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Fatto a Mano

Visitamos a manufatura da Panerai, em Neuchâtel, na Suíça

por Luciano Ribeiro 9 Nov 2017 13:01

O carro que segue pela estrada que liga Genebra a Neuchâtel, na Suíça, desliza sobre o asfalto liso, de faixas recém-pintadas, e passa por plantações que parecem aparadas por tesoura, de tons verde e amarelo desbotado, de trigo cor de palha. O trajeto de 130 quilômetros, sempre tão bem sinalizado, é percorrido em silêncio, graças à educação e à engenharia locais. Essas viagens curtas, entre cidades médias e pequenas europeias, sempre foram, para mim, muito reconfortantes. É aconchegante ser passageiro nessas vias, assim como deve ser morar num país cujo salário mínimo é de US$4 mil, a escola e a saúde públicas são decentes, as crianças brincam em praças seguras e bem cuidadas, os jovens nadam em lagos limpos, a população é feita de uma classe média honesta – a pobreza e a riqueza são os extremos.

Pensava sobre tudo isso a caminho da manufatura da Panerai. Eu estava prestes a entrar no QG da marca, no lugar onde são fabricados milhares de relógios mecânicos de alta complexidade – o número eles não revelam – que vão parar no pulso de quem se identifica com o design italiano (ela nasceu em 1860 em Florença), mas não abre mão da tecnologia e da precisão suíças.

Neuchâtel, a cidade onde a Panerai escolheu se instalar, é pequena, mas não minúscula. Uma linha de trem corre paralela ao lago de águas claras. Nos dias de semana de verão, depois das 16h30, moradores terminam o expediente para se sentar a mesas de madeira, beber cerveja a temperatura ambiente, comer baguetes com queijos e embutidos, jogar conversa fora em francês. Crianças arriscam manobras de skate com seus patinetes. O som vem de patos em revoada, o cheiro é de vegetação úmida. Há pelo menos um bom restaurante. Ele se chama Bocca, tem uma estrela Michelin, serve mais de 20 tipos de queijos como sobremesa, e os donos estão sempre na porta para receber os clientes com um simpático bonsoir.

Nossa visita pelas instalações da Panerai começa às 8h30. Somos recebidos por Adriano Toninelli, vestindo seu costume azul-marinho bem cortado, camisa branca imaculada, barra da calça curta, sapatos marrons. Ele explica que a manufatura tem 10 mil metros quadrados e ali ficam a logística, a produção, a seção de treinamento, o serviço ao cliente e o departamento de desenvolvimento – os designers residem em Milão. Ao todo, 250 pessoas trabalham no edifício, que é autossustentável, usa luz solar e água da chuva.

Desde 1997, a Panerai pertence ao grupo Richemont (dono também de marcas como IWC, Cartier, Montblanc, Van Cleef ). Adriano discorre sobre a história da grife, reforça a importância da herança florentina. Lembra que a cidade revelou nomes como Galileu Galilei, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Dante Alighieri, foi berço do Renascimento e o centro mais importante do mundo na época dos Médici. Adriano conta também que, em 1936, a Panerai começou a desenvolver relógios, bússolas e lanternas de mergulho para os homens-rã da marinha italiana: “A marca tem, desde sempre, uma forte ligação com a náutica”. Em seguida, visitamos as instalações. Algumas coisas me chamaram logo a atenção: as salas, de tão limpas, pareciam ter sido escaldadas; muitos funcionários eram jovens, cool; há uma enorme quantidade de robôs, impressoras 3D e máquinas exclusivamente desenvolvidos para a Panerai testar pressão da água, magnetismo, precisão e corrosão, entre outros elementos que minha mente não foi capaz de entender. Meu colega mexicano, jornalista especializado em relógios, no entanto, entendia tudo e exclamava: “Fantástico, fantástico. Já visitei dezenas de manufaturas e nunca vi algo assim”.

Um dos testes mais impressionantes é o de impacto. Um relógio é derrubado no chão com uma força assustadora. Dá nervoso. Dependendo do material, ele chega a danificar a máquina, mas permanece intacto. A visita é interrompida para o almoço na sala privativa, capaz de receber 12 convidados. O espaço tem vidros do chão ao teto. O chef local nos serviu comida e vinhos italianos. Uma hora e meia depois de começarmos, seguimos para a última etapa do nosso compromisso: tentar desmontar e montar um relógio. A ideia era saber quantas peças minúsculas estão na engrenagem de um Panerai. O nosso modelo de teste tinha 299 itens, uma complexidade mecânica que me lembrava motores de carros de luxo. Como nunca resolvi um quebra-cabeças de mais de quatro peças, achei melhor deixar essa tarefa para jornalistas mais capazes.

Comecei, então, a pensar por que um Panerai pode custar, facilmente, mais de R$40 mil. Aquela tarde, já havíamos falado com dezenas de funcionários bem treinados, visto máquinas desenhadas para espatifar modelos no chão, notado o investimento pesadíssimo em robótica, A.I., impressoras 3D e mão de obra (lembrando que o salário mínimo na Suíça é de US$4 mil), conhecido a tradição, o cuidado com o meio ambiente. Nada vem da China, tudo é feito em um dos países mais caros do mundo, com a tradição europeia. Fiquei muito impressionado. No meu voo de volta ao Brasil, depois de quatro horas no ar, aconteceu algo curioso. Enquanto meu Panerai, comprado há dois anos, marcava 2h30 da tarde, o relógio do iPhone mostrava 1h30. Não tive dúvida qual estava correto.

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