Trip

Austrália: um Mundo de Oz no sul do mapa

País é a ex-colônia mais bem sucedida abaixo da linha dos trópicos

por Hermés Galvão 29 Ago 2016 13:02

Ingleses costumam ser precisos ao dar títulos e nomes a tudo que entendem como invenção. Batizaram de Oz a terra mais austral e a leste de seu reino, mágica pela história nativa de sua verdade aborígene, exótica pela natureza agressiva e misteriosa pela distância que pode atrair ou fazer desistir. Austrália, a última fronteira do Ocidente, um quase continente que tinha tudo para permanecer perdido a caminho do nada, boiando entre o Índico e o Pacífico, trouxe para perto a melhor ideia de um novíssimo mundo; longe das velhas manias de seus conquistadores e cada vez mais afinada com as suas raízes, ergueu em tempo recorde uma nação que, mesmo ainda em construção de identidade, já é digna de algum plágio.

Afora as réplicas de um pouco de tudo que há de mais asséptico e nem por isso melhor do eixo anglo-saxão (a sensação de “onde foi que estivemos na mesma época outro dia e era meio assim?” é latente em cada esquina do perímetro urbano, uma mistura bem sucedida de San Diego com Toronto e duas pitadas de Belfast), existe uma marca genuinamente australiana a ser registrada além das botas Ugg que deformam os pés, dos cangurus e coalas, da Vegemite, uma pasta de levedura de cerveja que vai ao pão deles de cada dia, e, claro, do rugby – que eles chamam de footy numa prova de intimidade ímpar com o esporte tão popular lá quanto o futebol cá.

Alcançaram uma qualidade de vida inigualável, química perfeita de capitalismo selvagem com ócio criativo num equilíbrio de horas futurista: trabalha-se o suficiente para que o tempo de lazer não seja o da sobra, da mais erma de suas cidades cravadas do semiárido do Outback às duas de suas metrópoles globais, Sydney e Melbourne, a rotina em ritmo aussie é a melhor tradução do termo IDH. O skyline é ocidental, mas o andar da carruagem é oriental no sentido filosófico da coisa – o que nos faz lembrar o tempo todo que esse lado de cá do mundo é asiático e ponto final.

O povo local, descendentes de ingleses e irlandeses em sua maioria e com sotaque quase texano, parece camuflar-se de sua lonjura e passado pouco remoto: não que negue a verdade de viver no fim do mundo (que nem de longe é um fim de mundo, repare bem a diferença que uma preposição dá a uma posição) e tampouco sua história tão jovem quanto o vinho branco que produzem em terra, mas por um segundo dá a impressão de que, tudo bem, melhor estar longe da confusão que se formou dali para cima e para os lados – Austrália, para quem chega e para quem fica, tem feito um bom papel de último refúgio seguro da Terra.

Não há guerra, terremoto, vulcão, tsunami ou onda de imigração; existe, sim, um controle rígido de entradas e saídas facilitada pelo fato de estar geograficamente ilhado no mapa. Cosmopolita, easygoing e civilizadíssimo, o país imprime tolerância aos olhos de quem vê de fora e não à toa desperta em seus visitantes a mesma sensação que talvez tenham os habitantes, de que tudo é possível – uma vez “autorizado” a entrar lá, afinal não é todo mundo que pode, assim, chegar chegando. Alguns cidadãos, como nós, brasileiros, precisam de visto. E a burocracia para tirá-lo quase desencoraja. É papel, foto, prints, comprovante disso e daquilo, perguntas do tipo se você já teve tuberculose ou se envolveu recentemente em alguma guerra separatista.

Mix de gincana e teste de paciência, o “application form” é metafísica de word, um passo a passo tão burocrático quanto questionável, mas enfim, uma vez carimbado o passaporte, temos uma Austrália inteira a desbravar tendo Sydney como porta de entrada. Eleita uma das cinco melhores cidades do mundo para se viver (Melbourne é a primeira, mas há controvérsias seriíssimas), chega a ser clichê chamá-la de oásis. Mas é. De tranquilidade, prosperidade, ordem e progresso. Há verde por todos os lados, nos parques e nos sucos, nas saladas e nos jardins que definem a paisagem e o cardápio do povo mais fitness e simpático que se tem notícia. Nota: eles fazem body contact, dão tapinhas e abraços e dois beijinhos – parecem cariocas, mas ao dizerem passa lá em casa, nem ouse desaparecer.

Parece miragem, mas é a pura verdade subtropical o vai-e-vem de corredores, ciclistas, surfistas, praticantes de ioga, tai chi chuan, velejadores, jogadores e… motoristas (condutores de ônibus param no acostamento, descem, e fazem um laboral rápido, esticando as pernas e alongando os braços); nas pistas e nas praias, a geração saúde domina a cena e parece espantar qualquer forma de boemia – a propósito, álcool e cigarro são proibitivos nos preços e nas praças. Melhor assim e que acorde-se cedo para pegar no tranco ou por osmose o estilo de vida que empolga e por um triz não deslumbra.

As praias de Bondi e Bronte, a salvo dos tubarões que vez em quando dão suas incertas pelas águas, quase deixam Ipanema no chinelo (altamente recomendável um curso relâmpago de surfe na Manly School); não longe dali, o bairro hipster de Surry Hills é uma viagem no tempo da Inglaterra vitoriana com suas casas avarandadas de madeira onde hoje funcionam bares, restaurantes e lojinhas vintage com perfume de Williamsburg e Islington. Sempre será cedo, talvez precipitado demais, definir a Austrália em curto prazo e a grosso modo; para ser exato, talvez seja preciso que seu povo, nativo e forasteiro, entenda ao certo, de fato e não de foto, que conjunções extra mundanas desenharam os astros, o tempo e o vento para fazer o país tão mágico quanto o mundo de Oz.

Hermés Galvão

Hermés Galvão nasceu em 1975, no Rio de Janeiro. É jornalista e cronista de Carbono Uomo e Vogue Brasil. Autor do livro “Como Viajar em Tempos de Crise Financeira e Existencial”. Vive pelo mundo, sem destino conhecido, entre Barcelona, Roma e os espressos mal tirados dos aeroportos do Brasil.