Trip

Campos de lavanda em Provence

Tudo o que você precisa saber para chegar em uma das mais belas locações francesas

por Shoichi Iwashita 22 Ago 2016 13:17

Enquanto eu dirigia sozinho pela estreita D6 (estrada departamental), com os vidros do carro abertos, sentindo o vento e o sol do verão mediterrâneo (essa luz que encantou pintores impressionistas como Cézanne e Van Gogh), escutando as músicas da Tal Benyerzi e vendo — e sentindo o suave aroma (eu achava que ia ser meio enjoativo) — daqueles enormes campos de lavanda no auge da floração, com as montanhas ao fundo, a sensação era a de que eu tinha chegado ao paraíso, a de que eu não estava mais na Terra. Em mais um dos nossos passeios pela Provence, a seguir tudo o que você precisa saber para ter a melhor experiência ao redor desta flor, cujo óleo essencial é usado há milênios na beleza e no bem-estar, e que também é usada na gastronomia (não deixe de provar o sorvete de lavanda, que é companheiro perfeito para enfrentar o calor provençal, o mel, ou ainda o crème brûlée à la lavande em algum restaurante).

QUANDO VISITAR
As flores da lavanda (lavande fine, em francês, mais rara e selvagem, cujo óleo essencial é aproveitado na perfumaria) e do lavandim (lavandin, na foto acima, usado para produtos menos nobres como sabonetes) não florescem na primavera europeia (de 21 de março a 21 de junho), mas sim no começo do verão, mais especificamente nos últimos dias de junho até por volta de 10 de julho. Como a colheita começa por volta da metade do mês (no ano de 2016 começou no dia 15 de julho, mas a data de início depende da meteorologia, da altitude da plantação), se você chegar após essa data é capaz de encontrar os campos todos vazios, o que seria uma tristeza; e se chegar antes, as flores ainda não estarão no auge de suas cores e beleza. O ideal é chegar à Provence por volta do dia 5 de julho para aproveitar não só os campos mas também os festivais que estarão já em pleno vapor: o de teatro em Avignon, o de música lírica em Aix-en-Provence, o de fotografia em Arles, com os nomes mais relevantes destas artes, discussões extremamente interessantes e cobertas incansavelmente por todos os jornais francófonos e os maiores do mundo. Ah, outro detalhe: por mais que você esteja lá nesta época, acontece de campos diferentes estarem em épocas de floração diferentes; uns com as flores mais coloridas, outros com as flores ainda começando a floração, ou seja, menos coloridas. E os campos são todos abertos; não têm cerca; você pode andar lá longe e fazer fotos incríveis. (A concierge de um hotel me disse que muitas chinesas viajam com seus vestidos de noiva para a Provence só para serem fotografadas vestidas de branco nos campos de lavanda. Por isso, não se assuste se você vir uma noiva de véu e grinalda — segurando um buquê e SEM marido — caminhando pela paisagem; não é uma alucinação).

A NOSSA ROTA PREFERIDA
Você vai ler em vários lugares que Sault é a capital da lavanda e uma das rotas mais famosas é a que a liga a Gordes ou Roussillon (os vilarejos medievais “empoleirados” que você não pode deixar de visitar; conheça-os clicando aqui). E como eu estava hospedado no Mas des Herbes Blanches, um Relais & Châteaux em Joucas (vilarejo entre Gordes e Roussillon), foi essa a primeira rota que fiz. Mas passar pertinho da imponente falésia da Madeleine me impressionou bem mais que os pouquíssimos e pequenos campos de lavanda em todo o caminho. Chegando a Sault, apesar da vista para um grande vale aos pés do Mont Ventoux (meio longe e não muito emocionante, confesso), onde você consegue ver os quadradinhos cor de lavanda de longe, a cidade não oferece muito o que fazer e logo voltei.

A questão é que os campos de lavanda de verdade, esses das fotos que a gente sonha em ver (enormes com uma árvore no meio, com as montanhas ao fundo), não estão no Maciço do Lubéron (região onde ficam Gordes e Roussillon), mas sim no Plateau de Valensole, próximos a outro vilarejo e de paisagens incríveis da Provence: o village também perché Moustiers Sainte-Marie (nas fotos abaixo) e o Grand Canyon do Verdon. E, sério, não dá para competir. As duas horas dirigindo — e parando muito, claro — pelas estradas departamentais D108, D953, D8 até Valensole, e depois a D6 e a D952 chegando a Sainte-Marie (e à Bastide de Moustiers, hotel lindo, charmoso e saborosíssimo de Alain Ducasse no vilarejo, a 10 minutos de carro do lago azul-turquesa Sainte-Croix), foram uma das experiências mais belas da minha vida. Depois desta rota, nesta época, você terá certeza de que viu os mais belos campos de lavanda da Provence. E tente ir no nascer ou no pôr do Sol, quando você pegará uma luz mais dramática. :- )

COMO PARAR O CARRO PARA AS FOTOS SEM LEVAR MULTA
Eu devo ter parado o carro ou para fotografar ou para contemplar aquelas paisagens uma centena de vezes. Mas a dinâmica é um pouco complicada: as estradas departamentais são vias de duas mãos, muito estreitas (tem hora que você acha que o seu carro e o carro que está vindo não vão caber nas duas faixas), não tem acostamento e, muitas vezes, árvores ou valas ladeiam a pista. E, apesar de você quase não ver policiais rodoviários em quase todo o percurso, eles podem sim aparecer; e você pode levar uma desagradável multa — e uma bronca — se parar o carro no meio da pista (e eles já chegam com sirene e tudo). Por isso, por mais que você tenha de andar um pouco, pare o carro nas entradas das propriedades dos campos de lavanda (são estradinhas de terra que saem da pista) ou então nos bolsões que existem nos lugares mais visitados justamente para que os viajantes parem seus carros e apreciem a paisagem. Use o bom senso.

SE VOCÊ NÃO ESTIVER DE CARRO, COMO VISITAR?
A melhor maneira de aproveitar a Provence é alugando um carro e dirigir livremente, no seu tempo, de acordo com o seu roteiro. Se você não dirige, o único jeito é contratar uma excursão, que pode sair de Avignon ou de Aix-en-Provence (você pode se informar no hotel, são várias opções). Ou então, se você não quiser andar de ônibus com outros turistas, você pode contratar um motorista para fazer o trajeto com você.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.

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