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As três igrejas imperdíveis além do Duomo

Milão tem algumas das mais bonitas igrejas da Itália; estas são nossas dicas

por Shoichi Iwashita 15 Ago 2016 12:25
San Maurizio al Monastero Maggiore

O Duomo, a Catedral de Milão, é indiscutivelmente uma das mais belas igrejas do mundo. Mas a capital da Lombardia tem outras três igrejas, bem próximas umas das outras (elas formam um triângulo na Corso Magenta), com estilos e histórias bem diferentes e que valem muito a visita, seja por sua arte, por sua história ou pelo seu significado na vida da cidade (e ainda dá para dar uma passada na centenária Pasticceria Marchesi ou na Biffi para um espresso com panettone depois ou entre as visitas). E são essas igrejas que eu convido você a conhecer hoje. Só é sempre bom lembrar que esses são lugares sagrados e, por mais que você seja ateu ou não-católico, é preciso respeitar as regras desses espaços (vale o mesmo para visitar sinagogas, mesquitas, templos xintoístas…). No dia da visita, homens não devem estar de bermudas, mas sim calças compridas; e mulheres devem estar com roupas que cubram os ombros e os joelhos. Se não for permitido tirar fotos, não tire, respeite. Ah, e não se paga nada para entrar nas igrejas.

SAN MAURIZIO AL MONASTERO MAGGIORE
Quase ao lado da Pasticceria Marchesi original na Corso Magenta, é bem fácil passar batido em frente a esta igreja de fachada simples que esconde em seu interior quatro mil metros quadrados de afrescos renascentistas suntuosos ao estilo leonardesco, pintados principalmente por Bernardino Luini (e outros artistas de seu atelier, incluindo seus filhos), um dos principais discípulos de Leonardo da Vinci no cinquecento (século XVI), recentemente restaurados (você também verá afrescos pintados pelo artista veneziano e mestre de Caravaggio, Simone Peterzano, Retorno del figlio prodigo e Cacciata dei mercanti dal tempio). A igreja fazia parte do maior e mais antigo monastério de clausura das ricas e poderosas freiras beneditinas de Milão, o Monastero Maggiore (para completar, a abadessa do convento na época era uma Sforza, que ajudou a pagar o trabalho dos artistas, que não era nada barato). Quando você chegar ao altar, você vai ver uma grade. Isso por que você está na parte dos fiéis da igreja, que é dividida em duas. Do outro lado (que hoje pode ser visitada), está a parte da igreja de onde as irmãs escutavam a missa (como elas estavam enclausuradas, elas não podiam ter contato com o mundo; e a grade é alta, elas tampouco conseguiam ver o que se passava do outro lado), que conta também com afrescos lindíssimos, além do órgão monumental e as mais de 100 cadeiras de madeira que elas usavam nos seus ritos e para cantar. A igreja foi construída relativamente rápida para os padrões da época (começou em 1503 e terminou em 1574) sobre as ruínas milenares do que era o circo romano. A chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore é considerada a Capela Sistina de Milão, imperdível. SAN MAURIZIO AL MONASTERO MAGGIORE: Corso Magenta 15, a 350 metros da estação de metrô Cairoli. Terça a domingo, das 9h30 às 17h30.

BASILICA SANT’AMBROGIO
A Duomo pode ser mais bonita, mas a Basilica Sant’Ambrogio, a segunda na hierarquia depois da Catedral de Milão, é o templo católico mais importante para os milaneses, já que ela leva o nome do carismático Santo Ambrósio, o santo patrono da cidade (não só: ele é um dos pais fundadores do catolicismo e foi inspiração fundamental para Santo Agostinho). Foi Ambrósio que mandou construir essa que é uma das igrejas mais antigas de Milão, entre 379 e 386 d.C. (há mais de 1600 anos, ou seja, durante o Império Romano), numa época quando o Cristianismo ainda estava se afirmando, no lugar onde eram enterrados os cristãos mortos pela perseguição romana (como Vittore, Nabore, Felice, Gervaso, Protaso; é meio aterrorizante, mas você pode ver na cripta, dentro de um sarcófago de prata e vidro, os esqueletos do próprio Ambrósio no meio dos esqueletos dos soldados romanos Gervásio e Protásio, soldados romanos que foram decapitados por reconhecerem que Deus estava acima do Imperador e, por isso, se tornaram mártires, santos). Da rua até o interior da igreja passando pelo pátio interno (que era um mercado), conte quantos degraus você terá de descer, já que a igreja está no nível do solo da época romana (já parou para perceber que as ruínas em Roma ficam bem abaixo do nível da cidade atual?). Nove reis foram coroados aqui entre os séculos 9 e 15 (é tipo a Abadia de Westminster milanese) e até os invasores Napoleão, em 1805, e Ferdinando da Áustria, em 1838, respeitaram a tradição, visitando a basílica imediatamente depois de suas coroações no Duomo. O exterior é construído de materiais simples (tijolinhos e algumas pedras) e o interior em estilo românico (a igreja passou por várias reformas e ampliações e o que vemos hoje data do século 12). Não deixe de observar o trabalho de mosaico em ouro da abside (a semi-cúpula sobre o altar) e o afresco de Giambattista Tiepolo. Sempre venho assistir a uma missa aqui quando estou na cidade. E tente vir na missa das 11h, quando ela é recitada em latim e ainda tem canto ambrosiano. BASILICA SANT’AMBROGIO: Piazza Sant’Ambrogio 15, ao lado da estação de metrô Sant’Ambrogio. Para visitar a basílica fora das missas: segunda a sábado, das 10h às 12h e das 14h30 às 18h; domingos e feriados, das 15h às 17h. Para acessar o site (várias vezes dá erro), clique aqui.

SANTA MARIA DELLE GRAZIE
O fato de que A Última Ceia esteja pintada em uma das paredes do refeitório deste complexo que é igreja e convento dominicanos não deveria tirar o brilho desta igreja de tijolinhos, belíssimo exemplar da arquitetura renascentista, repleta de motivos circulares (é bolinha pra todos os lados; sem pinturas ou afrescos; e eu amo os motivos geométricos em três cores — branco, preto e terracota — do interior da igreja), que você pode visitar enquanto aguarda a sua entrada para visitar a obra-prima de Leonardo da Vinci (a entrada da igreja é bem ao lado da entrada para a atração). Construída a mando do todo-poderoso duque de Milão, Ludovico il Moro Sforza, primeiro, a Santa Maria delle Grazie era para ser a casa — igreja e monastério — de que tanto precisavam os frades dominicanos, mas depois Ludovico decidiu fazer com que a igreja também fosse o mausoléu da sua família e chamou um dos gênios do Renascimento italiano, o arquiteto Donato Bramante, para a empreitada (mas Ludovico seria expulso da cidade pelos franceses e seu projeto de ser enterrado na igreja não se concretizou). Foi Ludovico também que convidou Da Vinci para pintar A Última Ceia numa das paredes do refeitório do convento e ele meio que transformou a região numa área para seus protegidos (chegou a dar terra em frente à Santa Maria delle Grazie para Da Vinci plantar uvas, que se tornariam o Vinhedo de Da Vinci, outro passeio rápido e imperdível, que você confere clicando aqui). SANTA MARIA DELLE GRAZIE: Piazza Santa Maria delle Grazie 2, na própria Corso Magenta, a 550 metros da estação de metrô Conciliazione, 39 (0) 2 / 467-6111. Todos os dias, das 7h30 às 12h e das 16h às 19h30. Para acessar o site, clique aqui.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.