Lifestyle

Uma entrevista com João Doria

Prefeito de São Paulo fala sobre empreendedorismo e metas para o futuro de seu governo

por Artur Tavares 5 Jun 2017 10:06

Com o Brasil dividido por uma polarização criada pela gestão econômica desastrosa de Dilma Rousseff e as investigações multipartidárias da Operação Lava Jato, o empresário João Doria foi o maior fenômeno eleitoral do ano passado. Presidente licenciado do Grupo Lide, que reúne empresários de 26 setores em busca de um País mais moderno, e comunicador de sucesso, Doria foi eleito em primeiro turno com a promessa de fazer menos política e mais gestão na maior capital da América do Sul. Sua principal missão tem sido atrair o empresariado a São Paulo e reduzir o desemprego, que já beira a casa dos 18%, enquanto continua políticas sociais e urbanas do seu antecessor, Fernando Haddad, preparando a cidade para a retomada econômica que com certeza virá após o fim da crise pela qual o Brasil passa. Após cinco meses no comando da prefeitura, já é cogitado como nome para disputar a Presidência da República no ano que vem, mas por enquanto mostra ter olhos apenas para sua cidade. O prefeito reservou dez minutos de sua agenda complicadíssima para falar com a Carbono Uomo sobre maneiras com que a iniciativa privada pode ajudar a modernizar São Paulo.

Carbono Uomo
O Brasil tem uma história complicada no que diz respeito à aceitação das privatizações. As ações completamente privadas são melhores aceitas pela população do que as próprias privatizações ou parcerias público-privadas?

João Doria
Desde que feitas com critério e forma transparente, as privatizações são boas para o País, para a população, para o governo, enfim, para todos. Você desonera o Estado, melhora a eficiência do serviço, reduz erros e oti-miza resultados para o usuário do serviço. É preciso romper o medo da privatização. O Estado deve operar onde é essencialmente necessário, sobretudo na saúde, educação, habitação popular, transporte e segurança pública. Em outras áreas, nas quais o setor privado puder cumprir essas funções, que custam muito para o Estado e normalmente ele cumpre mal, será melhor.

Carbono Uomo
Quais são as principais dificuldades para se empreender no Brasil hoje, falando desde baixa escolaridade até alta burocratização? É simples resolver tais questões? Quais suas sugestões para tal?

João Doria
Empreender no Brasil não é fácil. É preciso ter muita resiliência, vontade e uma alta determinação. O brasileiro, por ser otimista e ter vocação empreendedora, gosta de fazer isso. Classifico o Brasil como o país mais empreendedor do mundo. Sobretudo, se a economia melhorar, a capacidade de empreender aqui vai se multiplicar.

Carbono Uomo
Nestes primeiros meses como prefeito de São Paulo, quais ações empreendedoras mais atrativas que chegaram até você?

João Doria
Foram muitas, e ademais estamos incentivando o empreendedorismo com um projeto inovador chamado Empreenda Fácil, que, na primeira etapa, vai reduzir de 126 dias para sete dias o tempo para abrir uma empresa. Além disso, vai oferecer também orientação, treinamento e balizamento junto ao Sebrae para que as empresas recém-abertas por jovens ou por qualquer tipo de empreendedor tenham mais chances de sobrevida. Finalmente, estamos negociando a destinação de microcréditos através do Sebrae, do governo do estado de São Paulo, da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil.

Carbono Uomo
É possível resolver alguns problemas estruturais de São Paulo através da iniciativa privada, ou já há ações implantadas para solucionar essas questões da mesma maneira que a gastronomia já vem promovendo uma mudança na região da República?

João Doria
A gastronomia é uma vocação histórica da cidade de São Paulo, é uma das vertentes mais importantes da economia criativa, e forte geradora de empregos. É uma atividade completamente privada. Outros setores devem colaborar com a melhoria da cidade. A urbanização, sua proteção, suas características de tornar os bairros mais habitáveis, frequentáveis, seguros e fraternos depende da ajuda das pessoas, instituições e ONGs. Quanto mais pessoas puderem ajudar, mais agradável a cidade vai ficar.

Carbono Uomo
Como ações nas áreas de eventos podem melhorar a economia paulistana com atração de turismo nacional e internacional?

João Doria
Avançando de forma criativa e audaciosa. Sobretudo agora, que a economia vai começar a apresentar os primeiros índices positivos, pode ser um bom momento para o empreendedor que estava aguardando a melhor ocasião para colocar em prática seu programa e iniciar seu negócio nas áreas de gastronomia e turismo.

Carbono Uomo
Mais importante que isso, como ações empreendedoras que estão sendo implantadas na cidade servem para reduzir o desemprego, que hoje é de 17.9% na região metropolitana, segundo o IBGE?

João Doria
Elas são importante simplesmente porque geram emprego e oportunidades. Esse é o caminho.

Carbono Uomo
Falando de eventos, o empresariado poderia se beneficiar com a realização de mais atividades culturais (ou com maior frequência) do que depender de grandes acontecimentos, como o Lollapalooza ou a Fórmula 1, apenas para citar dois exemplos? Há interesse da iniciativa privada em pulverizar suas ações para eventos mais acessíveis em termos financeiros, em regiões que podem ser melhor aproveitadas, como os parques (Ibirapuera, Aclimação, Villa-Lobos) e áreas como o Viaduto do Chá?

João Doria
A cidade já se beneficia de eventos de pequeno e médio porte, mas especialmente dos de grande porte. O que é possível fazer é organizar mais o processo e alinhar mais os procedimentos, tanto no setor público quanto no privado.

Carbono Uomo
Qual a melhor forma de atrair a iniciativa privada, seja através da economia criativa ou da realização de eventos, para as regiões periféricas de São Paulo? Falta um olhar maior para a extrema zona leste e a extrema zona sul, por exemplo?

João Doria
Faltam mais atividades para a zona sul, principalmente, mas também para a zona leste. Alguns incentivos estão sendo estudados para ampliar a realização de atividades nessas áreas da nossa cidade.

Carbono Uomo
Nesse sentido, o empresariado errou historicamente em se basear nas regiões centrais da cidade, atraindo grande volume de tráfego e concentração empresarial em poucos lugares? O espaço urbano de São Paulo é mal aproveitado pelos empresários?

João Doria
É uma vocação natural de mercado. O empresariado vai aonde tem oportunidade.

Carbono Uomo
Você acaba de voltar de Nova York. A metrópole americana era bastante degradada nos anos 70 e 80 e passou por uma revolução até ser a grande cidade cosmopolita
 mundo hoje. Como São Paulo pode se beneficiar do exemplo nova-iorquino para evoluir?

João Doria
Seguindo as boas iniciativas. A gestão de Nova York tem alta eficiência administrativa. Também nas áreas privatizadas e sob administração do setor privado, como museus, galerias, áreas de exposição e venda de arte, e serviços públicos nos parques. Praticamente todos são administrados pelo setor privado, garantindo qualidade, eficiência, redução de custos e um melhor atendimento à população.

Carbono Uomo
O que você procurou em Nova York durante sua visita? O que o empresariado de lá pode trazer a São Paulo em termos de inovação?

João Doria
Buscamos mais investimentos do que inovação, e também parceiros para alguns projetos que pretendemos implementar na capital de São Paulo.

Carbono Uomo
Que outras cidades mundiais e business desses locais são inspirações para você e outros empresários paulistanos ávidos por modernização?

João Doria
Além de Nova York, Los Angeles, Seul e Berlim são alguns exemplos de cidades bastante avançadas no sentido de tecnologia, principalmente naquela a serviço da população. Em Seul, por exemplo, não há mais cartões para circular nos ônibus, você usa seu próprio celular. É o aparelho que compra as passagens de ônibus, metrô, trem, que faz compras no supermercado, que orienta toda sua conta corrente. Você tem um banco e um concierge pessoal em sua mão.

Carbono Uomo
Quem são os jovens empreendedores que estão em seu radar hoje? Em quem você aposta como os nomes que vão trazer mudanças positivas ao Brasil?

João Doria
São muitos, mas prefiro não citar nomes para não cometer injustiças. Há uma geração de jovens empreendedores que já está tendo sucesso em negócios recém-abertos, com menos de dez anos de vida, e cuja oportunidade já se materializa muito bem. Através deles, vejo o vigor com que o setor de empreendimento enfrenta a crise.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.