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Yes, Nós Acreditamos no Brasil

Conheça seis estrangeiros que não se abalaram com a crise e investem no mercado nacional

3 Jul 2017 11:04
Kei Nakajima

Por Françoise Terzian

Quem tem medo da crise? Pelo visto, mais os brasileiros do que os estrangeiros. É fato que 2016 foi um ano tão turbulento quanto uma tenebrosa montanha- russa. Teve impeachment da presidente Dilma Rousseff, teve avanço com manhãs surpreendentes da Operação Lava Jato e teve muito desemprego – 12 milhões, para ser exato. Apesar do cenário local turbulento, muitos investidores estrangeiros não puxaram o freio de mão e nem deram marcha à ré no que se refere aos aportes feitos no País. Pelo contrário. O discurso mostra que eles acreditam e investem no nosso gigantesco mercado doméstico, um lugar com enorme potencial de avanço, por mais que possa parecer o inverso. O olhar é de médio a longo prazo e foram poucas as empresas que disseram bye-bye, Brazil. Reunimos seis estrangeiros de diferentes culturas e setores que contribuem para um Brasil melhor.

WILBERT DAS – O holandês que se rendeu a Trancoso
O potencial turístico do Brasil é uma das grandes apostas do holandês Wilbert Das, proprietário e designer do cinco estrelas UXA, em Trancoso, na Bahia. O hotel conta com 11 casas únicas – quatro originárias do período colonial, de frente para o famoso Quadrado. Viajado e multicultural, ele acredita que o País é atrativo aos visitantes. “Amo o Brasil e os brasileiros. Sua paixão pela vida, certa exuberância e a falta de formalidade são muito atraentes. Acredito que há uma alma muito criativa por aqui”, afirma Das que atuou por 15 anos como diretor criativo da grife italiana Diesel. Sua aposta no Brasil continua, até porque ele diz não ter sentido a crise. “Somos um pequeno hotel e nossa reputação internacional está firmemente estabelecida. Temos a sorte de ter alguns clientes muito influentes, que nos divulgam no boca a boca, o que nos permite altas ocupações durante o ano todo”, garante.

MATHIEU LE ROUX – Sócio da Le Wagon
O francês Mathieu Le Roux já conhecia bem o Brasil em 2012, quando lançou as operações do Deezer na América Latina. Com o sucesso da plataforma de streaming, decidiu que queria empreender. Entrou em contato com a Le Wagon e montou uma franquia brasileira. A Le Wagon é uma escola de coding com o primeiro modelo de ensino de programação em formato de bootcamp do País. A empresa oferece um único curso direcionado para iniciantes ou pessoas com pouco entendimento técnico, com duração de nove semanas, que segue a mesma metodologia e os mesmos ensinamentos da matriz, na França. “A Le Wagon tem a filosofia de trabalhar com pessoas de perfil arrojado. Aqui não havia nenhuma escola assim.” Presente em nove países, a Le Wagon iniciou sua atuação em São Paulo em 2016, mas já está com cursos agendados também para Belo Horizonte e Rio de Janeiro neste ano. A mentalidade de early adopter do brasileiro é o que mais o anima. “Ele quer experimentar tudo e, quando gosta, não hesita em falar sobre o produto. Isso é muito bom porque o tempo que se perde com o lado administrativo é ganho com o marketing espontâneo.”

MIKE SIMKO – Sócio do gim Arapuru
Ele nasceu na Eslováquia, fez colegial e faculdade em Viena e morou quase nove anos em Londres. Em 2013, em uma mudança de percurso, o cosmopolita Mike Simko veio parar no Brasil. “Naquela época, o mercado estava em alta para empreendedores”, conta. Apreciador de drinques, percebeu que não existia uma marca local de gim. Foi a partir desse momento que mergulhou no projeto que resultou no gim premium Arapuru, receita elaborada por um dos maiores destiladores da bebida do mundo, o inglês Rob Dorsett, que tem no currículo mais de 250 criações. O Arapuru (ave-símbolo da Amazônia) é um London Dry feito com botânicos brasileiros, como o caju. A produção acontece no interior de São Paulo e suas chances de decolar são muito boas. “O mercado brasileiro oferece oportunidade para o gim, que é uma tendência global. Muitos bebedores de vodca estão migrando para o gim.” Simko diz que sua bebida é de qualidade superior a um preço acessível. A garrafa custa, em média, R$120, ante os R$180 a R$230 de marcas importadas, às quais ele compara seu Arapuru. O empreendedor acredita que 2017 será um bom ano para a expansão do gim entre os destilados.

LUCIANO BERTINELLI – CEO da Ferragamo Parfums
O italiano Luciano Bertinelli é um dos grandes executivos do universo do luxo. Depois de fazer nome na Bvlgari, hoje é o CEO da Ferragamo Parfums. Sentiu o cheiro de bons negócios do Brasil há alguns anos, hoje o quarto maior consumidor mundial de cosméticos. “O País continua a ser o principal da América Latina, as marcas de luxo perfomam bem. Nosso foco aqui é em longo prazo. Brasileiro tem bom gosto”, elogia. A Ferragamo aposta tanto nas fragrâncias masculinas quanto nas femininas para aumentar suas vendas por aqui. Uma de suas marcas crescentes em solo brasileiro é a Signorina, vendida nas versões eau de parfum, eau de toilette, Eleganza e Misteriosa. Por saber do interesse da brasileira em produtos de beleza, Bertinelli também aposta nas vendas de produtos para banho e linhas corporais, como loções hidratantes. Ou seja, o vento continua favorável – e perfumado.

KEI NAKAJIMA – Sócia do Neko Sake
Há cerca de dez anos, a japonesa Kei Nakajima estudava na London Business School quando conheceu algumas colegas brasileiras. Da classe, viraram amigas e ela passou a viajar anualmente para cá, de férias. Apaixonada pelo País, acabou criando o Neko Sake, desenvolvido especialmente para o paladar nacional. “O Brasil é um país bonito, jovem, em desenvolvimento e cheio de oportunidades”, comenta Kei. Seu saquê é produzido artesanalmente em Hokkaido (ilha ao Norte do Japão), trazido para São Paulo e envasado localmente. Desde seu lançamento, em meados de 2016, a bebida foi aprovada pelos brasileiros. “A aceitação é grande e não ouvi críticas”, conta. O Neko Sake é feito a partir de água puríssima, arroz e koji (levedura). O rótulo que estampa as simples garrafas de cerveja de 600ml que carregam o saquê é de uma designer italiana. “Eu quis trazer uma bebida que agradasse o paladar local, levemente seca e fresca, para ser tomada gelada, como os brasileiros gostam.” Como as garrafas importadas são caras demais e as versões nacionais são elaboradas com ingredientes que as excluiriam da categoria “saquê” no Japão, Kei se mostra animada com o País. Dada a qualidade de seu produto, que não leva conservantes nem aditivos, a empreendedora teve convites para levar sua bebida à Espanha, onde estreou em dezembro. Mas, sua menina dos olhos é a terra que acolheu tantos imigrantes de seu país. “Acho que vamos abrir espaço para a chegada de outras marcas japonesas por aqui.”

ALEX AVRAMOV – Um russo fascinado pela economia criativa (e pelo Brasil)
O russo Alex Avramov tem uma missão clara: desenvolver a economia criativa brasileira. Investidor e empreendedor de educação privada, ele fundou um consórcio de quatro escolas em Moscou, a exemplo da British Higher School of Art & Design e da Moscow Architecture School. No Brasil, é sócio-fundador da Escola Britânica de Artes Criativas (Ebac), com um centro educacional em São Paulo, em um prédio da Idea! Zarvos, no coração da Vila Madalena. A Ebac oferece 35 cursos, entre livres, técnicos e de graduação, com diploma da Universidade de Hertfordshire de Londres, uma das melhores do Reino Unido. No corpo docente, nomes como o do designer Kiko Farkas. Tanto na Rússia quanto no Brasil, seu objetivo é reduzir o gap entre a indústria criativa e a mão de obra qualificada. “Sou superfascinado pelo País. Apesar dos problemas que enfrentam, as pessoas têm uma energia incrível, além de otimismo e muito desejo de construir um futuro melhor”, observa.