Lifestyle

O Novo Galã

O ator Marco Pigossi usa o horário nobre de A Força do Querer para discutir o papel do homem em uma sociedade cada vez mais plural

por Artur Tavares 14 Ago 2017 09:52

Se depender do ator Marco Pigossi, protagonista da atual novela A Força do Querer, seu personagem Zeca será o último machista retratado como herói na televisão. Caminhoneiro dividido entre o amor de duas mulheres fortes, interpretadas por Isis Valverde e Paolla Oliveira, ele luta para se encaixar em uma grande metrópole enquanto se desconstrói como o homem que aprendeu a ser em uma cidade pequena do interior do país. Passar uma tarde com Pigossi é perceber um ator de alma livre, que quer usar o espaço conquistado para debater costumes brutos tão enraizados nos quatro cantos do Brasil: “Acho fundamental fazer um machista agora. Estamos vivendo uma primavera feminista que é boa demais. É importante trazer esse questionamento a um país extremamente sexista. Isso tem de ser discutido, mostrado e mudado. O Zeca vem para acrescentar nesse debate”, conta o paulistano, atualmente em seu décimo folhetim na TV Globo.

Aos 28 anos, Pigossi é uma das promessas de renovação entre o quadro de atores da emissora carioca. Ele surge em um momento em que celebridades pré-fabricadas por reality shows estão em baixa. Despontou muito jovem, aos 15 anos, em Um Só Coração, e foi ganhando espaço em papéis cada vez mais nobres; talvez o primeiro deles tenha sido Juvenal Leal, no remake de Gabriela, em 2012. Em Boogie Oogie, conheceu Isis Valverde. A química foi tão grande que não pararam de atuar juntos desde então: “Gosto de repetir parcerias. Se são dois atores legais, só tem a acrescentar. Já tenho uma intimidade cênica com a Isis. A gente sabe até onde cada um vai, como podemos improvisar e criar. Ela é muito intuitiva, repete coisas pouquíssimas vezes”. Ele não conhecia Paolla Oliveira, com quem hoje também adora contracenar: “A Paolla é muito interessante e inteligente. Nós somos atores controladores, sou muito parecido com ela nesse sentido”.

Embora não se considere machista, Pigossi diz colocar muito de si mesmo em Zeca. “Eu construo cada um dos meus personagens com minhas experiências de vida e situações. Sempre parto da minha compreensão de mundo. Eu tenho que trazer minha crítica, meus questionamentos, fazer tudo isso vir à tona.” Ele conta que teve total liberdade em criar uma persona bem-humorada para o protagonista: “Quando levantamos alguma questão, estamos expandindo a cabeça das pessoas, e com humor fica mais fácil. O humor não causa rejeição. Se o Zeca se levasse a sério, seria muito difícil de engolir. Com a identificação vem o questionamento. Isso traz a verdade. Quando as pessoas veem uma cena e se emocionam, é porque ali o ator passou alguma verdade”. Para Pigossi, é essa verdade que faltava na geração anterior de artistas que estouraram nas telinhas: “Não acredito em quem busca referências fora. Por isso o ator tem que estudar, ler, ver filmes. A literatura expande muito as pessoas”. É leitor assíduo e diz não confiar em seus colegas de profissão que não gostam de livros. Suas obras preferidas são Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski; e Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes.

Sobre o legado que quer deixar com Zeca, Pigossi acredita que o maior deles será uma mudança no padrão dos bonitões da televisão: “Acabou a imposição do galã machão, e do formato galã em geral. Hoje em dia há os galãs mais frágeis, homens menos intocáveis. Isso desperta uma curiosidade nas mulheres. O mundo está diverso, existem variedades de estilos e gostos”.

Quando A Força do Querer acabar, no segundo semestre deste ano, veremos o paulistano nos filmes O Nome da Morte e A Última Chance. Serão duas histórias reais: a primeira sobre o pistoleiro Júlio Santana, que matou 492 pessoas e não foi condenado pela Justiça, e a segunda sobre o ex-detento Fabio Leão, um lutador preso por tráfico de drogas que transformou a penitenciária onde ficou recluso em escola de luta para recuperar meninos envolvidos no crime. Depois, Pigossi quer seguir o exemplo de um de seus atores favoritos, o norte-americano Daniel Day-Lewis, e desaparecer da mídia por um tempo: “As pessoas não o veem, não sabem onde ele está. Ele tem uma magia. Quanto menos o público vê o ator, mais acredita no personagem que ele está vivendo”. Nesse período, se dedicará a uma reinvenção: “Quero morar fora um tempo. Fiz dez novelas, dez peças de teatro e realizei dois filmes. Preciso me alimentar um pouco, buscar de fora. Tenho a sensação de que meu estoque está chegando ao fim e de que preciso me renovar”.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.