Motor

Paraíso dos Antigomobilistas

Colecionador de carros e entusiasta dos restauros, Maurício Marx visitou Monterey, na Califórnia, para sua anual semana de veículos antigos e para o Pebble Beach Concours d’Elegance, o mais importante do mundo

18 Jan 2018 12:17

Por Maurício Marx

Se você é apaixonado por carros antigos da melhor qualidade, não pode deixar de visitar a semana de carros antigos na cidade californiana de Monterey, um evento realizado anualmente. Imagine os melhores carros do mundo sendo exibidos, correndo e sendo vendidos em leilões. Tudo o que vemos nos livros ou pela internet está por lá: mais de 5 mil veículos das melhores marcas, raros e de altíssimo valor histórico divididos em inúmeros eventos para você escolher. Entre eles, o Concurso de Elegância, corridas históricas, passeios e os famosos leilões. Para apaixonados como eu, é muito importante não se esquecer de levar qualquer tipo de calmante, porque o evento é de enlouquecer.

No último mês de agosto, passei a Monterey Car Week vendo o que há de melhor em termos de raridade, beleza e importância histórica. É de ficar pasmo, chocado e maravilhado. Os maiores colecionadores do mundo levam o que têm de melhor em suas coleções para participar com suas joias. Mas, ter a honra de levar um carro não é tão simples assim – o veículo tem que atender a difíceis requisitos. Primeiro e mais óbvio, o carro tem que ter relevante e importante histórico para poder ser convidado. Depois, a máquina passa pelo crivo dos maiores conhecedores, que decidem em conjunto sua elegibilidade. Outra condição sine qua non é que o carro tem que estar perfeito, em condições “melhores do que de fábrica”; ou seja, tem que passar por longo período de restauro, gastando-se enormes montantes para que não apresente nenhum tipo de defeito e que atenda a todas as especificações da época. Os carros que participam dessa semana são totalmente diferentes dos que se veem pelas terras tupiniquins, porque a cultura antigomobilista brasileira é voltada em sua maioria a carros mais simples e americanos. São veículos que não aparecem por lá, às exceções dos americanos dos períodos pré e pós-guerra, com carrocerias especiais.

Na Monterey Car Week figuram marcas importantes com carrocerias especiais, de baixa fabricação e altíssimo valor. Em minha loja de carros antigos em São Paulo, a Universo Marx, é uma vez ou outra que aparecem carros desse porte à venda e, quando aparecem, infelizmente são vendidos para fora do Brasil. Além de me dedicar à minha loja, tenho minha própria coleção com carros elegíveis para esses eventos. Ela começou com o meu avô, foi aumentada em grande número pelo meu pai e, hoje, é mantida por mim e minha família. Diferentemente das coleções brasileiras, meu pai montou uma grande coleção de carros europeus, exatamente os elegíveis para esse tipo de evento. Foi assim que, em parceria com a Monreal Tours, a Universo Marx formou um grupo de 30 entusiastas e colecionadores para essa inesquecível viagem. Depois da Monterey Car Week, ainda gastamos mais uma semana em Los Angeles, onde conhecemos dois importantes museus e as grandes lojas de carros antigos da cidade.

Nossa semana começou em uma terça-feira, com o Carmel By The Sea Concours on the Avenue. Trata-se de um belíssimo Concurso de Elegância nas ruas da charmosa cidade de Carmel. Antes de o concurso começar, lindos carros desfilavam pelas ruas em direção à entrada do evento. Cerca de 200 deles, desde os grandes clássicos europeus, americanos, microcarros e hot rods estavam inscritos. É um importante concurso, mas alguns carros dali não são elegíveis para o rígido concurso de Pebble Beach. Lá, me surpreenderam os diversos Porsche, Ferrari, Lancia, Jaguar, e BMW, mas o carro que mais me impactou foi uma Ferrari 250 GT Berlinetta SWB, desmontada sem rodas e carburadores no meio de uma encruzilhada – que maravilhosa “macumba”.

Na quarta-feira, saímos de Monterey em direção a lojas de carros e um bonito museu perto de São Francisco. A primeira parada foi o Fantasy Junction, em Emeryville, uma loja com cerca de 50 carros incríveis, todos europeus, com exceção de um Ford 1937 conversível que parecia um estranho no ninho diante de tantas raridades. Uma estrela brilhava mais do que as outras: uma Alfa Romeo 8C 2300 Touring Spider Corsa 1932. Em seguida fomos para o Blackhawk Museum, um museu muito bacana, cujo destaque era a exposição Transatlantic Style, com carrocerias especiais de design italiano e americano. Foi de encher os olhos um raríssimo Chrysler Ghia GS-1 1954.

Na quinta-feira, fomos logo cedo para o leilão da Mecum, em que cerca de 600 carros foram leiloados. Tinha de tudo, desde um simples Ford Mustang até alguns carros importantes de competição. Em seguida, um dos dois melhores eventos da semana, o Rolex Monterey Motorsports Reunion. É uma corrida de carros de competição no autódromo de Laguna Seca. Ali, a principal condição para inscrição é que o veículo tenha histórico de corridas em sua época. Em meio à sinfonia dos motores correndo pela pista, seguimos para ver os carros que ficavam em exibição e outros sendo afinados pelos mecânicos, que, sempre solícitos, atendiam-nos muito bem. O melhor desse evento é que, diferentemente dos concursos de elegância, pode-se ouvir os motores e ver os carros em movimento.

De lá, seguimos para o tão aguardado Pebble Beach Tour D’Elegance, um passeio dos carros que participam do Grande Concurso de Elegância. Não se trata somente de uma volta pela cidade, porque ela garante pontos importantíssimos para o julgamento dos carros. No trânsito mais lindo que já presenciei, destaque para uma Bugatti dos anos 1930 que buzinava para uma Ferrari Tour de France de competição, esta esperando uma Delahaye Figoni et Falaschi estacionar.

Como amante da Porsche, visitei a Werks Reunion na sexta-feira. É uma exposição voltada apenas para carros da marca Porsche de todos os modelos e anos (inclusive os modernos), que tinha desde um Porsche 356 dos anos 1950 até um Porsche Turbo 2017, exibindo ainda modelos 912, Early 911, 911, Turbo e 934 de competição. Em seguida, fomos para a Legends of the Autobahn, na qual apenas carros de fabricação alemã eram expostos, com exceção da supramencionada Porsche. BMW, Mercedes- Benz e Audi foram representadas por muitos modelos, mas com pouca diversidade de carros antigos. A maioria era de carros dos anos 1970, 1980 e 1990 – futuros clássicos, como BMW M3 E30, Audi RS2 e Mercedes-Benz 190E Cosworth, a mesma usada por Senna nas pistas, estavam por lá.

No sábado, fomos para outro evento imperdível, o Concorso Italiano. Como o próprio nome sugere, é um concurso de elegância somente para carros italianos, mas com uma belíssima exceção de elegibilidade: podem participar veículos de qualquer parte do mundo, desde que a carroceria seja italiana. Muitas marcas adotavam o procedimento, como o Nash-Healey Roadster 1953, com chassis e mecânica americana e encarroçado pela Pininfarina. À noite, seguimos para o famoso leilão da RM Sotheby´s no Portola Plaza Hotel, por onde muitos carros milionários passaram e foram vendidos. Uma Ferrari 121 LM 1955 chegou a US$ 5.720 milhões. Achou caro? E o que dizer do Aston Martin DBR1 1956, que ganhou Nürburgruing sendo pilotado pelos grandes Stirling Moss, Jack Brabham e Carroll Shelby, vendido por quase US$ 23 milhões?

Finalmente, no domingo, o luxuoso e tão esperado Pebble Beach Concours d’Elegance. Considerado o melhor concurso de elegância do mundo, foi criado, nos anos 1950, para exaltar e premiar os melhores desenhos de carroceria. Os carros mais importantes vieram de todas as partes do mundo para ser avaliados. Pelas roupas dos visitantes já se percebia o altíssimo nível do evento – havia pessoas que se vestiam como na época para abrilhantá-lo. Não pude deixar de ficar na estica (noblesse oblige), com terno, gravata borboleta e chapéu, respeitando o dress code dali. Os competidores ficam expostos no impecável gramado do campo de golfe com o mar de pano de fundo, divididos por diferentes categorias: carros do começo do século, anos 1920, pré-guerra, pós-guerra, competição, carrocerias especiais, preservação e outras mais específicas para as marcas.

O que ver primeiro? Uma Ferrari 250LM 1964 ou uma Duesenberg SJ 1935? Para seguir a ordem cronológica, começamos pelos carros do começo do século, o primeiro, um Renault Vanderbilt Racer 1906. A partir daí, grande quantidade de Isotta Fraschini de diversos modelos e carrocerias. Havia uma ala só para os carros de carrocerias especiais e futurísticas. Uma Bugatti Type 101C, reencarroçada maravilhosamente por Ghia em 1965, parecia estar sozinha, de tão bonita que era. Uma enormidade de Ferrari de competição, Delahaye, Bugatti, Maserati e Rolls-Royce também figuravam.

Os juízes levam apenas três carros de cada categoria para suas respectivas finais, mas o prêmio mais importante é o Best of Show. Independentemente de ano, marca ou modelo, os jurados escolhem o melhor carro do evento. Existe um rigor muito grande para a escolha: restauração impecável atendendo às especificações da época, ter participado do Tour, ser raríssimo, entre tantos outros; a elegância da carroceria é um ponto alto. Ganhar o Best é motivo de honra e prestígio, um enorme reconhecimento pelo trabalho de restauro, que, para alguns carros, excede dez anos. Ganha-se reconhecimento mundial, e o carro valoriza muito, como a Lancia Astura que ganhou o Best em 2016 e foi vendida para um colecionador neste ano. Tenho em minha coleção um carro igual a esse, que nunca foi restaurado e já venceu o concurso de Elegância de Araxá, o maior do Brasil. Um dos meus sonhos é levar algum carro para participar do Concurso. Minha Lancia já está em processo de eleição para poder participar na classe Pre War Preservation em 2018, e espero ansioso a notícia de que o carro será aceito.

Fiz meu próprio julgamento e escolhi os três mais importantes para ver qual seria o melhor deste ano: uma Delahaye 135MS 1947 com carroceria Figoni et Falaschi, uma Mercedes-Benz S Barker Tourer 1929 e uma Bugatti Type 57C 1939. Acertei! O carro escolhido pelos juízes com todo o mérito foi a maravilhosa Mercedes-Benz. Uma belíssima e grande carroceria de alumínio vestida por Barker, de Londres. Pronto! Não preciso ver mais nada. Poderia desaparecer naquele instante, pois já havia visto de tudo. “Deus, pode me levar”, pensei. Mas, não! Restava aquela semana em Los Angeles, visitando as lojas e grandes museus. Não! Tenho ainda todos os anos pela frente para voltar para Monterey. Não! Tenho minha loja, minha coleção, meus amigos e minha família! Ano que vem tem mais! Que pensamento…