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Sem Burocracia

Com público potencial de 7 milhões de brasileiros, a startup SmartMEI quer facilitar a vida do empreendedor individual em tempos de na economia

20 Out 2017 09:04

Atualmente tramitando no Congresso, a Reforma Trabalhista tem como um de seus pontos fundamentais a terceirização da mão de obra como maneira de acelerar o crescimento econômico do País. O tema é motivo de embate entre aqueles que argumentam sobre a perda de direitos individuais do trabalhador e os que pensam no mercado como um ambiente de profissionais liberais e empreendedores. Na prática, o Brasil já caminha para uma ampla terceirização nos postos de trabalho. Cerca de 80% de todas as empresas abertas no Brasil em 2016 se encaixam na categoria conhecida como MEI – o Microempreendedor Individual. Criada pelo governo em 2008, ela serve para ajudar autônomos que querem sair da informalidade e se profissionalizar. Qualquer um com o nome limpo e renda anual de até R$60 mil por ano pode abrir uma MEI.

Na esteira dessa transformação no terceiro setor está a SmartMEI, uma startup que reúne serviços gratuitos de contabilidade para esses microempreendedores. Por meio de um aplicativo, o usuário pode tirar o CNPJ de sua empresa na Receita Federal, emitir notas fiscais, extratos de faturamento, realizar balanço financeiro e até calcular a declaração anual do Imposto de Renda. Ideia dos amigos Marcello Picchi e Carlos Dejavite, ela tem um público possível de 7 milhões de MEIs já abertas no Brasil, e outras prováveis 40 milhões ao longo dos próximos anos. Picchi e Dejavite se conheceram durante seus MBAs na Universidade de Stanford, na Califónia. Desiludidos com a burocracia que impediu o sucesso de iniciativas próprias anteriores e fascinados com o dinamismo do Vale do Silício
em lidar com os problemas das pessoas, os dois voltaram ao País determinados a facilitar o nascimento de uma nova classe de autônomos no mercado de trabalho: “A SmartMEI surgiu para ajudar quem quer gerar renda e emprego no Brasil, fazer o País voltar a crescer. Nossa função é tirar a burocracia da frente”, explica Picchi. “Vimos duas coisas enquanto estudávamos em Stanford. A primeira foi o impacto do Vale, hoje o epicentro de inovação em todo o mundo. Você empreender é uma atitude romantizada. As pessoas que tentaram, e mesmo as que falharam, são muito valorizadas. A segunda é como a tecnologia muda a maneira como as pessoas vivem.”

Formado em administração de empresas pela Faculdade Getúlio Vargas, com pós em marketing na ESPM, Picchi foi para Stanford em 2013. Em meados de 2014 veio ao Brasil aproveitar as férias de verão e testar algumas ideias. Percebeu que a economia já dava sinais de que pioraria e retornou aos EUA descrente. Lá foi incentivado por Dejavite, um engenheiro da área de computação formado pelo ITA, a tentar empreender na terra natal dos dois: “O fato do Carlos ter estudado no ITA foi importante para nossa fundação. Ele queria retribuir ao País a oportunidade que teve de fazer uma faculdade pública de altíssimo nível”, explica o paulistano. Na época, eles nem sabiam o que era o MEI. “O Brasil tem 95% de todos os processos trabalhistas do mundo. Esse é um dado bizarro. Três milhões de novos processos entram no sistema por ano. No início, nossa ideia de startup era ajudar nessa situação oferecendo às empresas de tecnologia um modelo de contrato trabalhista claro aos funcionários, que anulasse qualquer chance de um processo futuro.” Foi somente na hora dos primeiros testes com o produto, em 2015, que os MEIs se apresentaram como público alvo potencial: “Fizemos um site em Wix e injetamos um pouco de dinheiro em propaganda no Google. Precisávamos de alguns hits para ter quem entrevistar durante a fase de captação do projeto. Ainda ficaríamos em Stanford por um trimestre, o que nos daria tempo para análise. Nesse bolo inicial de pessoas surgiram os primeiros MEIs. Começamos a conversar com essas pessoas e vimos que elas tinham demandas. Não precisavam só abrir uma MEI, mas aprender a emitir guia de pagamento, cuidar da declaração anual do imposto, mudar algum dado do cadastro da empresa. Esse público é superdesamparado”.

De meados de 2015, quando a SmartMEI começou a funcionar, até o final de 2016, o número de pessoas cadastradas como microempreendedores individuais aumentou de 5 para 7 milhões. As 200 pessoas que fizeram parte dos primeiros testes da startup também se multiplicaram. Hoje a empresa já conta com 55 mil usuários. Na esteira dos aplicativos freemium, a SmartMEI ganha dinheiro oferecendo um serviço ainda mais atrativo: mediante o pagamento de uma taxa mensal de administração de R$15 e de cobranças individuais, o aplicativo ainda oferece ao usuário uma conta de banco para recebimento e emissão de pagamentos, em um sistema que está sendo preparado para receber quantias por meio de máquinas móveis de cartão. “Voltamos ao Brasil determinados a oferecer gratuitamente todo o serviço básico de contabilidade para que as pessoas pudessem se regulamentar no Brasil e encontrar aqui uma maneira de monetizar a ideia. O que dificulta a vida de muitos MEIs é não conseguir movimentar dinheiro de uma maneira profissional. Não ter uma conta de pessoa jurídica ou não conseguir emitir um boleto complica a empresa. Muitas vezes essas pessoas são subbancalizadas, têm o nome sujo. Esse dinheiro precisa existir em pessoa jurídica, para que isso possa ser capitalizado. Se você vai pedir um financiamento, tem que apresentar o extrato de faturamento dos últimos 12 meses. Assim, a parte paga é relativa a serviços financeiros.”

No primeiro semestre deste ano, o dinamismo da SmartMEI atraiu investidores da Caixa Econômica Federal, que injetaram na startup R$220 mil para a criação de um projeto-piloto que deve levar os serviços do aplicativo a beneficiários de um programa governamental em três comunidades da cidade de Campinas, no interior de São Paulo: “Estamos atuando em condomínios construídos pelo Minha Casa, Minha Vida, comunidades que têm entre 15 mil e 20 mil pessoas. Vamos levar um banco mobile para elas, oferecer regularização para os autônomos e lançar uma maquininha própria de cartão”, explica Picchi. “Queremos incentivar o intercâmbio entre autônomos dessas regiões recém-formadas, e por isso nossa máquina terá um modelo diferente do atual. Qualquer maquininha pareia com qualquer celular. Dois vendedores que são vizinhos de porta podem usar o mesmo aparelho para receber. Com isso, queremos que as pessoas se conheçam, trabalhem juntas.” A injeção de capital servirá para que a SmartMEI dobre de tamanho. Hoje a empresa tem sete funcionários, e espera trazer outros sete para consolidar a parceria com a Caixa Econômica e dinamizar ainda mais o aplicativo para o público.

Enquanto o Brasil registrou um aumento de 9,8 mil vagas de trabalho com carteira assinada no último mês de junho, o ritmo de abertura de novas MEIs deve acelerar  a partir do ano que vem, quando o teto de ganhos do empreendedor vai aumentar de R$60 mil para R$81 mil, ou um rendimento mensal de R$6.750: “De acordo com análise da Previdência Social, pouco mais de 40 milhões de pessoas poderiam se tornar MEIs hoje. São cerca de 22 milhões de empreendedores e outras 22 milhões de pessoas com vínculos empregatícios mas que estão fora da CLT. Hoje queremos trabalhar com as 7 milhões de MEIs que já existem, mas queremos ajudar todas que surgirem no futuro”, sonha Picchi, esperançoso.