Moda

Praia de Paulistano

Conversamos com o economista Rafael Varandas, que capitaneia a Cotton Project

por Piti Vieira 30 Jan 2017 13:22

Aos 15 anos, Rafael Varandas andava com a turma de sua irmã, oito anos mais velha do que ele. Era gente que começava a trabalhar com design gráfico e produção de vídeo. Ao ver como os amigos penavam para pagar as contas, ele colocou na cabeça que diversão e trabalho não se misturam. Decidiu, então, cursar a faculdade de economia. No segundo ano, quando já não aguentava mais, recebeu um conselho de uma amiga de sua mãe: “O segredo é você fazer o que gosta, não porque vai ter prazer, mas porque vai ser bom no que faz”. Trancou a faculdade e se mandou para a Califórnia por seis meses para surfar e estudar design gráfico. Foi então que Rafael se encontrou. Voltou para o Brasil em 2008, terminou a faculdade, foi trabalhar na empresa de pesquisa de comportamento e tendências Box 1824 e começou a vender camisetas. Era o começo da Cotton Project, marca atualmente focada em roupas básicas com um twist fashion e que vem de um lifestyle ligado ao skate e ao surfe. Aos 30 anos, Rafael vê seu projeto consolidado, com um trabalho forte na internet, desfile na São Paulo Fashion Week e seguidores fiéis.

Carbono Uomo
Como você pensa o homem brasileiro na hora em que vai criar uma coleção?

Rafael Varandas
Eu nunca penso no homem brasileiro. Teve uma coisa que me marcou muito. Em 2008, uns amigos da Califórnia vieram para cá e me pediram para conhecer as marcas mais legais daqui. Eu os levei à Osklen e falei: “esta é uma marca que explora bastante a identidade visual do Rio de Janeiro”. E eles falaram: “Bacana, só que eu não consigo ver ninguém da Califórnia usando isso”. Por ser um país mais periférico, sempre achamos que a única forma de vender o Brasil para os gringos é usando o que a gente só tem aqui. É muito mais fácil explorar essa “identidade” brasileira e se amarrar nesse conceito do que competir de igual para igual com uma marca sem nacionalidade. Eu não queria fazer isso com a Cotton. A gente nasceu na internet, então fazia pouco sentido na minha cabeça você ser uma marca que só se comunica com o Brasil. Então, quando a gente pensa num cara, a gente não pensa só no brasileiro, até porque eu, infelizmente, faço a roupa que eu quero vestir, não faço a roupa que vai vender horrores.

Carbono Uomo
Mas não tem muito como escapar da cultura local.

Rafael Varandas
Obviamente, a gente tem referência do estilo de vida do Brasil. Uma das coisas que mais marcam a Cotton Project é o humor negro sobre um pouco do costume do brasileiro de glamurizar a praia, como “aquela época do ano que todo mundo ama”, ou “na praia eu sou feliz com meus amigos”. Acredito em outra coisa. Eu vou para a praia desde pequeno, tenho casa no Litoral Norte paulista, e tem farofa, tem crowd de surfe, tem problema de esgoto na água. A praia da Cotton não é a mesma praia da Osklen, por exemplo. Nossa praia é uma praia mais realista, mais sarcástica. Nossa primeira coleção se chamava Tudo Morre na Praia, temos uma jaqueta que traz shitty day in paradise. Afinal, talvez você tenha um dia ruim no paraíso.

Carbono Uomo
Você é surfista e skatista, mas tem um pouco de desilusão com a galera que pratica os esportes. Como é essa história?

Rafael Varandas
Eu tenho uma prancha Mini Simmons, com um design da década de 1950, que hoje está até um pouco mais popular. Quando eu comecei a surfar com ela, a galera achava que eu tinha um problema na cabeça. Ficavam me perguntando: “Que prancha é essa? Que quilha é essa?”. Eu gosto de ser meio freak, meio fora da curva, acho interessante. Eu não posso ter um estilo próprio de me vestir ou de usar uma prancha? Não era para ser um negócio criativo, que não tem regras? O skate é a mesma coisa, mas tem mais gente criativa no meio, tem mais abertura.

Carbono Uomo
De que tipo de música você gosta?

Rafael Varandas
Hoje, meu gosto musical se chama “descobertas da semana do Spotify”. Estou numa fase em que eu não tenho buscado muito, não por falta de tempo, mas pela idade. Eu gosto muito de rock dos anos 1980 e 1990. Gosto muito de música eletrônica também, mas não sou um superconhecedor. Não sou nada do hip-hop, sou zero do pop.

Carbono Uomo
Quais são as marcas de que você mais gosta de roupa?

Rafael Varandas
Sou fã da Our Legacy, uma marca sueca. Gosto muito da Acne também. As de que eu mais gosto são daquela região. Gosto das peças do Raf Simons. Tem uma japonesa, Undercover, que eu curto bastante.

Carbono Uomo
Quem é o consumidor da Cotton?

Rafael Varandas
A gente não é fast fashion e não quer ser uma marca que exclui pelo valor. Nosso start é a partir de 25 anos. A gente é consumido pelo skatista da Praça Roosevelt (centro de SP) e pelo fashionista da São Paulo Fashion Week. O posicionamento da Cotton é ser a marca mais casual dentro das marcas que desfilam na SPFW. E entre as marcas de streetwear do Brasil, a gente seria a mais sofisticada. Por exemplo: em uma loja de skate vamos ser a marca mais cara, mas na Choix seremos a mais acessível. Esse é o nosso posicionamento. Ter neutralidade para estar entre esses dois lados.

Carbono Uomo
Como foi desfilar pela primeira vez na SPFW?

Rafael Varandas
Em um primeiro momento, pensamos em sair do básico e fazer um negócio mais sofisticado. Depois, achamos que não íamos conseguir vender isso na loja. Nosso objetivo na SPFW foi e vai continuar sendo fazer as pessoas verem, gostarem da marca e quererem consumi-la. Estamos tendo um resultado superpositivo, batendo recorde de vendas, mesmo na crise. O evento abriu as portas para outra turma, principalmente a da moda. Muitos jornalistas nos conheceram, ou tiveram a oportunidade de ver nossas peças no desfile, e aí foi um efeito em cascata. Um monte de gente começou a nos marcar no Instagram. Continuamos sendo a mesma coisa, mas parece que viramos desejo.

Carbono Uomo
Você acha que a Cotton era menos conhecida antes?

Rafael Varandas
Na minha turma, as pessoas com quem eu falo, os lugares que eu frequento, quase todo mundo conhece a Cotton, por mais que ela seja pequena. Mas outro dia tive uma reunião com o Rony (Meisler, dono da Reserva), na loja deles, na Bela Cintra, que fica a duas quadras da minha loja. O vendedor, que era um menino de uns 25 anos, não conhecia a Cotton. A gente acha que é conhecido por todo mundo, mas na verdade, habita um nicho.

Carbono Uomo
Você usa muito rede social?

Rafael Varandas
Sou de fases. Por exemplo: fui viajar e, quando cheguei a Lisboa, falei: “Agora eu vou usar esse Snapchat”. Teve uns quatro dias ali que eu filmava tudo, seguia as pessoas, aí eu cansei. No Instagram sigo as pessoas que acho interessantes, então ainda uso muito. Mas devia postar mais. Às vezes, participo da Nike Lab e acho que eles gostariam que eu postasse mais coisas. Facebook eu só posto piada, memes ou pergunto alguma coisa para alguém. Uso mais como um feed de notícias dos meus amigos. Não boto foto minha no Facebook. Eu sou da geração que amava revista. Amo até hoje, na real. Amava blog. Tinha Google Reader de blog. Engraçado que essa semana eu até decidi tirar o blog do site da marca porque, depois do Facebook, as pessoas pararam de acessar.

Carbono Uomo
Como é o seu trabalho diário?

Rafael Varandas
Sou diretor criativo e diretor de marca. Penso e esboço a coleção. Aí o Acácio (Mendes), o estilista, pega esses produtos e traz uma expertise de material, de acabamento, de como vai ser feito. E tem um trabalho um pouco mais administrativo de gestão da marca. Fora isso, eu também faço o trabalho de consultoria para outras marcas. No momento, estou fazendo para a Hangar 33, do grupo Lunelli.

Carbono Uomo
Quais são as suas referências?

Rafael Varandas

Quando a Cotton começou, o que me atraiu para fazer a marca não foi a roupa. Eu queria fazer um vídeo da galera junta. Sempre gostei muito disso. De identidade visual, de gangues, tipo The Warriors (o filme). A história do desfile nessa última SPFW era a disputa de duas gangues por uma praia dominada só por minas surfistas de uma gangue chamada Dangerous to Tourist, e os caras meio do mal que queriam tretar com elas, os troublemakers. A jaqueta Lost Boys, que está esgotada, a gente fez para o desfile da Casa de Criadores. O tema da nossa coleção era Do Nothing Club, uma turma de adolescentes que tinha desencanado de ser bem-sucedida e só vivia por prazer a curto prazo e não pensava em carreira, em nada.

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