Trip

As aventuras de Marcela Witt

Atleta e apresentadora Marcela Witt conta sobre rali de kitesurfe que fez pelo Nordeste do Brasil

7 Jun 2017 11:03

Por Marcela Witt

O mar é a minha casa, o lugar em que eu me sinto bem, livre e completa. Tenho 25 anos e desde que me entendo por gente estou dentro d’água. Não imagino a minha vida longe dela. Já a minha paixão por esportes de prancha vem de família. Comecei a surfar bem pequenininha. Lembro que meus pais iam para a praia velejar de windsurfe e me empurravam nas ondinhas antes de o vento entrar. Depois disso, eu nunca parei e fui me apaixonando cada vez mais.Comecei no kitesurfe um pouco mais velha, aos 14 anos, e foi amor desde a primeira vez. O esporte ainda era novo no Rio de Janeiro e não tinham muitas pessoas da minha idade velejando. Meu pai, meu tio e meu avô já velejavam e resolvera

m me ensinar. Menos de um ano depois eu já estava participando de campeonatos. Apesar de nunca ter gostado muito de competições, a ideia de viajar por aí me fascinava. A competição acabava virando só um pretexto para passar a vida na estrada.

Pouco tempo depois comecei a fazer parte de programas do Multishow, e logo em seguida do canal OFF. Por causa disso, o retorno para patrocinadores foi ficando cada vez maior e eu precisar competir. Descobri que o que eu gosto de fazer é produzir conteúdo. Desde então, não parei mais em casa. Vou de um canto para o outro velejando, surfando e produzindo fotos e vídeos para os meus patrocinadores. Ano passado, fui para Patagônia, Califórnia, Austrália, Indonésia, Nordeste e Uruguai, e fiquei, em média, 40 dias em cada lugar. Este ano, fiz uma viagem de carro de quatro meses pelo Chile e pela Argentina, passei 45 dias em um barco na Antártida, dei uma volta pelo Uruguai, visitei o Nordeste por um mês e acabei de voltar do México. Não sei mais o que é ter uma casa só.

Sempre gostei de desafios. Não sou muito de ficar na zona de conforto, sabe? Mas confesso que quando me convidaram pela primeira vez para participar do Surfin Sem Fim, um rali de kitesurfe pelo Nordeste do Brasil, eu fiquei um pouco insegura. O downwind mais longo que eu já tinha feito era de, no máximo, oito quilômetros e aquele seria de mais de 300 KM, em três dias! Resolvi não perguntar muito e aceitei. Não tinha noção de que kite usar, então coloquei uns três diferentes na mala e fui. Não importava se eu estava preparada fisicamente ou mentalmente, a única coisa que eu tinha certeza era de que essa experiência seria incrível, mesmo se eu não completasse o trajeto todo. Precisava viver aquilo.

ainda bem que fui. Foi uma das experiências mais especiais que eu já tive na vida e talvez a mais desafiadora e gratificante. Nada se compara à sensação de missão cumprida no fim do dia depois de velejar o dia todo por lugares mágicos. Assistir ao sol se pôr dentro d’água depois de horas de velejo é tão energizante que é como se eu estivesse recarregando as baterias para o dia seguinte. É uma sensação que preenche o corpo todo e dá a certeza de que estou no lugar certo na hora certa, como se fosse uma meditação. Minha cabeça se esvazia e eu me sinto plena e completa. Outras vezes começo a pensar na vida e as coisas se encaixam como nunca. Lá, o relógio funciona de outro jeito e as prioridades e desejos são outros. É um contato máximo com a natureza e comigo mesma.

Evolução

Participei do Surfin Sem Fim cinco vezes e cada uma delas foi completamente diferente da outra. Digo isso, porque a troca com a natureza e com o grupo, que é o que faz a viagem ser tão especial, está sempre em constante mudança. As bocas de rio se movimentam a cada ano, as marés fazem a paisagem mudar completamente, a vegetação é diferente a cada estação e o grupo nunca é o mesmo.

Eu poderia tentar comparar essa experiência com alguma outra que eu já tenha vivido, com uma meia maratona talvez… mas não, não seria justo. Esse downwind (quando o atleta acompanha a ondulação que está na mesma direção do vento) é mágico e incomparável. Não conheço nenhuma pessoa que tenha feito e não tenha se apaixonado – a maioria volta todos os anos, religiosamente.

Conclui alguns ralis de 350 km e outros de 600 km, e os dois são bem distintos. O mais curto é bom para se familiarizar com toda a experiência e sentir o ritmo. Neste, durante os downwinds as coisas acontecem com mais calma, as paradas para comer e beber água são mais tranquilas, e temos mais tempo para surfar as ondas do caminho. É mais divertido e não deixa de ser desafiador. Normalmente saímos da Taíba, a 76 km de Fortaleza, que é um lugar muito bom para o kitewave e dormimos duas noites pelo caminho em hotéis do e-group, organizador do passeio, até chegar no Rancho do Peixe, na Praia do Preá, a 12 km de Jericoacoara. Durante o trajeto, passamos por picos de onda para quem gosta do kitewave e flats incríveis para os que gostam do lisinho – é a combinação perfeita. Esse é um trajeto em que o carro acompanha pela areia na maior parte do tempo, o que dá maior segurança e confiança para quem está na água. Além disso, vamos sempre com um GPS sinalizador para qualquer emergência.

Já o “Iron Man”, que tem 600 km de percurso, é para quem gosta de adrenalina e quer se desafiar do começo ao fim. São seis dias velejando do amanhecer até escurecer – com assistência de telefone satélite, GPS localizador, carros em alguns trechos e hotéis para dormir durante o caminho – e indo até o limite. Durante o percurso, muitas vezes sinto as minhas pernas e mãos arderem e algumas vezes chego na praia chorando (literalmente) de felicidade por ter completado mais um dia. Depois de atravessar os três estados (Ceará, Piauí e Maranhão) velejando eu comecei a enxergar o kite de outra forma. Agora, além de um esporte eu vejo o kite como um meio de transporte. Começo o downwind uma pessoa e saio de lá outra. Os downwinds te fazem evoluir como velejador e como pessoa. Só quem faz entende.

 

Veja mais