Lifestyle

Por um futuro menos desigual

Parag Khanna vê nas smart cities a gênese para um futuro com menos desigualdades sociais

por Artur Tavares 30 Jun 2017 11:01

Dos superquarteirões de Barcelona às regiões metropolitanas completamente autônomas construídas em tempo recorde em países dos Tigres Asiáticos, as smart cities são o principal tema sobre o qual se debruçam políticos, economistas, urbanistas e pensadores que tentam entender e planejar um futuro mais justo. Os impactos da hiperconectividade, do empreendedorismo e da descentralização do poder que surgem com cidades mais inteligentes são objetos de estudo do especialista em Relações Internacionais indiano Parag Khanna. Autor de uma trilogia de livros sobre o assunto, o mais recente deles Connectography: Mapping the Future of Global Civilization, de 2016, sem previsão de lançamento no Brasil, Khanna divide seu tempo entre Cingapura, onde leciona, Estados Unidos, onde é conselheiro político, e Davos, onde integra o Fórum Econômico Mundial. Ele conversou com a Carbono Uomo sobre geopolítica e desenvolvimento mundial.

Carbono Uomo
O que é o Global Trends 2030, do Conselho de Inteligência norte-americana, qual seu papel nele e quais as principais descobertas desse relatório?

Parag Khanna
O Global Trends 2030 é um relatório do Conselho de Inteligência dos Estados Unidos. É um programa multianual concebido por experts de todo o mundo que têm hoje contato com o desenvolvimento norte-americano. É um documento que faz previsões em diversas áreas, como a demografia, a política e a tecnologia. Fui conselheiro em muitas questões globais abordadas e editei as análises gráficas apresentadas no trabalho. É um documento bastante longo, com quase 200 páginas. A urbanização, um tópico que ganha cada vez mais importância, é bastante abordada. No campo do empoderamento individual, discutimos como as mídias sociais trazem progresso. No entanto, o ponto principal é que abordamos os Estados Unidos como uma variável global. É raro em um relatório como esse pensar no país não como um ator estável, mas como uma variável dentro do cenário geopolítico. E isso se torna cada vez mais verdade após a eleição de Donald Trump, que trará uma mudança na maneira com que eles se relacionam com o mundo. Outra variável importante analisada é a Ásia como potência, e se o continente permanecerá estável e crescendo no futuro ou se as tensões vão se agravar ali.

Carbono Uomo
Você vive em Cingapura, considerada uma das cidades do futuro. Ela é conectada e cercada de tecnologia de ponta. Como o Estado alcançou este patamar de desenvolvimento tão rapidamente e como ela se posicionará no cenário global daqui duas décadas?

Parag Khanna
Uma das tendências identificadas no Global Trends 2030 é um crescimento econômico contínuo de Cingapura e outras potências asiáticas. Em Connectography abordo como Cingapura se tornou
um hub econômico regional bastante cedo, ainda na década de 1950. A cidade soube lidar com baixos impostos, questões ambientais, recebeu de braços abertos empresas internacionais enquanto estabelecia uma base legal forte. Não só isso. A localização geográfica de Cingapura facilita que ela se torne um hub regional também de logística e envio de produtos. Nos últimos 15 anos, empresas tecnológicas de ponta se estabeleceram aqui, melhorando e automatizando serviços.

Carbono Uomo
Falando de smart cities e suas formações, quando elas se tornaram realidade?

Parag Khanna
É difícil falar nas smart cities como se elas estivessem completamente estabelecidas, ou como se houvesse muitas delas espalhadas pelo mundo. Hoje elas são emergentes, incrementais. Não há um modelo único para elas, e sim diversas tentativas que estão sendo experimentadas. Existem cidades bastante avançadas, como a própria Cingapura e Barcelona, que estão ficando “mais inteligentes”, e há novas smart cities verdes, como Songdo, na Coreia do Sul, e Tianjin Eco-City, na China. As smart cities estão em diversos estágios de desenvolvimento. Algumas delas são do período antigo, outras são medievais. Podem ser enormes áreas urbanas ou regiões bem pequenas. Colocar todas na mesma categoria de smart city é relativizar tudo ao nada, porque são lugares que não têm nada em comum. É mais correto falar sobre os processos sob os quais as cidades avançam para se tornarem mais inteligentes: o uso de tecnologia sustentável, o empoderamento individual, o empreendedorismo, o desenvolvimento educacional, o planejamento de gerações futuras, a transparência estatal a partir do uso de smart data. Há pelo menos dez ou 15 campos que podem ser avançados para tornar uma cidade mais inteligente.

Carbono Uomo
Como a produção alimentícia, seu armazenamento, transporte e toda a cadeia de produção de uma região se beneficiam com tecnologias smart?

Parag Khanna
As cidades de hoje definitivamente têm como prioridade questões de segurança e logística ao redor de necessidades básicas, como alimentos, água e energia. Mais uma vez, Cingapura se destaca, desta vez pela construção das instalações de armazenamento subterrâneas Jurong Rock Caverns, que facilitam o acesso a comida e combustível para uma região que tem um alto consumo energético per capita e nenhum espaço para construir armazéns. Uma cidade que pensa no aumento do consumo de seus cidadãos caminha para um futuro melhor e mais estável.

Carbono Uomo
A mão de obra caminha para um processo cada vez mais acentuado de automação. Como a sociedade vai reagir com a perda de empregos para máquinas nos próximos anos?

Parag Khanna
A noção de automação do trabalho gira em torno de um tudo ou nada. Depende das indústrias, das cidades, do quão sofisticada é uma sociedade e como é sua composição econômica. Há muita generalização, as pessoas acreditam que vão acordar na manhã seguinte e não haverá mais trabalho. As indústrias criam muitos novos postos a todo momento, principalmente nas áreas de tecnologia e conhecimento de ponta. São esses profissionais que projetam os robôs e algoritmos que levam à automação. Além deles, as grandes corporações estão contratando profissionais de infraestrutura – engenheiros, arquitetos, especialistas em áreas da sustentabilidade –, saúde e educação para melhorar as condições para seus empregados. Esses empregos são chamados de non-tradable services (serviços sem possibilidade de troca, em uma tradução literal), profissões impossíveis de serem automatizadas devido às capacitações necessárias. Na realidade, os non-tradable services hoje têm uma demanda crescente. Nos Estados Unidos e na Europa, em muitas sociedades desenvolvidas, há falta de profissionais em áreas de altíssima tecnologia, como coding e programação, por exemplo. Não é que os postos de trabalhos estão se tornando mais escassos, e sim que não há capacitação suficiente. Os verdadeiros problemas são os sistemas educacionais e as prioridades sociais dos governos, e não a tecnologia.

Carbono Uomo
Então nós precisamos discutir o sistema educacional o mais rápido possível para acompanhar a evolução socioeconômica do planeta?

Parag Khanna
O grande problema está neste “nós”. Mesmo dentro dos próprios países, não há uma maneira hegemônica de educar os cidadãos. É algo que depende da motivação política, dos recursos econômicos, o grande poder do empreendedorismo. Em cidades como Nova York há novos programas para se ensinar coding em horários pós-expediente para as pessoas. Essas mesmas ações sociais não acontecem em cidades como Frankfurt, Moscou, Dubai, Lagos ou Brasília.

Carbono Uomo
Existem áreas de fronteiras que também estão se tornando smart cities. Como o progresso reduz as diferenças sociais e interliga economias?

Parag Khanna
Alguns projetos já construídos, como a interseção entre San Diego e Tijuana, são modelos interessantes. Lá o aeroporto é compartilhado, as pessoas podem cruzar a fronteira entre os dois países, acessar voos domésticos tanto no México quanto nos Estados Unidos. Há situações, no entanto, em que as fronteiras não são bem estabelecidas. Nesses casos, há uma limitação de quanto progresso pode ser alcançado em termos de cooperação nacional. Mesmo assim existem alguns bons exemplos de projetos valiosos em áreas de disputa, como em Punjab, que tem parte de seu território na Índia e outra no Paquistão. Trata-se de uma zona de movimentação comercial forte. A região tem sido observada em um experimento de abertura comercial e dos esforços para diminuir as tensões. Na fronteira entre Israel e Palestina, as estatísticas mais recentes mostram que indústrias e empresas israelenses contratam cada vez mais palestinos em áreas como armazenamento, logística, processamento de alimentos. Isso não trará paz ao conflito na região, mas é melhor do que nada.

Carbono Uomo
Quando olhamos para São Paulo, como ela poderá se tornar um hub moderno como Cingapura?

Parag Khanna
Não há dúvidas de que São Paulo já é um hub. É a maior cidade de todo o hemisfério ocidental, a capital econômica do Brasil, e também um dos cinco centros financeiros mais importantes em todo o mundo. Estatisticamente falando, ela é um conduíte financeiro. Mas, como São Paulo é uma megacidade, a questão central é como uma metrópole desse porte aceita que é tão enorme, diversificada e complicada a ponto de já ter gastado uma quantia grande de recursos sem ter caminhado para um futuro mais inteligente. Sei que São Paulo vive falta de água potável, enfrenta um problema de desmatamento, o trânsito nas ruas é caótico. A cidade precisa resolver questões de mobilidade para que sua população possa ficar mais tempo focada no trabalho, fazendo negócios, realizando ações de empreendedorismo ou estudando. São questões básicas sem solução não apenas em São Paulo, mas em Nairóbi, Manilla, Cidade do México, Cairo. Quando estudei algumas das maiores cidades do mundo, percebi que todas passarão por uma série de desafios antes de alcançar o título de smart.

Carbono Uomo
Outro problema dos países em desenvolvimento é que apenas algumas grandes metrópoles sustentam toda a economia nacional? Existe um modelo mais viável?

Parag Khanna
Se você olhar para a Indonésia, Rússia, África do Sul, as Filipinas, ou para o Brasil, somente algumas cidades destes países dominam a economia nacional. É algo bastante comum em mercados emergentes. Minha recomendação é que deve haver mais esforços para melhorar a qualidade da infraestrutura, industrialização e conectividade para diversificar o perfil econômico dessas nações. Neste sentido o Brasil tem muito para onde avançar. Se as cidades de menor porte daí melhorarem suas condições regionais, haverá uma economia nacional melhor distribuída.

Carbono Uomo
Quais são suas previsões para o Brasil para os próximos quinze anos?

Parag Khanna
É difícil prever como apenas um país vai evoluir até 2030, mas aposto em um cenário global multipolar e multicontinental no futuro. Todos os continentes serão igualmente relevantes para a economia mundial pela primeira vez na história. A América do Sul importa. Vocês não são mais uma região colonial. A Europa vê os países da região como independentes, sabe da abundância de recursos naturais que vocês possuem. Cada vez mais, aumenta a taxa de urbanização e de infraestrutura de qualidade no continente. Na economia, os mercados latinos são fortemente conectados com a Ásia, a Europa e a América do Norte, e agora também com os mercados africanos. Hoje o Brasil tem o melhor sistema diplomático da região e isso facilita nos acordos bilaterais. O país busca relacionamentos com todos os outros povos do mundo e acho que isso é bastante positivo.

Carbono Uomo
Você acredita que os países do G8 continuarão importando no futuro?

Parag Khanna
Não acredito que o G8 seja relevante hoje e não acho que ele será importante amanhã. Basicamente, os países do G7 ou do G8 são apenas integrantes de um clube transatlântico, cujas relações datam de muito antes da formação do bloco geopolítico de fato. É um grupo bastante irrelevante.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.