pagando 15 euros (mas o trajeto é de 90 minutos) e de lá pegar o barco exclusivo que faz o trajeto 24 horas por dia entre San Marco e o canale della Grazia, onde fica a entrada do Cipriani (para já entrar no clima do hotel antes mesmo do check-in ). Na foto, a ponta de Giudecca ocupada pelo hotel Cipriani (o jardim também é do hotel!).

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.

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