Trip

Amsterdã: uma aldeia global na Europa

Compacta de tamanho, grande de ideias, a cidade é terreno fértil para subversão e criação

por Hermés Galvão 18 Ago 2016 13:49

Se Londres é a Torre de Babel, nada mais apropriado que chamar Amsterdã de Arca de Noé. E sua fauna, diversa e divertida, convive em harmonia num espaço físico onde talvez não coubesse metade das espécies humanas catalogadas na Terra. Compacta de tamanho, grande de ideias, a cidade famosa pelo liberalismo, terreno tradicionalmente fértil para subversão e criação, é exemplo vivo de uma história bem sucedida de tolerância conquistada pelo convívio diário de pessoas diferentes e culturas distantes que, uma vez reunidas, tornaram a capital holandesa singular em sua rotina. Não chega a um milhão sua população, mas ela talvez seja a mais heterogênea do mundo – afinal, aonde mais você encontraria longe de casa, além dos imigrantes habituais, gente do Suriname, Aruba, Curaçao e Indonésia, todas ex-colônias holandesas? E os nativos, acostumados desde sempre a conviver com as diferenças, são os primeiros a agradecer pela diversidade alcançada. Misturam à sua homogeneidade de cor e estatura, à sem gracice de sua comida e à falta de cor de sua terra e do seu céu, elementos fundamentais para a formação de um modus vivendi enérgico e excêntrico, colorido, vivo, apimentado, em constante mutação, sempre aberto às novidades que não param de chegar dos quatro cantos do mundo. E não é de hoje.

Nome derivado de uma represa (dam) no rio Amstel, Amsterdã nasceu e cresceu lutando contra a maré. Desde a sua fundação, coisa de 700 anos atrás, foi povoada por minorias, gente fugindo da fome e da guerra, da igreja e da discriminação. Vieram pescadores, mercadores, judeus, árabes, cristãos. De forasteiros passaram a comerciantes, desenvolveram habilidade precisa para ourivesaria e joalheria, lapidação e venda de diamantes; foram também bravos navegantes, cruzaram mares em busca do surpreendente. Trouxeram nos porões pigmentos e histórias de terras exóticas que mais tarde ganharam vida em obras de arte. Viajantes observadores que, sem saber, inventaram a globalização – e, sem pensar, tornaram-se cosmopolitas.

Está no DNA deles a vocação para homens do mundo. Não à toa, vivem na vanguarda social, cultural e econômica, são pioneiros em criar leis e políticas que privilegiam o individualismo – é cada um com seu cada qual, e ninguém tem nada a ver com isso. Está tudo às claras para quem quiser ver, na transparência dos janelões (sem cortinas, sempre) das casas super bem decoradas pelos moradores de Jordaan, o bairro boêmio, e nas portinhas de vidro da Red Light Zone, o bairro blasfemo, onde meninas de todas as raças mostram segredos que a maioria das mulheres guardam a sete chaves; na marola que sai dos coffee shops e no perfume generoso das flores que crescem soltas pelas praças, casas e parques onde, não se assuste, casais, heteros ou não, podem chegar às vias de fato na maior discrição. Pois sim, apesar de toda a liberdade, eles sabem como e até onde usá-la, sem invadir o espaço ou o seu campo de visão – afinal, ninguém é obrigado a compartilhar do gosto alheio, por menos duvidoso que seja. Hedonistas sim, bon vivant não.

Trabalhadores e ricos, são avessos à ostentação e, ao contrário de alguns vizinhos, têm aversão a assistencialismo – pega mal ganhar mesada do governo. Até o rei, Willem-Alexander, pega no batente: o sangue azul é piloto oficial da KLM e você, sem saber, já deve ter voado com ele por aí (é ordem expressa da companhia não avisar aos passageiros que sua alteza está no comando). No ar ou em terra firme, seja nobre ou plebeu, tudo muito cool e low profile. A mais cosmopolita das capitais europeias, desinibida, easygoing e civilizadíssima, dá as boas vindas a quem quer que chegue. Na cidade diamante, dos lapidadores e joalheiros seculares, arte, design, noite, moda e gastronomia brilham nos olhos de quem não veio ao mundo só a passeio.

Em termos naturais, Amsterdã tinha tudo para dar errado. Pantanosa e abaixo do nível do mar, clima de amargar. O vento frio que sopra do Mar do Norte é de cortar ao meio, a chuva fina não é passageira e  o verão, quando chega, cai num domingo – não necessariamente de sol. E já que a natureza não ajudou, eles trataram de fazer a parte deles. Orgulhosos de sua pátria “torta”, os holandeses brincam ao dizer que Deus criou o mundo e eles, a Holanda. Fizeram milagre com seu terreno pouco firme, construindo diques, canais e erguendo às suas margens paisagens urbanas que desafiam calculistas e arquitetos; construíram ao longo dos anos um estilo de vida admirável e formaram um povo sarcástico e bem humorado até debaixo d’água (mesmo) – a não ser que você cruze o caminho deles na contramão, de bicicleta.

Hermés Galvão

Hermés Galvão nasceu em 1975, no Rio de Janeiro. É jornalista e cronista de Carbono Uomo e Vogue Brasil. Autor do livro “Como Viajar em Tempos de Crise Financeira e Existencial”. Vive pelo mundo, sem destino conhecido, entre Barcelona, Roma e os espressos mal tirados dos aeroportos do Brasil.