Motor

Os seguros vão morrer de velho?

Por que os carros autônomos podem colocar as seguradoras em ponto morto

8 Ago 2017 11:03

Por Daniel Salles

Ganha um iPhone 7 quem descobrir uma emissora de televisão que simpatize com o YouTube. Ou um jornalista que não torça nariz para um blogueiro. Inovação traz, necessariamente, desconforto para quem estava estabelecido – quiçá acomodado –, se bem que o ódio figadal dos taxistas pelo Uber era mais do que esperado. O que dizer então dos carros autônomos, que prometem ser a grande novidade deste século? Quando dominarão as ruas, quanto irão custar e se vão dispensar carteira de habilitação, tudo isso ainda é um grande mistério. Mas uma coisa é certa: eles vão tirar o sono das seguradoras.

É para que você não perca o seu, afinal, que elas existem. Estima-se, porém, que 95% dos acidentes de trânsito aconteçam por falha humana. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, mais de 1 milhão de pessoas devem morrer em acidentes de trânsito a cada ano, no mundo, até 2030. O Brasil hoje é o quarto país no continente com mais fatalidades, com uma taxa de 23,4 para cada 100 mil habitantes. Números como esses, portanto, devem despencar com a entrada em cena de veículos que se dirigem sozinhos. Logo, o que farão as seguradoras, cujas altas taxas se explicam hoje justamente pela insegurança no trânsito?

As dos Estados Unidos parecem já ter se dado conta das transformações que vêm por aí. O discurso politicamente correto já está na ponta da língua. “Carros mais seguros vão beneficiar consumidores e o meio ambiente, mas podem afetar a demanda por nossas apólices”, diz Thomas J. Wilson, CEO da Allstate, uma das maiores do segmento no país. Mas Wilson não divulgou nenhum plano de ação para o futuro. “Apoiamos qualquer tecnologia que torne mais seguro dirigir, porque nosso negócio é salvar vidas.”

No Brasil, o assunto ainda parece tabu. A reportagem de Carbono Uomo entrou em contato com Porto Seguro, Bradesco, Mapfre, Allianz e Tokio Marine, mas nenhuma quis se pronunciar. A State Farm, outra gigante americana do setor, encomendou uma pesquisa ao prestigioso instituto Bloomberg Government para tentar descobrir o apelo que os veículos autônomos terão. Os resultados foram divulgados em novembro passado. As conclusões mais relevantes: os motoristas esperam que os novos automóveis resultem em menos acidentes, menos congestionamentos e em apólices mais em conta.

A verdade é que o impacto real desses novos carros nas companhias de seguros só será conhecido depois que eles já estiverem nas ruas. “É uma tecnologia tão nova que simplesmente não há dados para afirmar se ela vai mesmo alterar a frequência ou a gravidade dos acidentes”, diz Robert Hartwig, presidente do Insurance Information Institute, entidade que representa as seguradoras americanas. “Sempre que surge uma melhoria as empresas precisam de um tempo para coletar dados e, caso comprovado o efeito dela, ajustar o valor das apólices. Foi assim com os cintos de segurança e os airbags.”

Não é assunto só para as gerações futuras. Estima-se que 3,5 milhões de carros autônomos estarão circulando por aí até 2025 e, cinco anos depois, 4,5 milhões. Os da Tesla, a cultuada montadora do bilionário Elon Musk, equipados com um sistema chamado Autopilot, já foram vendidos aos milhares e continuam em alta, apesar do acidente fatal com um deles na Flórida no ano passado. Os do Uber circulam há meses em fase de testes na cidade de Pittsburgh, também nos Estados Unidos, e os do Google rodam no mesmo esquema em Mountain View, na Califórnia. Outras companhias que aceleram para desenvolver modelos autônomos são a Ford e a Volvo, as duas com a expectativa de vê-los nas ruas já em 2021. O da montadora sueca deverá ser uma versão ainda mais avançada do XC-90, o SUV lançado em 2015 que freia sozinho para carros e pedestres e tem um sistema que ajuda o veículo a se manter entre as faixas da pista. “A Volvo irá assumir a responsabilidade sempre que um de nossos carros estiver no modo autônomo. Somos a primeira montadora de carros a fazer uma promessa como essa”, afirmou Hakan Samuelsson, o CEO da companhia. Já é um alento para as seguradoras.