Moda

A trajetória de Ricardo Almeida

Estilista paulistano conta como montou uma das alfaiatarias mais respeitadas do país

25 Jul 2017 11:18

Por Ricardo Almeida, especial para a Carbono Uomo

É engraçada a diferença entre o que sonhamos ser quando crianças e o que nos tornamos quando adultos. Aos 5 anos eu queria ser como meu pai. Ele era fazendeiro, possuía uma loja de cama, mesa e banho e participava de corridas de carro em seu tempo livre. Queria um capacete como o dele, de madeira. E correr também. Ali na João Moura, entre as ruas Estados Unidos e Gabriel Monteiro da Silva, não imaginava que minha paixão seriam as motos, que vestiria atores, políticos, um presidente. Que meu nome português seria sinônimo da alfaiataria brasileira de vanguarda, o homem responsável por inovações na moda daqui: o paletó de três botões, os cortes slim, os serviços sob medida, o uso de tecidos importados – os melhores do mundo. Mas isso foi depois… Eu estudava no Colégio Santo Américo. Era uma boa escola, que incentivava os alunos a praticarem esportes. Nunca fui um aluno excepcional. Pessoas com tendências criativas não podem ficar assistindo ao outros falarem. Elas começam a viajar, não entendem nada. Então não dava muita bola, até porque trabalhava desde os 11 anos na loja do meu pai.

Primeiro na época de Natal, cuidando de pacotes e embrulhos de festa. Com 15 fui transferido para o estoque – meio período, diariamente. Ali aprendi muito sobre administração, entendi como funcionava a cadeia desde da entrada do produto até sua venda. Hábil, pouco depois comecei a ter contato com os fornecedores e ajudar na compra do estoque: eram lençóis, lingeries, jogos de banho e toalhas de mesa. Na escola, continuava na média, mas nunca deixei as obrigações de lado pelo trabalho. Também não abandonei meus amigos e a vida noturna, que foram fundamentais para meus relacionamentos profissionais no futuro.

Aos 16, fruto do meu trabalho, comprei minha primeira moto, uma 350 cilindradas. Naquela irresponsabilidade adolescente, atravessei um semáforo fechado e colidi com um carro. Um amigo sugeriu que eu mesmo realizasse o conserto. Desmontei-a, troquei as peças e, quando montei de volta, não havia sobra alguma. Pela primeira vez deixei o administrativo para me tornar empresário: passei a comprar, arrumar e revender motocicletas. Hoje, cuido das minhas coleções, dos meus desfiles, projetos de loja e até da minha nova fábrica. Com 19, comecei a correr. Naquela época a Ellus patrocinava pilotos. Procurei um grande amigo que trabalhava lá, mas ele havia largado tudo para administrar a confecção da mãe. Não consegui o patrocínio, mas fui contratado como representante comercial. Fiquei dois anos sem estudar, até que entrei em Economia no Mackenzie. Na minha família ninguém acreditou. Tentei por um ano, mas faltava muito às aulas. Eu tinha uma série de clientes – e as reuniões com eles nos finais de tarde me atrapalhavam a estar na universidade no horário. Meu pai decidiu parar de pagar a faculdade.

Até continuei com o meu dinheiro, mas entre ter um sustento e ir para a aula, eu preferia ganhar dinheiro. Depois do quarto mês, abandonei. Não tinha nada a ver comigo. Parei em uma camisaria administrada por dois irmãos recém-divorciados, loucos, e de repente me tornei a pessoa mais responsável da empresa. Eles faliram, mas reabrimos a marca, dessa vez eu como sócio. Comecei a comprar os tecidos, a interferir na produção, a inovar. Seu Raimundo, um baiano, ensinou-me tudo sobre moldes. No segundo ano, sócio e como representante comercial, faturava o dobro da própria empresa. Nos desentendemos. Acabei perdendo tudo porque meu pai não quis me dar dinheiro para comprar a parte deles. Em 1983, montei minha própria fábrica e comecei a produzir para diversos lojistas. Todos aqueles anos trabalhando para ganhar dinheiro haviam trazido frutos, finalmente.

Os planos econômicos desastrosos, que levaram às altíssimas inflações, prejudicaram meu negócio. Em 1991, fiquei de saco cheio da falta de compromisso dos clientes, dos atrasos de pagamento. Prometi que montaria minha própria loja e não venderia para mais ninguém. Tinha 110 funcionários, dispensei 70, quase quebrei. Abri as lojas nos shoppings Iguatemi e Morumbi, destaquei-me fazendo tudo diferente do mercado. Eu tinha alfaiataria colorida. Fiz ternos verde-limão, laranja, azuis. Quando abri o serviço sob medida, somente o Brioni fazia na Itália. O Zegna estava começando. Chegou um momento em que a Globo começou a pedir a minha contribuição para figurinos de novela. Já nos anos 2000, uma ligação: Duda Mendonça queria que eu mudasse a imagem do Lula, e o resultado foi positivo. Foi aí que o empresariado, que buscava um costume tradicional, entendeu que a vanguarda era somente um lado do meu trabalho. Sem um nome italiano, contribuí para fazer as pessoas entenderem que uma peça de maior qualidade pode ser mais cara no valor, mas traz mais satisfação. É mais usada e te projeta melhor. Ou, como eu sempre digo aos meus clientes, “se seu guarda-roupas está cheio de ternos e você só usa o meu, afinal, qual saiu mais barato?”. E assim, até hoje a Ricardo Almeida continua a produzir as peças com os melhores produtos que você encontrará no país.