Lifestyle

Renovação Slow

Instalada em uma praça do Bixiga, a feira Jardim Secreto leva produtores artesanais e público jovem para o tradicional bairro italiano de São Paulo e ainda ajuda em sua revitalização

por Artur Tavares 31 Jan 2018 16:16

Antigo reduto da vida noturna e expoente da gastronomia italiana em São Paulo, o Bixiga é um dos bairros mais tradicionais da cidade. O local, que nos registros oficiais tem nome de Bela Vista, tem posição privilegiada – está entre o Centro, a Liberdade, o Baixo Augusta e a Avenida Paulista. Lar da escola de samba Vai-Vai e da centenária cantina Capuano, a mais antiga em funcionamento em toda a cidade, o Bixiga está passando timidamente por uma reformulação, com empreendedores estabelecendo seus bares e lojas em meio aos imóveis tombados da época da imigração italiana. Na Praça Dom Orione, as jovens Gladys Maria Tchoport e Claudia Kievel montaram, há um ano e meio, sua feira de produtores artesanais, Jardim Secreto, que hoje se tornou espaço colaborativo na Rua Conselheiro Carrão.

O Jardim Secreto surgiu como feira itinerante na cidade há quatro anos. Chegou a se estabelecer no MIS – Museu da Imagem e do Som –, antes de se instalar oficialmente no Bixiga. Na época, Gladys
trabalhava como garçonete no restaurante Chez MIS e Claudia era designer em uma revista dedicada à política. Ambas realizavam feiras e festas como projetos paralelos, até que se conheceram e decidiram unir forças: “Em 2013 não havia muitas opções de coisas para se fazer durante o dia. Havia festas de rua, mas queríamos uma coisa mais tranquila”, conta Gladys, que é formada em design de moda. “O nome veio de uma lista mental que fizemos de coisas que achávamos que faltavam na cidade. Pesou o fato de que há pouco espaço verde em São Paulo. Percebemos que não havia um lugar para as pessoas se encontrarem de dia, um evento que não servisse só para pagar para entrar, gastar dinheiro em compras, encher a cara e ir embora. Assim nasceu a busca por jardins secretos na cidade”, diz Claudia.

Foram 15 expositores na primeira edição e, quando o Jardim Secreto passou a acontecer no MIS, o número aumentou para 45. Com uma área maior no Bixiga, a feira recebe hoje 210 produtores artesanais, sejam eles dedicados à gastronomia, decoração, moda ou à fabricação de cosméticos veganos. Acontece a cada dois meses, aos sábados, e ainda tem apresentações musicais curadas pelos donos do Espaço 13, um bar, barbearia e estúdio de tatuagem em frente à Dom Orione – também é deles a iniciativa de limpeza e renovação da Escadaria do Bixigae dos shows de jazz que acontecem mensalmente por lá. O conceito de slow life foi adotado somente quando a feira já existia: “Depois do MIS, apareceu muita gente legal querendo participar. Percebemos que era melhor convidar pessoas que produziam coisas do que aquelas que somente revendiam produtos. Antes, estávamos mais preocupadas em proporcionar experiências”, explica Gladys.

Com uma fila de espera de mais de cem produtores ávidos a ter um espaço para se apresentar no Jardim Secreto, nasceu a ideia de inaugurar no primeiro semestre deste ano a Casa Jardim Secreto, que age como ponto fixo de venda para quem expõe na feira. Não apenas isso, as empreendedoras sentiram dificuldades em continuar atuando no espaço público com a mudança de gestão na prefeitura: “Até o ano passado entendíamos como as coisas andavam, mas agora mudou. Na praça, tem algumas novidades de acordos com a prefeitura que não tinham antes. É algo delicado de se falar. Tem burocracias e processos novos”, diz Claudia. “Aqui não tem iluminação noturna de qualidade, falta segurança. No começo do ano, o coreto da praça caiu e só foi reconstruído porque os moradores e os comerciantes daqui deram a grana. Custou R$ 12 mil”, aponta Gladys. Na frente da Casa está um parklet mantido pelas empresárias, que tem horta comunitária e, desde setembro passado, recebe, aos sábados, shows semanais de jazz, folk e rock: “Estamos trazendo vida para o bairro. Para quem é de fora, o Bixiga é só esse quarteirão cheio de cantinas na Treze de Maio. Durante a semana, quem frequenta aqui são os moradores e os estudantes. O público das nossas feiras só vem em massa nos fins de semana”, explica Gladys.

As empresárias dizem ter pesadelos com o termo “gentrificação” e questionam aqueles que já as acusaram de estar promovendo tal prática no Bixiga: “Dizem que somos a ‘arma da gentrificação’ do bairro. Como? Com uma cerveja e um potinho de cerâmica? As verdadeiras armas não seriam as construtoras?”, questiona Claudia. Em virtude da preservação histórica e de uma associação informal de moradores e comerciantes, ela não acredita que o bairro passará por uma renovação completa: “O Bixiga nunca vai ser o novo Pinheiros. Além dos tombamentos, aqui se preserva a cultura do bairro. Não é tão seguro, mas crianças ainda brincam na rua”.

Hoje, a Casa Jardim Secreto é a única loja nos moldes colaborativos a ocupar a região do Bixiga. Ali também se promovem debates e oficinas, tudo dedicado ao slow life. Com a Casa, elas querem transmitir sua filosofia aos moradores: “Vamos começar a fazer mutirões de consertos. Se você precisa pregar um botão, trocar o zíper de uma jaqueta ou colar um vaso, alguém aqui que entende vai te ajudar. Não é fazer para você, mas te ensinar a se virar. Assim as pessoas não vão mais precisar gastar dinheiro comprando coisas novas sem necessidade”, diz Claudia. A partir do ano que vem, o foco das
empresárias será na Casa, e não na feira, que deve ter sua periodicidade diminuída.Não que importe, porque a semente que elas plantaram na Praça Dom Orione já serviu para dar vida nova à região.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.