Motor

Lendas das motos custom em São Paulo

Construtor Max Schaaf e fotógrafo Troy Critchlow participam de evento na cidade

por Artur Tavares 19 Ago 2016 13:31
Troy Crichlow

Aconteceu em São Paulo, no último final de semana, o evento Choppers Forever, que reuniu uma exposição de motos custom clássicas, capacetes e fotografias de Troy Critchlow. O norte-americano esteve presente junto com o construtor Max Schaaf, uma lenda na região de Oakland, na Califórnia.

Critchlow também é estrela do documentário 21 Days Under the Sky, atualmente em cartaz no Netflix. A produção mostra o fotógrafo e três amigos – Gentry Dayton, Ryan Grossman e Josh Kurpius –, que cruzaram os Estados Unidos de moto, de São Francisco a Nova York, em um percurso de quase 6 mil quilômetros. Eles aproveitaram a comemoração dos cem anos da Lincoln Highway, a mais antiga rodovia a cruzar o país de costa a costa. “Meu amigo Michael Schmidt tinha feito um outro filme, 6 Over, que não tinha muitas imagens de pessoas andando com as motos. Ele me disse que queria gravar uma viagem, mostrar mais dos passeios. Acabou se tornando a história de quatro caras que cruzaram o país de moto, e eu estou nele”, conta Critchlow.

Fã de motos desde criança – ele corria em provas de motocross –, Critchlow construiu sua carreira fotografando moda e outros assuntos, enquanto fazia retratos de seus amigos e suas motos. A paixão produzia imagens melhores, e o norte-americano decidiu mudar de ramo completamente. “Eu comecei a fotografar meus amigos e as motos deles com meus 20 e poucos anos, já fazem 29. Eu nem pretendia que fosse assim, mas foram as fotografias dos veículos que me deixaram mais conhecido profissionalmente.”

Critchlow explica que o amor pelo vintage é aquilo que mais move a cena dos motoqueiros: “acho que as motos vintage têm uma alma muito diferente de motos novas. Elas têm histórias, são bastante simples, e você não pode simplesmente comprar uma delas em uma loja. Por isso, todo mundo tem uma história de como conseguiu sua moto. É tudo muito pessoal, enquanto hoje em dia estamos cercados de consumismo. Acho que as pessoas gostam de algo que possam chamar de único.”

Sobre 21 Days Under the Sky, o fotógrafo afirma não ter se divertido tanto durante os 21 dias pilotando – “estávamos trabalhando” –, mas que mesmo assim passou por alguns pontos memoráveis. “De todos os lugares que eu passei na viagem, os cinco mais impressionantes foram Nevada, Boneville, São Francisco, a chegada a Nova York, e eu amei a Pennsylvania, é um lugar cheio de história e estradas apertadas. Já o Wyoming foi bastante difícil de percorrer. É um lugar com muito vento. Embora fosse verão, estava bem frio em Wyoming, choveu o tempo inteiro. Foi difícil pilotar por mais de doze horas debaixo de vento e chuva.”

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Max Shaaf

Longe do hype
Para os poucos entendidos, os olhos azuis penetrantes, a barba comprida, o cabelo penteado para trás e mãos com unhas sujas de graxa de Max Schaaf fazem com que ele seja confundido com um motoqueiro comum. Skatista profissional nos anos 1990, Schaaf trabalha customizando motos há quase vinte anos, e hoje é referência não só em Oakland, mas em todo o território norte-americano.

“A primeira chopper que construí foi em 1999. Eu não andava em choppers naquela época. Tinha uma Honda CB 350. Então, comecei a comprar peças de um cara que também vendia camisetas, óculos de sol. Era tudo muito barato, fui acumulando as peças por dois anos enquanto tentava descobrir o que faria para montar minha moto. Ninguém montava choppers na época. O mecânico mais perto de mim era o Jason, um skatista de Watsonville. Ele morava há uma hora e meia da minha casa e era o único cara que eu conhecia com uma chopper. Acabei montando do meu jeito, da maneira que eu pensei que seria certa. Naquela época, eu não sabia para quem recorrer. Não havia o Ebay, nem a Craigslist. Era preciso construir a sua própria moto.”

De lá para cá, Schaaf começou sua própria clientela. Seu trabalho tornou-se tão icônico que ele foi convidado para participar do reality show Born Free. Hoje, devido ao ritmo de gravações, ele consegue customizar uma média de três motos por ano. E, embora tenha se beneficiado com o sucesso da televisão, o construtor rejeita o hype que as choppers alcançaram entre o público em geral. “Eu não me identifico com muitos outros construtores. Para ser sincero, não me identifico com muita gente em geral. Mesmo aqui, com tanta gente querendo falar sobre choppers… Eu prefiro falar sobre praias, ou… Você sabe como é viver a mesma coisa todos os dias. Quando outro construtor chega até mim e pergunta como eu fiz isso, ou como fiz aquilo, acaba parecendo genérico demais. Construir deixou de ser uma arte. A arte tornou-se um termo vago. Todo mundo é artista. Quando o assunto é criatividade, está cheio de pessoas de mentes fechadas por aí.”

Bastante incisivo, Schaaf não se importa em criticar até mesmo seus colegas de reality show: “Caras que estão hoje no Born Free costumavam comprar minhas roupas há dez anos. Nunca haviam mexido em uma moto. Mas hoje você aprende tudo muito rápido, com a internet e as redes sociais. Isso é uma droga, cara. Uma das minhas primeiras motos, bastante icônica, saiu por sorte. Eu não tinha acesso à internet, só a algumas revistas antigas, e foi assim que eu a construí. Naquela época, ela saiu com uma cara original. É assim que eu gostaria que fosse até hoje, mas agora todos nos casamos com nossos computadores e celulares. Um verdadeiro artista deveria manter-se distante disso tudo.”

Schaaf sabe, no entanto, que a linha entre a arte e a profissão é tênue. “Lidar com as vontades dos clientes é difícil, é uma batalha. Você começa a ter problemas com sua própria criatividade, desconfiar do seu trabalho. A última moto que construí no Born Free era para um cliente. Ele tinha mais de 1.95m, e eu odeio choppers de guidões longos, mas precisava fazer assim pelo tamanho dele. Antes, eu havia construído uma moto do jeito que queria. Você precisa de clientes, mas as motos que faço da maneira que quero, vendo no outro dia. Ligar para um cara para discutir se a pintura pode ou não ser laranja, por exemplo, é difícil para mim. Eu não sou um completo idiota, quero que o cliente goste da própria moto. Se ele odiar roxo, não pintarei a moto dessa cor. Se ele for grande, vou aumentar o guidão.”

Assim como todo artista, Schaaf tem suas marcas registradas. “Prestar muita atenção nos detalhes, aplicar cores legais, e construir motos que servem para serem pilotadas de verdade, e não apenas para ficarem expostas. Essas são as características do meu trabalho.” Confira abaixo alguns dos seus trabalhos.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.