Motor

RS3 nas Arábias

Experimentamos o novo esportivo da marca alemã, um pequeno demônio de 400 cavalos e velocidade final na casa dos 300km/h.

por Rodrigo Mora 26 Fev 2019 19:55

De Salalah (Omã)

 

Em 2018, quando recebi o convite da Audi para experimentar o novo RS 3 em Omã, achei estranho. Afinal, o sultanato tem tanta tradição em questões automobilísticas quanto a Alemanha tem em comida árabe e dança do ventre. Nascido em 2011 com 340 cv, o esportivo avançou à segunda geração em 2015. No Salão de Genebra de 2017 apresentou algumas atualizações. A estrela é o novo motor 2.5 turbo de cinco cilindros. Construído em alumínio, é 26 kg mais leve e saltou de 367 cv para 400 cv de potência.

 

 

Outra importante mudança está no comportamento da tração Quattro. Na primeira geração, o RS 3 era alvo de críticas por ser muito preso ao chão e sufocar parte da diversão ao volante. Era como tentar tirar um trem dos trilhos. Pois, agora, o sistema de tração entende que o motorista está dirigindo esportivamente e regula a distribuição de torque, podendo joga-lo em maior quantidade para as rodas traseiras. Na prática, é como se o RS 3 ganhasse mais molejo no quadril. E na atual encarnação, o RS 3 também é um sedã – até agora, só existia na carroceria hatchback. Mas, curiosamente, o porta-malas do hatch é maior: 335 litros contra 315 litros do sedã. Seus principais rivais são o Mercedes-AMG A 45 e BMW M2.

 

CAMELOS NA PISTA
Na saída para o test-drive, cruzo os portões do Al Baleed Resort Salalah ainda desconfiado sobre quando, como e onde eu seria cortejado por cada um daqueles 400 cavalinhos. Nos arredores do nababesco hotel, o trânsito calmo não resolveu minha angústia, mas me fez perceber que, se o asfalto for bom, o RS 3 sabe se comportar andando devagar. As trocas de marcha são suaves, a suspensão é gentil quando acionado o modo Comfort e o motor ronrona como um gatinho.
Dá tranquilamente para contemplar o Virtual Cockpit, painel totalmente digital e configurável que equipa os carros da marca atualmente. Especialmente se no fundo do painel estiver o mapa de navegação. Ou acariciar o revestimento em Alcantara que se espalha pela cabine e forra o volante. E aí está a razão de ser do RS 3: trata-se de um esportivo de alto desempenho sem abrir mão da praticidade. Pista no domingo, supermercado na segunda.

 

 

Mas não foi para desfrutar do típico luxo alemão que eu viajei horas e encarei barbudos mal-encarados na imigração. Fui atrás de respostas quase existenciais. O RS 3 me faria desejá-lo tanto quanto os rivais? Os sistemas de direção e tração foram desenvolvidos por engenheiros com tesão por carros ou por burocratas que não sabem o que foi o Grupo B dos ralis? O ronco inebriante do 5 cilindros da geração anterior fora mantido? Será que as estradas estariam livres para a diversão?

 

Pilotagem segura e pé embaixo pelas estradas de Omã

 

Para todas as respostas, sim. Ao afundar o pé no acelerador com a mesma confiança de Muhammad Ali encaixando um cruzado, o 2.5 turbo de 5 cilindros faz o sedã disparar insanamente. As trocas de marcha do câmbio automatizado de dupla embreagem e sete marchas são quase imediatas. Depois de alguns minutos guiando alucinadamente nas sinuosas e quase desertas estradas de Omã, algumas coisas vão se encaixando. Faz todo o sentido o couro Alcantara (similar à camurça) no volante, já que sua função ali é menos enfeitar e mais absorver o suor das mãos fruto da alta carga de adrenalina. O conta-giros está destacado no centro do painel, justamente para orientar melhor o condutor sobre qual marcha está engatada e quão perto está o limite do motor.
A certa altura, me deparo com uma cáfila de dromedários atravessando a pista, calmamente. Aciono os freios bruscamente e me surpreendo com o poder de frenagem deles. Desvio ainda a certa velocidade e percebo o quanto a direção é afiada e precisa, antes de acelerar novamente. Gosto de pensar que desviar de dromedários na estrada foi algo armado pela Audi. Enfim, entendo porque vim parar em Omã.
Corta para São Paulo. Em uma semana de convivência com outro RS 3, não teve  camelo na pista. Mas teve escola, supermercado, trânsito e garagem apertada. Vida real na veia. Nessas situações, esqueci que estava ao volante de um esportivo de 400 cv – ele pode ser dócil, prático e ainda carregar um monte de tralha no porta-malas. Você só precisa ter  R$ 329.990. 

 

 

Rodrigo Mora

Rodrigo Mora é jornalista especializado no segmento automotivo. Ele assina o blog Mora Nos Carros.

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