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O homem que democratizou a malhação

Herdeiro de usina de açúcar, aos 40 anos Edgar Corona resolveu seguir rumo próprio. Comprou toda a participação em uma academia deficitária e montou uma rede que, ano passado, faturou 1 bilhão de reais

16 Ago 2017 11:19

Por Françoise Terzian

O empresário paulistano Edgard Corona, 60 anos, conseguiu uma façanha nas últimas semanas. Com um treino intenso, mas inteligente, com duração média de 45 minutos e repetição a cada 36 horas, ele aumentou sua taxa de metabolismo basal (quantidade mínima de calorias necessárias para manter as funções vitais do organismo em repouso) de 2100 calorias diárias para 2750. Ou seja, mesmo no dia em que não malha, seu corpo continua a todo vapor, gastando 650 calorias a mais. “Os tempos mudaram. Os avanços nos estudos mostram que não adianta ficar uma hora na esteira. Você sai cansado, com fome e engorda”, diz Corona, que parece estar brincando, mas fala bem sério.

Ou seja, para surtir efeito, Corona ensina que é necessário malhar de uma maneira que o corpo responda aos estímulos de forma precisa. Dependendo do objetivo e do tipo de treino, executá-lo três vezes por semana corretamente pode resultar em um gasto calórico superior se comparado a um treino diário mal programado.

A forma como Corona cuida do corpo é um reflexo do modo como ele tem cuidado da saúde de seus mais de 1 milhão de alunos e, principalmente, da saúde da empresa que fundou e preside, o Grupo Bio Ritmo, detentor das bandeiras Bio Ritmo e Smart Fit. Hoje, ele é o homem por trás do maior negócio fitness do Brasil em valor e volume, devendo fechar o ano com 1,3 milhão de alunos – o número era de 1 milhão em 2016 e 500 mil em 2014.

De acordo com os dados da IHRSA (International Health, Racquet & Sportsclub Association), a principal entidade do setor fitness, o Grupo Bio Ritmo é o quarto maior do mundo em receita (ano base 2015) e consta do ranking das dez academias que mais cresceram em faturamento entre 2010 e 2015. Boa parte desse salto se deve à gestão de Corona, que atraiu, desde 2010, investidores como o Pátria e o fundo soberano GIC, de Cingapura. Eles aportaram milhões no negócio. Hoje, Corona detém metade das ações ordinárias (com direito a voto) e continua à frente da gestão como presidente, daqueles que olha muito além das finanças.

Apaixonado por esportes, Corona gosta de se aprofundar na química do exercício. Isso explica o fato de seu grupo embasar as atividades físicas em tantas pesquisas e estudos de universidades ao redor do mundo e também de ter contratado o professor Luiz Carlos Carnevali Júnior, com grande conhecimento em fisiologia do exercício, atividade física e saúde. Foi assim que Corona implementou mudanças visíveis em suas academias. Atividades que, muito além da aparência, trazem resultados efetivos. “É preciso ter consistência na entrega.”

As aulas coletivas e os treinos individuais apostam em novas experiências (inclusive as sensoriais), com mais dinamismo e até mesmo cenário com diferentes cores e temperaturas. “Na hora de desenhar os treinos, o que buscamos oferecer é um nível alto de intensidade com baixa complexidade e muita segurança”, conta. E complementa: são tantos treinos diferentes e com bons resultados que, ao longo do ano, o aluno dificilmente sofre a chamada “fadiga mental” da malhação.

Inquieto, inconformado e visionário, seu estilo nada acomodado o levou a criar o Grupo Bio Ritmo. Com 21 anos recém-completados, o negócio comandado por Corona investe muito na inovação para se diferenciar da concorrência e continuar crescendo. Cerca de 12 anos após transformar a Bio Ritmo em uma rede, ele ouviu a moça que servia café e que sugeriu para ele levar a bandeira para periferia. A ideia, aparentemente impossível, ficou martelando em sua cabeça até que, dois anos depois, nasceu a Smart Fit. A inauguração ocorreu em 2009 e deu início a um movimento de abertura de dezenas e depois centenas de unidades com mensalidade acessível – de 59 a 89 reais, dependendo do lugar e do plano. Isso estimulou a concorrência a tentar copiar o modelo, embora hoje não exista nada que se compare à Smart Fit em termos de tamanho e preço. “Quando lancei a primeira, percebi que estava fazendo a diferença na vida de muita gente e resolvi continuar”, conta. Ao mesmo tempo em que Corona começou a abrir unidades da Smart Fit pelo Brasil, ele também resolveu internacionalizar a marca e levou a rede para países vizinhos. Esse processo teve início em 2012 e hoje ela está presente na República Dominicana, no Chile, no Peru, na Colômbia e no México. Agora, prepara-se para abrir unidades na Argentina e no Uruguai.

Atualmente, as academias internacionais representam 25% do faturamento. Em três ou quatro anos, a Smart Fit no exterior deverá responder por 40% da receita de todo o negócio. Surpreendentemente, a Smart Fit tem volume e receita muito maior que a Bio Ritmo, com 30 unidades em operação. Como não é de seu perfil se acomodar, Corona continua trabalhando de 12 a 13 horas por dia – e dorme pouco. Mas ele não encara como “trabalho”. O empresário gosta do que faz e também de ficar antenado com as tendências. Não por acaso, viaja frequentemente para o exterior para ver tudo o que está acontecendo no setor. “Meu time também viaja muito. Não para aplicar mudanças na hora, mas para aumentar o grau de conhecimento, para aquilo ficar no subconsciente.”

E foi assim, estudando, pesquisando e buscando inovar que, recentemente, Corona surpreendeu o mercado ao inaugurar a primeira academia 24 horas da Avenida Paulista, em São Paulo. Um espaço enorme para malhação non-stop da Smart Fit por valores muito acessíveis e com direito a esteira, bike, transport, equipamentos de musculação e também aulas como a de boxe. Uma segunda unidade 24 horas foi aberta no bairro da Vila Olímpia, também na capital paulista, e outras poderão surgir. Após um investimento de 5 milhões de reais, a Smart Fit também lançou linhas próprias com as marcas Smart Fit Nutri (suplementos alimentares – whey protein, BCAA, glutamina e creatina), Smart Fit Fashion (moda fitness) e Smart Bar (isotônicos). Todas oferecidas por valores acessíveis dentro das unidades.

E pensar que o início dessa história aconteceu por conta de um acidente. Herdeiro de uma usina de açúcar em Ribeirão Preto, Corona comandava o negócio quando sofreu um acidente. “Caipira esquiando deu nisso”, brinca. Na verdade, dado seu bom preparo físico, ele estava esquiando bem e descendo montanhas fortes, o que aumentou o impacto na hora do acidente Na época, ele tinha 40 anos e, por conta do machucado, foi obrigado a se afastar temporariamente para fazer inúmeras sessões de fisioterapia. Apaixonado por esportes, resolveu dar uma olhada em uma academia no bairro de Santo Amaro, na capital paulista, na qual ele havia feito um pequeno investimento como sócio minoritário.

Foi assim que ele descobriu ter participação em um negócio “muito ruim”. Resolveu comprar sua totalidade, deixando a usina de açúcar para trás. “Quando cheguei, em 1979, ela era a décima do país. Quando saí, em 1995, era a terceira”, recorda. Foi assim que uma academia muito ruim se transformou no maior negócio do setor no país. Seu segredo de sucesso? A capacidade de se imaginar no lugar do cliente e, a partir daí, aprimorar os negócios. “Toda vez que recebo um e-mail de cliente reclamando, em 90% dos casos dou razão para ele, agradeço e resolvo imediatamente. Fico bravo comigo mesmo por estar errando”, conta o empresário.

Hoje, o tíquete médio da Bio Ritmo gira em torno de 250 reais e da Smart Fit entre 59 e 89 reais. Pelos preços, a primeira acaba focando mais nas classes A e B. A taxa de crescimento é de cerca de 10% ao ano e três unidades vão abrir em 2018 – o crescimento da Smart Fit é o dobro, de 20% ao ano. Para fechar a entrevista, questionamos se Corona pretende entrar em novos negócios. Inquieto e surpreendente do jeito que é, responde com um “espero que sim”.