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As padarias parisienses e o não café da manhã

Em Paris, tomar café em hotéis e nas tradicionais boulangeries são experiências diferentes

por Shoichi Iwashita 18 Jul 2016 11:43
O delicioso e amanteigado scargot de chocolate com pistache da padaria Du Pain Et Des Idées, comido na mesinha comunitária do lado de fora da boulangerie

Você leva a sua listinha com as melhores padarias de Paris — a maioria nos arrondissements mais periféricos —, acorda e, achando que pão rima perfeitamente com café da manhã, em vez de tomá-lo no hotel, vai até um dos endereços premiados para sua primeira refeição do dia, atrás do melhor pão do mundo. O resultado? Decepção. Não por causa dos pães (porque realmente não têm igual), mas por que as boulangeries em Paris — e quase em todo o mundo, na verdade — em nada lembram as instituições onipresentes que são as nossas maravilhosas padarias, que fazem e vendem de tudo, até pão.

Porque padaria em Paris — a não ser que seja uma boulangerie-pâtisserie — só vende pão. Nada mais. Com raríssimas exceções, não vai ter mesa, cadeira ou balcão para se sentar; não vai ter aquele chapeiro amigo que vai pegar aquele pão delicioso e fazer o sanduíche com os ingredientes e do jeitinho que você gosta; não vai ter suco de todas as frutas preparados na hora; não vai ter café, nem queijo, nem uma manteiguinha; e não vai estar aberta todos os dias, de cedíssimo da manhã até tarde da noite, com fornadas a toda hora como estamos acostumados. E se você chegar no meio da tarde é bem provável que vários pães já tenham acabado. Na minha padaria predileta (e uma das mais lindas de Paris), a Du Pain et des Idées, até tem uma mesinha comunitária na calçada para você se sentar e comer os maravilhosos pain des amis e o scargot au chocolat, que as atendentes te entregam, cada um, num saquinho de papel. Mas é só: você vai comer o pão do jeito que elas entregam e se você quiser um café, vai ter ir a outro lugar, comprar e trazer. Ou seja, é ótimo para quem mora na cidade, que tem à sua disposição dezenas de padarias incríveis (e outras centenas que são ótimas; os franceses levam o pão tão a sério que existem até leis que regulam a fabricação da baguette), mas não muito como experiência para nós, viajantes (eu me contentaria com um pãozinho, uma manteiga e um café).

Porque para tomar café da manhã em Paris ou você vai a uma brasserie, que são restaurantes de pratos simples e rápidos abertos o dia todo (de manhã até tarde da noite) para uma tartine com salada; as salons de thé que abrem cedo, como o Angelina, na Rue de Rivoli, que tem um cardápio matutino; a lugares de café da manhã / brunch, como o charmoso Claus, também no 1er arrondissement ; a uma das dezenas filiais do Pain Quotidien, que serve de café da manhã o dia todo (o que ótimo para os lève-tard, pessoas que gostam de dormir até mais tarde); ou aos hotéis, quando você pode aproveitar para conhecer os salões dos hotéis-palácio. Só não espere encontrar peito de peru (aqui o negócio é porco) e queijo (que você só encontra nos hotéis com café da manhã em estilo buffet para a clientela estrangeira; mesmo estando na terra dos queijos e apesar de os franceses comerem muito e diariamente, impressionantemente eles não comem queijo na primeira refeição do dia); no máximo, você vai encontrar ovos. Porque o típico café da manhã parisiense é café e pão ou croissant com manteiga e geleia (ou outra viennoiserie, que pode ser um pain au chocolat). E só.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.