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Volta por Cima

Como a advogada Thais Pegoraro chegou ao cume das mais altas montanhas de cada continente – em tempo recorde –, pouco depois de ser demitida e criar empresa de coaching

17 Jul 2017 11:23

Por Erika Sallum

Janeiro de 2014. Uma mulher morena, 37 anos e elegante anda pela praia de sapato de salto na mão. Enquanto caminha, ela chora copiosamente. Cerca de 25 minutos antes, a então advogada paulista Thais Pegoraro havia sido demitida da multinacional onde trabalhara por seis anos. “Doía a barriga, doía o peito, doía a cabeça e doía o coração”, ela conta para uma plateia atenta, durante sua apresentação na TEDx São Paulo. Para piorar, o noivado também chegara ao fim. “Ao mesmo tempo, perdi minha referência de carreira, de emprego e de casa. E, literalmente, fui à lona pela primeira vez.” Ela olha meio tímida para o público e diz com voz firme, porém doce: “Naquele momento, eu tinha duas escolhas: mandar rapidamente currículos ao mercado, para estancar a dor e quem sabe até esquecer o término do noivado, ou usar a oportunidade para um período de aprendizados e novas possibilidades”.

Poucas pessoas – no Brasil e no mundo – levaram tão a sério e com tanto foco a segunda opção. Se era para aprender, então que o mergulho no autoconhecimento fosse transformador, único, exigente, não só física como, em especial, psicologicamente. Sem nenhuma experiência em alta montanha, Thais resgatou um sonho de infância: conhecer o Everest, o pico mais alto do planeta, com 8.848 metros. E foi além. Decidiu completar um dos desafios mais casca-grossa do montanhismo e chegar ao topo da maior montanha de cada continente, façanha conhecida como Sete Cumes. Ela não apenas completou o projeto com enorme sucesso como bateu o recorde brasileiro (entre homens e mulheres) de tempo, escalando as sete montanhas em apenas um ano e nove dias.

Paralelamente, logo após a demissão, Thais se inscreveu em um curso de coaching de carreira e negócios, abriu a própria empresa nessa área e resolveu que os tais “sete cumes” seriam parte de uma crucial virada também em sua vida profissional. Da palavra “sete”, criou um mote para seu projeto de vida e de carreira: “Superação com Experiências que Transformam e Ensinam”, que foi ganhando contornos bem maiores do que “apenas” escalar as montanhas mais treta da Terra. Durante as escaladas, ela treinou e expandiu o foco, a disciplina e habilidades de planejamento, descobrindo que qualquer sonho é possível, desde que você trabalhe duro e se organize bem para realizá-lo. “Depois dos sete cumes, estou convicta de que o ser humano pode alcançar qualquer sonho, qualquer objetivo”, diz. E são esses ensinamentos que ela quer agora passar para os clientes, em sua maioria executivos, que a procuram para descobrir novos potenciais em diversas áreas da vida. “Quando experimentamos sair de nossa zona, especialmente na natureza mais selvagem, aceleramos muito o processo de autoconhecimento, de desenvolvimento de habilidades e de reconhecimento de fraquezas. Nenhum treinamento indoor ou empresarial pode te dar esse nível de completude”, conta. “No momento em que as empresas começarem a olhar para imersões no mundo outdoor como instrumento de desenvolvimento corporativo, daremos um gigantesco salto para a criação de novos líderes.”

Para viabilizar os custos de um desafio de tamanho fôlego, que inclui uma penca de equipamentos técnicos, passagens aéreas, hotéis, guias, treinamento etc., Thais não contou com nenhum centavo de patrocinadores. Usou todas as economias e o que foi ganhando com os novos clientes de coaching. Do orçamento inicial de R$1,2 milhão, desdobrou-se e conseguiu enxugar o valor para exatos R$494 mil. “Optei muitas vezes por equipamentos de segunda mão, fiz duas expedições de uma vez para não ter de gastar com voos para o Brasil, economizei em tudo o que pude”, diz. A expedição mais cara entre as setes foi a para o Monte Vinson, na Antártica: US$42 mil. “Apenas uma empresa norte-americana leva escaladores até lá, por isso nessa viagem foi impossível diminuir muito os gastos.” No duríssimo caminho até os lugares mais altos do mundo, em terras tão isoladas quanto a Antártica (onde escalou o Maciço Vinson) e selvagens como o Alasca (lar do Monte Denali), Thais superou medos e foi se descobrindo muito mais forte e determinada do que imaginava. Aprendeu, na marra, que as maiores lições surgem mesmo a partir do fracasso. Afinal, teve a ideia do projeto a partir de sua demissão. E, ao tentar a primeira montanha das sete, o Aconcágua, na Argentina, sofreu uma queda após 16 dias de expedição, na qual carregou todo o equipamento (que chegava a pesar 60 quilos). Ainda teve forças para caminhar por mais quatro horas, porém, a 312 metros do cume, desistiu. A mente havia lhe pregado uma peça – e lhe ensinado a ter respeito absoluto pelas montanhas. “Voltei ao Aconcágua um ano depois, tendo escalado quase todos os outros picos do projeto. Precisei aprender a controlar a ansiedade, as expectativas e, principalmente, a ser resiliente”, diz.

Ainda digerindo toda a experiência adquirida no projeto dos sete cumes, concluído no meio de 2016, Thais já traçou os dois grandes desafios que a guiarão nos próximos anos. Profissionalmente, quer expandir sua empresa, criar uma plataforma on-line de coaching e levar executivos para vivenciarem aventuras na natureza como ferramenta para se tornarem pessoas mais completas. Na vida pessoal, espera seu primeiro filho, fruto do namoro com o guia de montes Carlos Santalena, outro recordista nas montanhas mais altas do planeta. Juntos, eles planejam desenvolver o projeto Família 8000, no qual tentarão manter o estilo de vida outdoor, quase sempre acima dos 8000 metros de altitude, agora na companhia de seu bebê. “Eu acredito que é possível conciliar carreira, vida pessoal, montanhismo. Basta ter foco, planejamento e disciplina”, afirma. Que ninguém duvide: Thais é capaz de conseguir isso, sim. E muito mais.

CINCO PERGUNTAS
1. Após os sete cumes, como você define a palavra sucesso?
Sucesso, para mim, é o caminho. Não é o cume, não é o recorde, não é a chegada. É tudo o que eu pude aprender no percurso e quem eu me tornei depois de percorrê-lo.

2. O que veio primeiro à cabeça quando você pisou no topo do Everest?
“Será que eu vou conseguir ter energia para descer?” (risos) Eu me lembro de não conseguir chorar, agradecer ou rezar. Eu apreciei aquela vista deslumbrante, mas meu instinto de sobrevivência falou mais alto. Eu só pensava em quanto tempo levaria para conseguir descer dali.

3. O melhor e o pior de completar os sete cumes?
O melhor é ter a certeza de que realmente a gente é capaz de tudo. O impossível se tornou possível. O pior é que acabou. Isso gera certa “abstinência” de um propósito grande.

4. Qual a palavra que você costuma usar para manter o foco durante situações difíceis?
“Vamo”. Assim mesmo, sem “s”. “Vamo, Thais, vamo!” Usei muito esta palavra na montanha, quando dava vontade de parar, sentar e ficar.

5. Qual a montanha mais dura que você escalou?
Do ponto de vista emocional, o Aconcágua. Porque foi a primeira montanha e onde caí e não consegui fazer o cume na minha estreia. Do ponto de vista físico, o Denali. Por toda a autonomia que essa expedição exige.