Lifestyle

Os Desafios do Varejo

A comemoração de cinco anos do JK Iguatemi se tornou momento de reflexão para Carlos Jereissati Filho. Após implantar o conceito mais moderno de um shopping center brasileiro, quais são os novos passos do setor?

por Artur Tavares 15 Dez 2017 11:35

O empresário Carlos Jereissati Filho está fechando 2017 em festa. São 17 shopping centers sobre o comando do Grupo Iguatemi. O mais recente deles na cidade de São Paulo, o JK Iguatemi, comemora cinco anos, enquanto o mais tradicional, o Iguatemi, faz cinco décadas apresentando crescimento na casa dos dois dígitos. Aos 46 anos, Carlinhos, como é chamado, comanda sua empresa familiar desde 2002, um período em que a receita total do seu business aumentou em quase dez vezes. No início de outubro, após receber o ex-presidente norte-americano Barack Obama em uma palestra no Teatro Santander, dentro do JK, um dos maiores nomes do varejo brasileiro, o empresário se encontrou com Carbono Uomo para discutir o futuro do comércio em tempos de predomínio online e de uma mudança no luxo, em que os consumidores priorizam o local em detrimento do global.

Carbono Uomo
Nos Estados Unidos, shopping centers importantes estão fechando as portas, principalmente porque o comércio online ganha cada vez mais força. Como o Brasil se encontra nessa curva de tendência?

Carlos Jereissati Filho
Para entender o impacto do varejo online sobre o setor de shopping nos Estados Unidos, você tem que entender o modelo de desenvolvimento das cidades americanas, muito diferente das nossas. Os shoppings lá foram feitos para atender a vida nos subúrbios, criada após a Segunda Guerra, regiões de casas e baixo adensamento. No Brasil, os shoppings nasceram dentro das cidades, que são densas, verticais e de público misturado. Além disso, o brasileiro nunca teve o mesmo tamanho de varejo deles.

Carbono Uomo
Em metrópoles como Nova York, uma série de prédios já está transformando as garagens – esvaziadas pelo Uber e pela automatização – em centros comerciais. O quanto isso muda a cara do varejo local?

Carlos Jereissati Filho
Eu torço loucamente para que isso aconteça. Veja, estamos em cima de uma garagem. Aqui onde fica o escritório é um terço prédio e o resto, tudo garagem. Você imagina se isso tudo fosse ocupado por lojas e atividades, ou áreas de trabalho? O carro sempre foi um competidor nosso. É um enorme investimento que você faz, tanto para comprar como para manutenção. Imagine a quantidade de dinheiro que as pessoas vão guardar sem carros. Na média, você gasta R$ 35 mil por ano para manter um carro. Imagine R$ 35 mil que a pessoa possa gastar em outras coisas, além do dinheiro que usou para a compra do automóvel? A pessoa pode consumir arte, ir ao teatro, jantar fora. O consumo é um espaço de autoindulgência. Quanto vale para uma pessoa se sentir bonita?

Carbono Uomo
E como as grandes marcas vão conviver com esse novo pensamento de think local no futuro? As maisons, por exemplo, ainda vão ditar as regras?

Carlos Jereissati Filho
Eu acho que o empoderamento das pessoas é cada vez maior e que elas vão usar a moda para dizer quem são. É o contrário do que foi o passado. Não são mais as marcas dizendo como as pessoas devem se vestir e, sim, as pessoas usando produtos incríveis para mostrar quem são. Também acho que essas generalizações extremas nunca são verdadeiras. Não vai ser só o local ou o global. Tem horas que as pessoas vão comprar do lado de casa, e outras em que vão querer viajar um pouco mais longe para consumir. Cabe ao mercado oferecer isso para as pessoas.

Carbono Uomo
Há rumores cada vez mais fortes de que a Amazon vai expandir seus negócios no Brasil, aumentando o portfólio para eletrodomésticos, discos de vinil, uma operação de A a Z. Assusta o varejista daqui?

Carlos Jereissati Filho
Acho que assusta mais o varejista online. Competir com a Amazon é complicado, por causa da capacidade gigantesca que ela tem. Para mim, o grande ativo que temos é o físico. A beleza desse negócio é fazer as pessoas virem até aqui, encontrar-se, como um meeting point. Cabe, com inteligência, usar e criar atrativos, para que as pessoas façam o consumo aqui.

Carbono Uomo
Você está comemorando cinco anos do JK Iguatemi. No que ele é diferente, em conceito, dos outros 16 shopping centers do Grupo Iguatemi?

Carlos Jereissati Filho
Acho que o JK Iguatemi tem a vantagem de nascer depois. É uma evolução de muitos conceitos que fomos aprendendo e pudemos realizar, e também de algumas inovações. A planta trouxe uma generosidade enorme, por exemplo. São corredores amplos do térreo, com finais todos de vidro. Normalmente, os cantos são os melhores pontos comerciais, porque o cliente olha de frente e a loja está ali. No caso do JK, você vê o verde, o infinito. Não fica restrito. Temos espaços de eventos, lounges, teatros, cinemas, oferecemos várias atividades. O conteúdo tem muitas operações novas. Foi um momento em que o Brasil estava muito atrativo para o mundo. Trouxemos 40 operações que eram inéditas: a primeira GAP, a primeira Zara Home, a primeira Sephora, Chanel e Prada no mesmo piso. Elas foram muito importantes para dar um quê de novidade e um salto na qualidade.

Carbono Uomo
O quanto o conceito de um shopping center que oferece mais do que lojas, com áreas de convivência para crianças, teatros, bares e restaurantes, agrega ao espaço em si? São essas características que garantem uma taxa de permanência maior dos consumidores?

Carlos Jereissati Filho
Uma coisa que explica isso é o conceito sobre qual o JK foi desenvolvido, que chamamos de beautiful coexistence. Ele faz a síntese de toda a complexidade que se tornou o consumidor de hoje e do momento que as pessoas estão vivendo. É a história do when local meets global, o melhor do Brasil com o melhor do mundo. Também falamos de where commerce meets art, no qual um espaço de muita frequência e visitação encontra o universo da arte, que é algo mais contemplativo. Temos os art programs, as feiras como a SP-Arte/Foto, a nossa própria coleção espalhada pelo empreendimento. Há ainda conceitos como when fast meets slow e when high meets low. Você tem desde a Van Cleef, até uma lojinha de bijuterias simples, mas de bom gosto. Tem restaurantes incríveis ou um fast-food. Essa complexidade estava no desenho do projeto.

Carbono Uomo
Trazer 40 operações inéditas para o JK Iguatemi foi um grande acerto da inauguração. Passados cinco anos, quais os maiores ganhos e perdas do shopping?

Carlos Jereissati Filho
Você nunca acerta 100%. É impossível. Mas a rotatividade dentro de um shopping center é extremamente saudável, dentro de um percentual, é claro. Ela gera novidade. Vale lembrar que, no Brasil, o grande consumidor é o próprio brasileiro. É diferente do comércio de Nova York, Londres ou Paris, onde metade das pessoas que estão ali consumindo fazem essa visita a cada um ano. As novidades lá fora podem até ser mais lentas. No Brasil, a frequência das pessoas nos shoppings é quinzenal, semanal, às vezes até diária. Você precisa sempre estar inovando. Ter novas lojas é importante. Agora, estamos colocando restaurantes novos no JK, como o Kitchin e o Astor.

Carbono Uomo
O próprio varejo é dinâmico, correto?

Carlos Jereissati Filho
Sim, mas lembre-se de que somos muito mais do que só o varejo. Ele é parte importantíssima do nosso negócio, o coração, mas temos academias, cinemas, teatros, cabeleireiros, lojinhas que ainda fazem revelação de fotos. É tanta coisa além… Essa mistura do lazer, da gastronomia e dos serviços. Eu brinco que o melhor programa do Iguatemi são as duas moças que fazem as terapias com produtos da La Mer. É uma sala pequenininha com barulho do mar, que te tira desse ambiente urbano de São Paulo.

Carbono Uomo
Como você vê o futuro do Grupo Iguatemi para os próximos anos?

Carlos Jereissati Filho
Acho que o futuro é a maior utilização de tecnologia no cotidiano dos nossos negócios. A “uberização da loja, por exemplo. Você quer um par de óculos, pode entrar em uma ótica, jogar na sacolinha e ir embora. A grande mudança vai vir com essas tecnologias aplicadas no ponto de venda. Você não precisa mais que alguém feche sua conta no restaurante, ela vai aparecer no seu celular. Você paga, levanta e vai embora. Outra coisa é integrar nossos empreendimentos à cidade, como o Iguatemi São Paulo com o Clube Pinheiros, o JK Iguatemi com o Parque do Povo, ou o Market Place com as ciclovias.

 

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.