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O ex-modelo gaúcho Helio Ascari começou a trabalhar ainda criança para ajudar a família e, hoje, constrói bicicletas artesanais que são joias que conquistaram até Ralph Lauren

por Artur Tavares 27 Dez 2016 12:11
Créditos: Jacques Dequeker

Elas têm bancos de couro, pneus em cores claras, correias douradas, quadros monocromáticos, detalhes de vime, madeira e aço cromado. Parecem saídas diretamente de fotos do século passado, de sépia desbotada e bordas comidas por traças. No entanto, as bicicletas construídas por Helio Ascari são joias dentro do universo vintage, resgatando a estética de um tempo que já foi, sem deixar de lado o que há de mais novo quando o assunto é tecnologia sobre duas rodas.

As bikes que ele constrói em sua Ascari Bicycles, em Williamsburg, no Brooklyn, Nova York, são cobiçadas. Entre seus compradores estão o estilista Ralph Lauren – um ávido colecionador de veículos vintage. Elas são feitas para enfrentar as ruas, mas poderiam ser objetos de exposição. Entre os detalhes que o brasileiro coloca no design estão pedras preciosas, como o rubi e o diamante.

“Gosto de testar novos produtos e misturar materiais para ver o que acontece. Tenho tido um resultado muito bom com a fabricação de minhas canoplas de freios, por exemplo. Eu mesclo cobre, latão, madeira exótica, couro ebony, ouro e pedras preciosas. É um processo muito delicado e complexo, assim como o de um joalheiro”, diz.

Nascido em uma família de baixa renda na cidade interiorana de São Marcos, no Rio Grande do Sul, Helio Ascari deu duro durante a infância. Deixou seu estado natal aos 20 anos e foi descoberto pelo agente Sérgio Mattos (quem mais?), no Rio de Janeiro. Não era sua intenção, mas se tornou modelo internacional. Foi garoto-propaganda de marcas como Ermenegildo Zegna e Prada, fotografou com Gisele Bündchen e Mario Testino para a Zoomp. Nunca deixou de lado a origem humilde. Quando parou de figurar em passarelas e ensaios, voltou a trabalhar com sua maior paixão, as bicicletas.

Ascari conta que sua história com as bikes é antiga. Quando tinha 8 anos, encontrou uma bicicleta abandonada no porão de casa e começou a restaurá-la. São Marcos, conhecida como a terra do caminhoneiro, é uma cidade de imigrantes italianos que possuíam uma infinidade de maquinário antigo. “Comecei a trabalhar ainda criança, aos 11 anos, já que precisava ajudar a sustentar minha família. Passei por fábricas de metal, de móveis de madeira, e também participei de um programa para famílias que precisavam de ajuda financeira, que basicamente consistia em costurar solados de sapatos de couro. As fábricas deixavam sacolas de solados em nossa casa, e passávamos o fim de semana costurando, todos reunidos em volta do fogão a lenha. Assim, aprendi muito cedo a trabalhar com materiais diversos, sem saber que, ironicamente, essa experiência me levaria aonde estou hoje.”

Após 13 anos como modelo, vivendo entre Itália, Alemanha e Estados Unidos, Ascari se estabeleceu em Portland, no estado do Oregon, onde aprendeu formalmente a construir quadros de bicicleta no United Bicycle Institute. Abriu a Ascari Bicycles há três anos e, hoje, oferece três modelos básicos aos clientes, que servem como base para suas customizações. As bikes custam entre US$ 6 mil e US$ 20 mil.

O ex-modelo estima já ter construído mais de 55 bicicletas. Consegue montar até três diferentes delas ao mesmo tempo e conta ter lista de espera. Cada customização demora pelo menos quatro meses para ficar pronta. E ele explica: “Eu construo a bicicleta do zero, toda à mão: o quadro, o garfo, o freio, a bomba de encher pneus etc. A partir daí, customizo de acordo com cada pedido. Decido detalhes e especificações a partir das informações que recebo do cliente. Eu gosto muito desse processo criativo. Considero que haja sempre uma descoberta. Algo muda a cada projeto. Por isso, às vezes fica difícil dizer qual é a minha preferida. Elas são one of a kind”.

As peças que não são fruto de suas mãos de artesão vêm dos mais renomados fornecedores. “Uso componentes que são alguns dos melhores do mercado, como as caixas de direção da Chris King, os pedivelas de Rene Herse, cubos Curtis Odom, aros de madeira da Ghisallo, tubos para construção de quadros da Columbus Tubes, os selins da Brooks. O que eu não consigo encontrar do meu gosto, fabrico.”

Orgulhoso de suas bicicletas, o artesão diz que elas não se destacam apenas pelo design. “Ergonomicamente, elas têm um ride mais elegante graças ao alongamento entre as rodas. Seria como dirigir um Rolls-Royce. Mecanicamente, são simples como qualquer outra bike, porém os componentes usados são top de linha. Como diferencial estético, o processo de joalheria é único. Essas são as maiores diferenças para as bicicletas comuns.”

Hoje, a Ascari Bicycles deixou Portland e ganhou nova sede em Nova York, onde todas as noites, após encerrar o trabalho, Ascari pedala de Williamsburg até a George Washington Bridge, retornando para casa após uma volta pelo Central Park.

A opção por abrir seu ateliê nos Estados Unidos se deu pela pouca burocracia que o país oferece aos novos empresários e também por Ascari acreditar que seu trabalho é valorizado por lá. Mesmo assim, tem clientes brasileiros e sonha em abrir uma filial em sua terra natal. Ser estrangeiro alguma vez o atrapalhou na terra do Tio Sam? “Como todo brasileiro, tenho ingredientes muito especiais, que são a audácia, a coragem e a criatividade. No fim, isso ajuda, não?”, pergunta com um misto de orgulho e descontração.

Texto originalmente publicado na revista Carbono Uomo n° 2

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.