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A porcelana alemã da Meissen

Fábrica surge depois de séculos de paixão pelo “ouro branco”

por Shoichi Iwashita 5 Set 2017 13:03

Se a cerâmica surgiu no período neolítico em várias partes do mundo quase que simultaneamente — da Amazônia brasileira ao que foi a Tchecoeslováquia, passando pelo Japão do ano 25.000 a.C. —, a porcelana foi um caso único, uma invenção chinesa. E, por séculos desde sua criação (por volta da época de Jesus), a China deteve o savoir-faire dessa variação de cerâmica que podia ser elegantemente moldada, esmaltada e pintada, e cujo resultado eram utensílios branquíssimos e brilhantes, duros, resistentes e impermeáveis. O “ouro branco” — um belo upgrade da fosca, terrosa e frágil cerâmica — logo conquistaria o mundo: dos vizinhos coreanos e japoneses, a muçulmanos e europeus, para quem a porcelana era símbolo de poder, bom gosto e status (desde o começo do século 13, todas as casas reais importavam porcelanas da China). E uma vez que eram caríssimas — até para os imperadores chineses, as peças faziam uma longa viagem para chegar até eles —, é claro que o mundo tentou copiar a porcelana, sem sucesso (muito tempo depois, os coreanos foram os primeiros depois dos chineses a produzirem porcelana e, quando isso aconteceu, japoneses sequestravam artesãos coreanos para descobrir a fórmula).

Por mais de mil anos os europeus não tinham a menor ideia de como eram fabricadas as branquíssimas porcelanas chinesas feitas com pasta dura; objetos de desejo entre ricos e nobres desde a Idade Média (Francesco I de Medici até havia tentado fabricar porcelana na Florença dos anos 1580, mas diante do resultado inferior, desistiu). Mas foi a paixão e a obsessão de Augusto, o Forte, o príncipe-eleitor do Reino da Saxônia (hoje Alemanha), que fez com que alquimistas contratados por ele descobrissem a fórmula — uma mistura de caulim, feldspato e quartzo — e transformassem Meissen, essa pequena cidade próxima a Dresden, na primeira fábrica a produzir porcelana na Europa em 1708; na ativa até hoje e aberta para visitação (pense que a Manufacture de Vincennes — depois Sèvres — só surgiria na França em 1740 para competir com a Meissen). E para chegar à manufatura que até hoje é estatal — e segue encantando o mundo com suas criações depois de mais de 300 anos —, basta pegar um S-Bahn (trem metropolitano) de Dresden para Meissen-Triebischtal e seguir as placas que começam na estação e vão até a fábrica, em uma agradável caminhada de cinco minutos. Lá, além de visitar o museu (tudo bem que as melhores peças você verá em outros grandes museus do mundo), você pode ver os artesãos em ação acompanhado de um audioguide ou de um guia, e descobrir, por exemplo, que as cores das tintas aplicadas nas porcelanas antes de as peças irem para um forno queimar por 40 horas — podendo chegar a 80 — a uma temperatura de até 1400° C, são bem diferentes do resultado final (o verde musgo fosco se transforma num lindo azul brilhante depois da queima).

Assim como a China imperial mantinha uma manufatura exclusiva para o imperador (e só ele e sua família podiam ver as peças produzidas para eles; as peças que não passavam pelo critério estético eram destruídas e enterradas), Meissen nasceu como uma manufatura real, e peças belíssimas foram produzidas para os príncipes saxões aqui (sim, todas aquelas que você viu ou vai ver expostas no Zwinger), mas já em 1713 a produção foi colocada no mercado e encantou a Europa. E ela nunca pertenceu a uma entidade privada: em 1830, ela passou a ser do estado da Saxônia (a Alemanha ainda não existia como país ainda); depois da Segunda Guerra Mundial, quase toda a produção era enviada para a União Soviética; e, logo após o estabelecimento da República Democrática Alemã (a Alemanha Socialista), a manufatura foi devolvida para a Alemanha em 1950 e se tornou uma empresa “do povo”. A VEB Meissen Porzellan era uma das poucas empresas rentáveis da economicamente problemática Alemanha Socialista, já que faturava em moeda estrangeira. Depois da reunificação alemã em 1990, a companhia foi restabelecida ao estado da Saxônia, que hoje é a única dona.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.