Trip

Argentina por dentro

Hermés Galvão explora as charmosas metrópoles de Córdoba e Rosário

por Hermés Galvão 17 Nov 2016 10:06

No olho do Pampa argentino, onde o vento faz a curva, a prova de que o charme platino vai além de Buenos Aires. Córdoba e Rosário respiram a mesma elegância que fez a fama do país mais europeu do Novo Mundo. Córdoba é espontânea, informal, e Rosário não tem a menor pretensão. O cruzamento de ambas pode resultar em uma agradável movida em ritmo madrilenho ou uma saison romântica com direito a um acompanhante e muitos acompanhamentos. A noite é a pedida, o vinho é a bebida, mas é bom acordar cedo para ver a sobriedade das construções em barroco espanhol, igrejas jesuítas e monumentos centenários que contam a história de uma região habitada por um povo surpreendentemente hospitaleiro.

Córdoba, apesar de seus mais de um milhão de habitantes, tem uma diagramação compacta. O perímetro relevante pode e deve ser feito a pé. Esqueça o guia de bolso comprado em livraria de aeroporto e descubra por si o que há por trás de igrejinhas de pedra e lojas de produtos em couro. A partir da rua Obispo Trejo, onde carros não entram, uma coleção de jóias da arquitetura colonial tombadas pelo Patrimônio Cultural da Humanidade. Logo na primeira esquina, o brilho jesuíta da Universidad Nacional, pioneira na Argentina, fundada há mais de 380 anos pelos padres da ordem religiosa Companhia de Jesus. O campus mantém o estilo original de 1621, data de conclusão do mosteiro. Clausuras foram convertidas em salas de aula, jardins internos com hortênsias, laranjeiras e jasmineiros, que no século XVII serviam para meditar, hoje são cenários perfeitos para romances acadêmicos, grupos de estudo e rodas de conversa profunda, afinal em fase de graduação todos moram na filosofia. A importância da universidade é tanta que a cidade é conhecida por ‘La Docta’.

Aprende-se por osmose que o mundo por lá gira em torno dos estudantes e de seus reitores, padres e freiras das mais variadas ‘modalidades’: franciscanos, dominicanos, carmelitas descalças e jesuítas em fiel sintonia com praticantes, não praticantes, ateus, judeus, meu Deus e pagãos – muito embora seja nítida a força do catolicismo. Catedrais vivem lotadas de fiéis, os confessionários têm aqui uma rotatividade típica de drive-thru e quase que por milagre são os jovens os mais ardorosos beatos. Sim, Córdoba é sagrada de dia. E profana à noite.

Ao escurecer, o clima é de uma enorme república ao ar livre. Hormônios à solta, flerte, biroscas tipo mata-aula escondem bares amistosos com trilha sonora vintage e horário de funcionamento integral, de segunda-feira ao último cliente. Claro que em coração de estudante ainda bate o som de Janis Joplin, Jim Morrison, Bob Marley e John Lennon, ídolos previsivelmente enquadrados em pôsteres que estampam as paredes de cada estabelecimento. Restaurantes oferecem comida farta e temperos criollo e mediterrâneo, tintos a preços infantis e empanadas de recheios explosivos. A cerveja é servida em todas as mesas e aparentemente é ali que se concentra o maior número de consumidores de pilsen per capta, ou melhor, per mesada. Alunos trabalham como garçons, vendedores de loja, namoram vizinhos, se apaixonam no verão, se casam no inverno e fazem prova de ressaca sem a menor culpa.

Contagiantes, são eles os primeiros a acordar e transformar Nueva Córdoba, a fração contemporânea da cidade, num delicioso vai-e-vem de pessoas à procura de sombra, água fresca, cafés e sorveterias espalhadas estrategicamente pelos quatro cantos da cidade. Difícil é escolher em qual entrar e já que o pecado mora ao lado, vale pedir provinhas até chegar a conclusão de qual sabor tomar. As variações em doce de leite são imperdíveis, mas a contagem calórica é uma equação de segundo grau com resultados inconclusivos.

De volta ao Centro Histórico, rápido rasante na Plaza San Martín para conhecer a Catedral, construída em 1580, três anos depois da fundação de Córdoba. É a mais antiga da Argentina, mas sua última viga só foi colocada 200 anos depois numa ação conjunta entre caudilhos, padres e índios sobreviventes à ‘pressão’ espanhola. Em parte barroca, em parte neoclássica, tem uma imponente cúpula cercada por austeras torres românicas. Os relógios são decorados por anjos trombeteiros vestidos de plumas exóticas, como as usadas pelos artesãos guaranis que os esculpiram. O interior da basílica foi redecorado no começo do século XX pelo fundador da primeira escola de Belas Artes do país, Emilio Caraffa, uma espécie de Portinari em versão pampeira. Do outro lado da praça situa-se um conjunto de edifícios dedicados aos missionários da Companhia de Jesus, como o Monastério das Carmelitas Descalças, projetado em 1770 por arquitetos portugueses trazidos do Brasil, e a Manzana de los Jesuitas, com suas igrejas e colégios hoje transformados em conservatórios, museus e centros culturais.

Córdoba também guarda surpresas em seus arredores. O trecho de 150 quilômetros ao norte do microcentro é conhecido como o Camino de la Historia. Esta que constitui uma das mais belas estâncias jesuítas do país ainda guarda a herança dos primeiros bem aventurados a chegar na região. Ao longo da estrada, surgem pequenas cidades pitorescas com ruínas que merecem um minuto de sua atenção. Em Jesús Maria, Santa Catalina e Villa Tulumba marcas da colonização hispânica e das missões. Como a fé move montanhas, recomenda-se seguir para o sul até os vilarejos ao pé do Valle Traslasierra, refúgio temperado para os dias de calor a 900 metros acima do nível de um bar. Alta Gracia e Villa General Belgrano ficam a 40 minutos de altura, portanto é possível ir e vir sem correr o risco de perder a noturna. Lá embaixo, em plena selva de pedra, longe da influência portenha, uma lição de civilidade, modernidade e tradição que também se aplica a Rosário, a maior cidade da província vizinha, Santa Fé.

A maré de Rosário é mais bucólica, quase pacata. Seu dia-a-dia está intimimante ligado ao rio Paraná, que aqui ganha status de praia. Seguindo a Costanera, via Rambla Catalunã (como é chamado o calçadão), chega-se ao balneário La Florida e seu areal lotado de barzinhos tipo pé descalço. Ali, o povo se esbarra, se entende e namora em trajes sumariamente democráticos. Aviso: o complexo é dividido em duas partes, sendo uma área restrita a pagantes. O ingresso custa apenas 3 pesos. In loco, percebe-se a diferença que tal quantia faz na vida de uma pessoa. Mais adiante, um breve tour fora de hora pelo Paseo del Caminante com vista panorâmica para as ilhas e canais que formam o Alto Delta. Vegetação intacta e aventura, ponto ideal para prática de esportes aquáticos e, como diria sua amiga hippie, momentos de encontro com o seu próprio eu. O acesso é feito por balsas e o embarque é imediato a partir do porto La Fluvial.

Em terra firme, no refresco da brisa que sopra do Paraná, começa a maratona pela antiga Rosário, que acumula as funções de centro financeiro, histórico e residencial chic com casas e edifícios art-déco. De frente para o rio, parques e jardins desenham avenidas e áreas de lazer com píer para pescaria, ciclovias, pistas de cooper e mercados de pulgas para gostos insólitos. De costas, o espírito de quem vive a céu aberto. A cidade é quente e úmida pela própria natureza, no verão os termômetros chegam a marcar pornográficos 42 graus. Entre meio-dia e quatro da tarde ninguém se atreve a sair de casa, comerciantes fazem a siesta e pedestres buscam refúgio no ar-condicionado dos ‘paseos’. É justamente nesta hora, com protetor 30, que se vai à luta para descobrir o que há por trás das sombras da rua Córdoba, fechada para carros e aberta a todo tipo de gente.

Rosário é terra natal de Che Guevara, embora não haja um busto sequer do santo padroeiro da esquerda festiva. Em compensação, à direita do rio, surge o maior símbolo da cidade, construído em 1957 em homenagem ao general Manuel Belgrano, um dos mártires da independência. O Monumento Nacional a la Bandera, impresso na nota de 10 pesos, é a prova concreta da alma populista dos governantes argentinos. Uma overdose de mármore italiano distribuído em obelisco, panteão, colunas, escadarias e tudo mais que a arquitetura militarista se permite. Soldados de sentinela protegem o espaço de rebeldes e ocasionais fora-da-lei de passagem para a Plaza 25 de Mayo, ponto de partida para andanças noturnas no eixo Pellegrini-San Lorenzo, onde se concentram os melhores restaurantes, cafés, boates, galerias e lojas de departamento. Assim como em Córdoba, comer, beber, comprar e dançar em Rosário é bom, barato e levemente sofisticado. O relógio biológico dos boêmios rosarinos marca o mesmo horário dos hermanos cordobeses. A famosa movida começa depois das duas da manhã e só acaba quando as primeiras confeitarias começam a abrir as portas para servir deliciosas medialunas frescas e um espresso tirado à moda italiana. Antes do amanhecer, vale provar o melhor da culinária regional, com peixes frescos by rio Paraná e carnes especiais típicas da cozinha da Pampa Húmeda. Para comer devagar: capivara ao molho de abacate com legumes salteados – e para descer redondo (ou mais rápido, depende), uma taça do melhor Malbec. E ao anoitecer, a certeza de que até em Rosário, depois da meia-noite, todos os gatos são pardos. A ver.

Hermés Galvão

Hermés Galvão nasceu em 1975, no Rio de Janeiro. É jornalista e cronista de Carbono Uomo e Vogue Brasil. Autor do livro “Como Viajar em Tempos de Crise Financeira e Existencial”. Vive pelo mundo, sem destino conhecido, entre Barcelona, Roma e os espressos mal tirados dos aeroportos do Brasil.