Motor

O futuro chegou

Estudos garantem que as famílias trocarão seus três automóveis na garagem por um veículo autônomo capaz de, sem motorista, levar os filhos à escola e o marido e a esposa ao trabalho

7 Ago 2017 12:28

Por Fernando Julianelli

Há cerca de uma década, uma montadora de automóveis fazia seus planos de negócios olhando para os próximos 30 anos. Agora isso é impossível. Ninguém sabe o que vai acontecer daqui a cinco ou dez anos. Hoje o carro é o segundo bem mais caro na vida da maioria das pessoas. Isso, somado às novas tecnologias eletrônicas e aos serviços compartilhados de transporte, está gerando um questionamento sobre o que significa possuir um veículo em casa. Se antes ter um carro na garagem era sinônimo de status, hoje ele pode ser desde só uma caixa de metal, que serve para carregar as pessoas de um ponto A a um ponto B, a uma máquina de experiências.

A indústria automobilística já percebeu as mudanças nos padrões de comportamento de parte dos consumidores, que querem um uso racional e diferenciado do carro. As tecnologias disruptivas estão nos fazendo olhar para os autônomos, para a “uberização” nas grandes cidades. Um morador de Manhattan, por exemplo, já se relaciona com seu veículo de maneira mais racional. A vaga de garagem é muito cara, não há postos de gasolina na cidade e o transporte público é de excelente qualidade. Em um centro tão caro e populoso, já não é possível ter um carro. No entanto, isso não acontece no Texas, ou na Carolina do Norte, onde as pessoas precisam se deslocar quilômetros para comprar qualquer coisa que necessitem. Os diferentes perfis de lugares trazem distintas possibilidades de avanços.

Enquanto as montadoras discutem carros movidos a hidrogênio, os veículos híbridos e 100% elétricos já são realidade. Em cidades como Milão e Paris, carros elétricos estão espalhados pelas ruas, prontos para serem alugados. Tudo debitado automaticamente no cartão de crédito. Acreditam que no futuro pessoas trocarão seus três veículos na garagem por um completamente autônomo. Usando um aplicativo a família poderá programar a agenda de viagens do automóvel que, sem um motorista, levará os filhos à escola e o marido e a esposa ao trabalho ou à academia. Conectado ao Google Maps e ao Waze, poderá avisar se estiver parado no trânsito. Pode parecer o futuro dos Jetsons, mas está mais perto do que imaginamos.

Na equação, quanto mais carros compartilhados nas ruas, menos veículos rodarão pelas cidades. Para algumas pessoas e cidades já não faz sentido ter uma máquina de duas toneladas para carregar uma pessoa de 85kg, que vai ficar 95% do tempo parada no trânsito, desvalorizando. Sem os algoritmos, a tecnologia, a internet e o smartphone não havia outra opção de mobilidade. Agora o futuro chegou.

Todo o mercado está mudando nesta “Quarta Revolução Industrial”, em que estamos saindo do físico e partindo para o digital. Hoje a indústria de seguros de automóveis fatura US$20 bilhões por ano nos Estados Unidos. Com carros autônomos, que não batem mais, os seguros de colisão serão desnecessários. Milhares de taxistas, caminhoneiros e pessoas que fazem serviços de entrega serão substituídos por caminhões autônomos e drones. Uma empresa de carreto não perderá tempo com motorista que precisa dormir, descansar, se alimentar. As indústrias de tecnologia que surgirão vão absorver parte dessas pessoas que terão perdidos seus trabalhos.

Mudança talvez não seja a palavra certa. A humanidade está se reinventando. Antigamente, as pessoas moravam em vilas, dividiam a vizinhança com o padeiro, o leiteiro, o quitandeiro. A vida era resolvida com uma caminhada. Vieram os carros, os grandes shoppings e supermercados em pontos fixos, forçando as pessoas a se deslocarem por espaços maiores para fazer compras, lavar roupas e se divertir. Nos Estados Unidos, fundos de investimento já estão planejando alugar parte das garagens de grandes condomínios, montando blocos de comércio ali. O quarteirão será abastecido por serviços de lavanderia, alimentação, comércio e, em troca, os moradores verão os valores de seus condomínios diminuírem. É música para os ouvidos de todos.

Esse movimento de redução no número de automóveis faz com que caminhemos para uma vida mais barata. Os millenials e a Geração Z já absorveram a cultura do home-office e não se importam em fazer reuniões de negócios por Skype ou FaceTime. Com isso tende a aumentar o uso da realidade virtual. No futuro, vamos assistir a jogos de futebol sentados na melhor cadeira do estádio, um milhão de pessoas no mesmo assento, pagando R$1,99 cada uma delas.

Se isso tudo tira o sono das indústrias de logística, de automóveis e caminhões e aeronáutica, é muito interessante e desafiador viver nesta mudança de valores. Em algum momento, o que pode acontecer são as montadoras caminharem para serviços de aluguel de carro via pay per use. As pessoas poderão fazer pacotes mensais de quilometragem, comprando tempo adicional para o veículo caso necessite. Claro que isso não vai matar completamente a venda de carros para aqueles que gostam de dirigir, de pilotar em um autódromo ou fazer grandes viagens de turismo, por exemplo. Para as fabricantes de carro os custos também vão diminuir. Preocupados com a mobilidade, os consumidores deixam de desejar um ou outro tipo de modelo de farol, de rodas de diferentes aros, de motores com centenas de cavalos. Haverá menos gastos em inovação de design e marketing, que serão revertidos em promoções para os serviços de assinatura.

Em um futuro bem distante, é possível que proíbam as pessoas de dirigir completamente. Estar em uma indústria automotora e entender, no seu devido tempo, essas mudanças, me move a acordar todos os dias e descobrir o que há de novo, tentar reinventar a maneira como venderemos carros daqui para a frente. Todos nós que trabalhamos com isso temos apenas uma certeza: será diferente de como vendemos automóveis nos últimos 100 anos da nossa história.

Fernando Julianelli é diretor comercial e de marketing da HPE Automotores do Brasil, representante da Mitsubishi no mercado nacional