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Senhor do Tempo

Com o Brasil enfrentando uma de suas maiores crises financeiras, Freddy Rabbat investe alto e importa mais quatro marcas suíças de relógios

por Artur Tavares 1 Ago 2017 12:06

Da vista do 27º andar de uma das três torres comerciais do complexo Cidade Jardim, Freddy Rabbat consegue observar, do outro lado do Rio Pinheiros, os prédios que abrigam os escritórios da grande maioria das pessoas que consomem os produtos que ele distribui: relógios suíços. Representante da Tag Heuer no Brasil desde 2015 e homem que cuidou com exclusividade da Montblanc por aqui de 1990 a 2012, o empresário está trazendo quatro novas marcas para o mercado nacional: Bomberg, Alpina, Luminox e Frédérique Constant.

Dono de um humor contagiante, Freddy é completamente o oposto daquilo que se pode esperar de uma pessoa que trabalha com relógios há quase 20 anos – a Montblanc começou sua linha em 1998; antes vendia apenas canetas. Ele não é técnico, não se preocupa em definir os acessórios com que trabalha: se são cronógrafos, reversos, perpétuos; quantos rubis e engrenagens produzem o movimento. Pelo contrário. Olha para o futuro. Suas apostas para 2017, todas suíças, são visionárias. A Bomberg, que nasceu há três anos, tem foco no público jovem; seu principal motivo são as caveiras; a Luminox produz para o exército norte-americano e também para a agência espacial do país; já a Alpina e a Frédérique Constant estão apostando em um novo nicho de mercado, os smartwatches – assim como a própria Tag Heuer, que tem o seu Connected. O mais barato chega ao preço ajustado a US$400, e os mais caros alcançam o equivalente a US$5 mil. “Há um potencial muito grande no Brasil, porque existem as marcas caríssimas de um lado, e os relógios feitos na China e em Manaus do outro. Não há nada que atenda o meio da pirâmide. Na Suíça, esse miolo é o grosso do mercado, e nos Estados Unidos também”, explica.

Neste ano, a Tag Heuer abre sua primeira butique no País, que fica no Rio de Janeiro. “Você pode argumentar que a economia do Rio está parecendo a Síria. É justamente por isso que estamos indo para lá primeiro. Não tem nenhum joalheiro fazendo o trabalho como queremos”, afirma ele. Firme de que os relógios da Tag continuarão sendo um sucesso por aqui, Freddy não desanima quando fala de sua aposta: “Para as marcas novas também é o melhor momento. O mercado inteiro está atônito, sem saber o que fazer. Agora eles precisam atingir uma fatia que não alcançavam antes.” A situação que o empresário enfrenta hoje é mais ou menos a mesma de quando começou a trabalhar com o mercado de luxo, em 1989. O Brasil vivia incertezas econômicas, que duraram até a estabilização pelo Plano Real. Poucas marcas apostavam aqui, entre elas Rolex e Louis Vuitton. Foi em 1993 que a Montblanc decidiu tirar suas canetas das papelarias ao redor do mundo e vender apenas nas joalherias. Ele tinha 400 papelarias no portfolio e ficou com duas joalherias em São Paulo. Em 1995, Freddy abriu uma butique da marca na Rua Oscar Freire, a primeira em todo o continente americano. “Na época que a Montblanc veio para cá, as marcas de luxo nem enxergavam o Brasil. Eram os brasileiros que iam atrás dos produtos. Aqui era visto como terra inóspita e desconhecida, assustadora, quase um país por trás da Cortina de Ferro. Só começamos a ser vistos lá fora em 2005, nos primeiros anos do governo Lula.”

Do futuro, Rabbat espera que seu objetivo de preencher uma parcela não explorada de mercado faça milagres para as marcas Bomberg, Alpina, Luminox e Frédérique Constant, como fez com a imagem da Montblanc no País. “A visão do Brasil é tornar o luxo inacessível. É o que a elite suprema faz. Quando você exporta seu consumidor, está indo no caminho contrário da democratização do negócio. Se você quer adquirir um produto de luxo no Brasil, é altamente taxado. Só vai comprar quem tem dinheiro para viajar. O que eu tento fazer com as marcas e as subsidiárias é tornar o luxo acessível, democratizá- lo, para quem não quer voar para fora só para ir às compras.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.