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O professor imigrante e Donald Trump

Brasileiro radicado em Nova York, Rafael Vieira deu aulas de tênis ao presidente e sua família

por Artur Tavares 13 Mar 2017 14:37

Figura de atitudes e discursos controversos mesmo antes de se tornar presidente dos Estados Unidos, o empresário norte-americano Donald Trump está na boca do mundo inteiro por suas ideias radicais envolvendo militarismo, geopolítica e questões migratórias. Patinho feio que saiu vitorioso das eleições disputadas contra Hillary Clinton no ano passado, Trump prometeu recuperar a economia de seu país intensificando o protecionismo e fechando portas para estrangeiros. Suas medidas são populares entre eleitores, mas ainda enfrentam rejeição da oposição e de outros líderes globais. Se Trump pinta uma onda quase xenofóbica quando se manifesta publicamente, longe das câmeras o presidente teve como um de seus homens de confiança o brasileiro Rafael Vieira, que deu aulas particulares de tênis para ele e sua família por quase uma década.

A relação de Rafael Vieira com Donald Trump como professor e aluno começou em 2001, quando o atual presidente era “somente” um empresário de sucesso, antes mesmo de tornar-se estrela de TV com o reality show O Aprendiz, e durou até cerca de 2009: “Naquela época, Trump costumava voar de Nova York para Palm Beach nas tardes de quinta-feira ou nas manhãs de sexta, a fim de passar os finais de semana lá. Eu trabalhava com a família durante os finais de semana, às vezes com Trump na própria sexta-feira. Ele sempre treinava em primeiro lugar, seguido da sua filha Ivanka. Sua esposa Melania vinha vez ou outra, e os garotos Eric e o Donald Jr. com menos frequência; eles gostavam mais de pescar e atirar.”

Durante todo o tempo em que o brasileiro trabalhou com Donald Trump nas quadras, nunca ouviu do empresário comentários sobre os imigrantes que vão tentar a vida nos Estados Unidos. Mas, durante a última vez que conversaram, após o pleito do último mês de novembro, o tema veio à tona: “Liguei para os familiares e falei com ele de maneira rápida depois das eleições. A primeira coisa que ele fez foi uma brincadeira: ‘fui eu que assinei seu Green Card, não é? Fica quieto aí, não fala para ninguém.’ E ele realmente assinou, não acreditei que ele se lembrasse disso.”

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Natural de Brasília, Vieira foi motivado a jogar tênis por seu pai desde criança. Ainda aos 11 anos decidiu que tentaria ser profissional. Aos 14, durante um campeonato no Brasil, foi selecionado por um olheiro norte-americano que rodava a América Latina em busca de jovens promessas no esporte. Foi para os Estados Unidos em seguida e nunca mais voltou. Hoje, quase duas décadas depois, vende imóveis de luxo na ilha de Manhattan, em Nova York, profissão que conquistou devido aos bons relacionamentos que desenvolveu quando trabalhava para Trump em seus clubes. “Depois que me formei no high school, comecei a estudar e jogar tênis na Palm Beach Atlantic University, e foi ali que conheci a família Trump. Nos EUA, é bem comum que alunos disputem torneios em clubes de prestígio, porque os empresários doam dinheiro para os programas esportivos das faculdades. Esse campeonato em questão tinha um formato chamado ProAm. O pro era o jogador da faculdade e o am era o amador, membro do clube. O torneio foi no Mar-a-Lago, clube que Trump tem em Palm Beach. Joguei fazendo dupla com um dos amigos dele, um senhor chamado John Scarpa, que naquele tempo era um bilionário dono de telecomunicações. Ele jogava muito melhor que os outros amadores, e acabamos vencendo o torneio. Com o troféu em mãos, Scarpa falou para mim: ‘gostei muito de você e quero te apresentar para a família do Trump, quem sabe você não dá umas aulas para eles.’ No próximo dia, um domingo, sentei com todo mundo em uma mesa de brunch e os conheci. Trump propôs que eu começasse a dar umas aulinhas e, se corresse tudo bem, ele me contrataria”, conta o corretor.

Em 2009, um ano depois que a bolha imobiliária norte-americana estourou, Trump decidiu diversificar seus investimentos e comprar clubes de golfe desvalorizados ao redor da tri-state area de Nova York, New Jersey e Connecticut. Vieira estava se formando na faculdade de Ciências da Computação e queria deixar o tênis, mas foi praticamente comprado pelo empresário: “Ele me esculhambou, disse que eu era louco de sair dos negócios dele para trabalhar para outros. Falou das oportunidades que eu tinha em conhecer as pessoas mais influentes de Nova York e dos EUA, e então me contou de seus planos.” Trump havia notado que a grande maioria dos clubes de golfe não tinha quadras de tênis, piscina, não tinham outras atividades para os sócios. “Fui convidado para implantar o componente do tênis. A proposta me impressionou, era melhor do que dar aulas aos finais de semana. Eu precisava de um trabalho e de visto para permanecer aqui. A partir deste ano eu saí da Flórida e vim para o Norte. Chegava em um clube que não tinha nada, contratava uma firma para construir as quadras e as lojinhas, e eu iniciava o programa do clube.”

Naquela época, a carteirinha de sócio para um dos clubes de Trump custava entre US$ 70 mil e US$ 200 mil. Começando a se interessar pelo mercado imobiliário e vivendo nesse círculo de poderosos – geralmente investidores de Wall Street –, Vieira passou a ser incentivado a mudar de ramo. Pesou a carga de trabalho nas organizações do patrão: “Eu não tinha dia de folga. Trabalhava de segunda a segunda, das 8h às 20h. No inverno era uma localização, no verão era outra. Como passei a conhecer todas essas pessoas influentes, fui estabelecendo vários relacionamentos com gente de alto poder aquisitivo. Foi um começo de carreira bem privilegiado, já que pessoas que compravam apartamentos de US$ 5 a US$ 10 milhões começaram a me ajudar, a fazer negócios comigo.”

Hoje o brasileiro tem licença para vender imóveis em Nova York e está tirando a mesma credencial para atuar na Flórida. Nunca mais trabalhou com Trump, a não ser em eventos beneficentes organizados pelo presidente. “No meu ramo, é importante manter o contato não somente com ele, mas com todas as pessoas que o cercam. Por isso também minha transição de carreiras teve que ser tranquila. O Trump tem esse ego famoso, é um cara que não gosta que as pessoas parem de trabalhar para ele, e sim de demiti-las. Foi delicado para mim. Agradeci todas as oportunidades, deixei em aberto minha disponibilidade para concretizar certas coisas que a organização faz e saí.”

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Em pouco mais de cem dias como presidente norte-americano, Donald Trump tem feito diferente de outros presidentes, mantendo promessas polêmicas de campanha enquanto assina mais Ordens Executivas – as Medidas Provisórias dos norte-americanos – do que qualquer outro de seus antecessores. Vieira analisa que seu antigo patrão tem respaldo da população: “Ele foi uma personalidade que criou uma mensagem, ‘Make America Great Again’, e soube passar para o americano, especialmente aquele do interior, do Texas, Wyomming, e é aquilo que vai fazer. Se analisar o decorrer da eleição, você vai ver que ele segurou a mesma mensagem e ganhou por causa da sua marca. Surpreendeu todo mundo, nem quem trabalhava com ele tinha certeza de que ele fosse vencer.”

No entanto, o brasileiro sabe também que a eleição não foi ganha somente devido ao período da corrida eleitoral: “Em termos de negócios, o Trump é fascinante, tem um poder excepcional de gerenciar diversos negócios ao mesmo tempo. Quando engatou no programa O Aprendiz, muitas portas se abriram. Ele sempre teve essa personalidade de riqueza, exagero, poder, e desde aquela época começou a capitalizar na construção da marca que o nome dele se tornou. Quando a audiência foi para o céu, ele capitalizou isso. Os clubes ficaram mais populares, ele começou a utilizar a marca dele para vender vodca, camisa, gravata, aumentou o alcance das suas agências de modelos. Funcionou, o caixa dele cresceu drasticamente. Isso é branding. Você tem que ser a sua marca, defendê-la e acreditar nela.”

Sobre o Trump que foi eleito e o quanto ele se parece com o empresário que tinha aulas de tênis naquele clube em Palm Beach, Miami, Vieira diz: “Ele sempre foi, sem nenhuma dúvida, um amante do exército e da pátria americana. Sempre foi muito patriota. Acredito que os militares e a política americana se identificaram com as ideias dele durante a eleição. Ele também sempre foi grande crítico da política econômica dos últimos anos durante o governo democrata, mas nunca tivemos conversas detalhadas sobre o assunto. Só era possível saber qual era a posição dele em relação ao fato da China estar tomando conta da indústria, do trabalhador americano estar perdendo espaço etc. Agora, a população em geral está preocupada que a administração tome um rumo completamente diferente da anterior. Estou pagando para ver o comportamento dele, porque o Trump sempre foi uma pessoa muito fiel às coisas fala, à maneira que ele pensa, às promessas que ele faz. De uma maneira pacífica, porém constante, tem havido muitos protestos em Nova York. A população não quer que os direitos das mulheres sejam reduzidos, pedem para que a questão imigratória seja repensada. É preocupante. A mudança veio de maneira muito rápida e intensa. Os Estados Unidos não estão acostumados a isso. Fico chocado pela coragem que ele tem.”

Aproveitando os primeiros passos da recuperação econômica brasileira, Rafael Vieira tem vindo mais ao Brasil em 2017. Ele quer aproveitar o Real ainda desvalorizado para trazer capital estrangeiro para o mercado brasileiro. “A hora é agora, para quando o país der uma reviravolta eu me tornar um ponto de referência entre os norte-americanos.” E revela uma novidade: está trabalhando com o fotógrafo Jacques Dequeker em projetos imobiliários na Flórida: “é uma ideia inovadora de incorporar o fashion e algumas personalidades com nossas propagandas de imóveis de luxo por aqui.”

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.