Trip

A idílica região de Cinque Terre

Do topo das belas montanhas onde se vê o mar, Hermés Galvão fala sobre a costa da Ligúria

por Hermés Galvão 16 Set 2016 09:48

Não há um cascalho nas praias do Mediterrâneo que já não tenha sido explorado, dilapidado e lotado desde a Idade da Pedra, mas ao chegar “fora de hora” tudo soa novo e misterioso. Cinque Terre, um conjunto de vilarejos encravados na costa da Ligúria, parecia esquecido no tempo e no vento no apagar das luzes deste verão – na verdade, já era fim de outubro, mas o sol, por mais tímido que tivesse, ainda lembrava o calor da estação que todo ano desfigura a região, tirando o jeito matuto e o bom humor de sua gente.

A viagem rumo a Vernazza, Riomaggiore, Manarola, Corniglia e Monterosso al Mare começa em La Spezia, ponto de partida e chegada para desbravar as cinco terras, uma versão pocket da vizinha Gênova com todos os predicados e prejuízos de uma zona portuária, com a ciranda de gaivotas que cercam barcos pesqueiros à espera da féria do dia e restaurantes que prometem o peixe fresco, mas não cumprem. Um “bilhete único” a 15 euros permite transitar entre elas por um dia inteiro, de trem ou a pé pelas longas trilhas que ligam uma cidade a outra – os trechos onde as rochas parecem desabar a qualquer momento sobre o mar (e acontece) foram interditados antes que cabeças rolassem pirambeira abaixo. Mas é lá de cima, tão avante a um passo do céu, que se tem a ideia real do que parece sonho, mas é a imagem real do cartão postal. Miragem à vista: um senhor de seus 70 e poucos, no ponto mais alto da montanha, quando que a um passo da exaustão, vende suco de laranjas doces como as do mercado de Fez ou de Sorrento, feitas na hora com um espremedor elétrico. Surreal.

Lá embaixo, a recompensa. Monterosso é para o banho de mar merecido, com suas praias que lembram os elegantes e decadentes balneários seguintes Rapallo, Livorno e Santa Margherita Ligure (sabemos que destinos veranistas caem em desuso com a velocidade da luz e com a força do turismo predatório – aconteceu com Copacabana, Nice, Daytona Beach, Búzios e Acapulco); em Riomaggiore, portinhas oferecem sorvetes artesanais de avelãs e pistache, frutos do mar fritos servidos em cones de papel nos mesmos moldes dos amendoins vendidos nas madrugadas cariocas; Vernazza é a imagem de um quebra-cabeça de mil peças, com suas casas em rosa fragola, amarelo limão e terracota debruçados sobre o verde esmeralda das águas; Manarola é uma onda de lojinhas que vendem delícias DOC da região, do legítimo pesto, a maior invenção local, a trufa que veio emprestada da vizinha Piemonte. Corniglia, a única das cinco terras que não deságua no mar, tornou-se pela própria natureza de sua geografia íngreme o lugar perfeito para contemplar o sol que se põe apressado no horizonte de outono, laranja como o spritz que bebe-se no bar acompanhado de petiscos servidos pela conta da casa: para cada drink, um pratinho com bruschetta de aliche, farciti cortados em tamanho diminuto e salumi feito à moda toscana. E no cair da noite, quando o vento já anuncia a madrugada fria, é hora de partir, dormir com o som das águas batendo sobre as rochas na incerteza do dia de amanhã. Pode ser que faça sol, pode ser que venha o inverno em forma de chuva constante. Mudamos nós, passageiros, e partimos para outro porto seguro, de olho na previsão do tempo. Diz que ainda faz calor na Sicília.

Hermés Galvão

Hermés Galvão nasceu em 1975, no Rio de Janeiro. É jornalista e cronista de Carbono Uomo e Vogue Brasil. Autor do livro “Como Viajar em Tempos de Crise Financeira e Existencial”. Vive pelo mundo, sem destino conhecido, entre Barcelona, Roma e os espressos mal tirados dos aeroportos do Brasil.