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Para Jamais Esquecer

Gui Mattos já visitou a Indonésia cinco vezes, mas a última viagem que fez ao país foi surf trip inesquecível de sua vida

10 Out 2016 09:24

Estamos no meio do nada, a 150 quilômetros de algo parecido com o mundo civilizado. Para chegar até aqui, nas Mentawai, um grupo de 70 ilhas no Oceano Índico, na costa oeste de Sumatra, na Indonésia, foram dois voos de, aproximadamente, 14 horas, um “curto” trecho de seis horas em uma aeronave local e mais 12 horas navegando. Cercadas por bancadas de corais, desenhadas para o surfe, essas ilhotas recebem ondulações que viajam centenas de milhares de quilômetros, alinhando-se durante o percurso, e, normalmente, pouquíssimo vento. Condições ideais, que tornam a região o playground do esporte.

São 4h30. Ainda está escuro. Contrariando todas as expectativas, o capitão dá a partida nos enormes propulsores a diesel do nosso barco – e, por dez dias, também nossa casa –, o King Millenium II. Sinto meu corpo absolutamente moído e esturricado, resultado dos cinco primeiros dias de horas e mais horas surfadas, na que seria a mais inesquecível surf trip da minha vida. O barulho e a vibração dos motores invadem a cabine que divido com mais dois amigos. Empresários, arquitetos, publicitários, um jornalista e até um psiquiatra fazem parte desta jornada. Ao todo, na embarcação, somos dez brasileiros, além dos quatro nativos da tripulação mais o capitão.

À sensação anestesiada do meu corpo se soma a ansiedade pelo aumento do swell prometido pelos sites de previsões impressos no dia do embarque, ainda no Brasil. Por causa dos tsunamis dos últimos anos, não podemos mais pernoitar próximo às rasas bancadas de corais, o que torna enorme nosso trabalho de convencimento, a cada noite, para que o capitão se locomova cedo e chegue ao local escolhido antes dos outros barcos. Ainda deitado, percebo que a navegação está diferente dos outros dias, com um movimento mais intenso e longo. O swell aumentou!

MARATONA
A cada ano, escapar para uma surf trip se torna mais necessário. É como renovar a fonte de energia vital. E uma vez que você bebe dessa água, fica impossível viver sem. Mas trabalhar o dia todo e manter um condicionamento físico minimamente adequado exige nadar, pular, esticar, dobrar, correr e tudo o mais que você possa imaginar, como percorrer 50 metros submerso em uma piscina. Não é tarefa fácil, mas é um dos objetivos a ser alcançado cada vez que uma viagem dessas se aproxima. A maratona de surfe exige estar o menos enferrujado possível para aproveitar o máximo de horas dentro d’água. Em dias bons, é algo em torno de nove horas no mar, no mínimo. Junte o sol escaldante e você terá a receita perfeita para a desidratação e o esgotamento.

Por ser minha quinta viagem para estas bandas, já tenho algum conhecimento de como sobreviver. Logo, meu pensamento se volta para o dia anterior. Macaronis, uma das mais disputadas ondas, estava incrível, mas com um problema corriqueiro: éramos mais de 50 cabeças no mar disputando a posição mais adequada, algo em torno de quatro metros quadrados para cada. Mas, desta vez, tínhamos partido na frente. Pulo da minha cama e começo a rotina antes de toda queda na água: calção, parafina, lycra, protetor solar, muito protetor solar, comida, água. Cada coisa em um canto do barco, pouco tempo, muito balanço, adrenalina pura.

Quando o barco diminui a velocidade, todos nos debruçamos em uma das laterais, à procura das primeiras imagens. Macs era só nossa! Incrivelmente perfeita e o dobro do tamanho do dia anterior. Foram seis horas épicas, com apenas nós e um barco com mais oito surfistas profissionais e semi-profissionais sul-africanas. Sim, um barco só de meninas nas Mentawai. Sobravam ondas, algo impossível de acontecer mesmo nos mais criativos sonhos ou fantasias de qualquer surfista. Na hora do almoço, todos os barcos que estavam na região começaram a chegar. O fim de tarde voltou ao cenário habitual, com muitas cabeças disputando as ondas. Era a prova de que fizemos a escolha certa.

Nos dias seguintes exploramos diversas bancadas com ondas de todos os tipos para todos os gostos: direitas, esquerdas, tubulares, manobráveis, longas e curtas. Fizemos algo próximo dos 1.500 quilômetros de navegação, praticamente varrendo os picos de norte a sul. Para mim e uns poucos amigos, a inevitável sensação de desespero com a chegada dos últimos dias no barco dava lugar a uma nova energia. Desta vez, diferentemente de outras viagens em que eu voltava direto para o Brasil, iríamos ter mais duas “pernas”.

FÓRMULA 1
Grajagan é, sem dúvida, uma das dez melhores ondas do planeta e a mais constante da Indonésia. Uma bancada rasa e afiada que “fabrica” esquerdas fortes, tubulares e longas, muito longas. Tornou-se destino obrigatório para quem quer experimentar um surfe de primeira linha. Fazendo um paralelo com a Fórmula 1, seria como pilotar no autódromo de Monza, na Itália.

Colada a um parque nacional, com a selva densa e ainda nativa, na costa oeste da ilha de Java, fica a apenas três horas a bordo dos atuais speedboats de Bali. Foi descoberta pela lenda-viva havaiana Gery Lopez, nos anos 1970. Naquela época, só era acessada de minivan, com o volante do lado direito, pilotada por algum nativo por infinitas estradas-trilhas sinistras e com um calor insuportavelmente interminável.

Diferentemente das Mentawai, em Grajagan fica-se hospedado no surf camp local, em bangalôs de madeira e sapé sobre pilotis, a três metros do chão, altura teoricamente suficiente para se proteger dos possíveis tsunamis e dos lendários tigres da região.

Certas horas do dia, com a maré baixa, quando as ondas estão mais fortes e tubulares, a monstruosa bancada de corais fica exposta, formando um cenário único, quase lunar. Para alcançar as ondas, você precisa andar sobre ela, o que faz você ter, literalmente, contato direto com a afiadíssima e irregular superfície, tornando o processo de desprendimento das prováveis consequências catastróficas um exercício mental dificílimo.

Conforme você se aproxima das ondas, incrivelmente longas e perfeitas, sua mente só consegue pensar em uma coisa: “Como eu vou fazer para pegar uma delas?”. São “pistas” velozes sobre a água absolutamente transparente, que revela todo o fundo multicolorido dos corais, passando a mil por hora, proporcionando curvas de todas as maneiras e, com sorte, alguns tubos que fazem o seu coração bater muito mais forte.

CONTRASTE
Havíamos completado 16 dias isolados de qualquer rastro de civilização, imersos em uma das mais intensas experiências que o surfe pode proporcionar. Antes da volta para o Brasil, porém, uma última parada: Bali. Desta vez, para meu desespero, um choque negativo. Foram 25 anos que separaram minha última visita desta, quando, ainda recém-formado, passei 90 dias naquela ilha mágica e pura. Já havia escutado muito sobre a transformação local ao longo desses anos, mas nada como sentir ao vivo e em cores. Quase tudo está mudado. O trânsito, a sujeira, as construções desproporcionais e sem propósito tomam conta da atmosfera da ilha.

É preciso se afastar bastante das áreas mais populosas para ainda encontrar a verdade do povo local, no seu cotidiano singular e místico, suas construções incrivelmente lindas e apropriadas. Dessa maneira, Bali ainda vale a pena. As ondas continuam únicas, embora muito mais disputadas. A quantidade de locais que surfam, e muito, é enorme. E, não raro, o bicho pega no outside.

Muitas imagens desta viagem estão guardadas na minha alma. A qualidade e quantidade de ondas que surfamos foi algo incomum. O contraste entre o isolamento total e a drástica mudança para uma Bali altamente transformada também é algo que não para de martelar meus pensamentos. Uma coisa é certa: a época de caça às ondas do Oceano Índico já está aberta, trazendo a inevitável inquietude de quem sabe o que pode estar acontecendo do outro lado do planeta – o oxigênio necessário para mais um ciclo de trabalho.

Texto originalmente publicado na revista Carbono Uomo n° 1