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O empresário dos bits e bytes

Conheça a trajetória e os próximos passos de Ernesto Haberkorn, empresário fundador da Totvs e da TI Educacional. Ele quer levar seu conhecimento para faculdades e CEOs

24 Jan 2018 14:24

Por Françoise Terzian

Em 24 de agosto de 1954, o então menino Ernesto Haberkorn viveu sua primeira crise. “Eu estava indo para o colégio, quando vi uns colegas voltando e perguntei se não ia ter aula. Eles responderam que Getúlio Vargas havia se matado. Essa foi minha primeira crise. Eu gostava de ir à escola”, recorda o empresário ao ser questionado pela Carbono Uomo sobre a performance de suas 11 empresas em tempos de crise. “Já passei por tantas… A morte de Getúlio, Jango (João Goulart), o regime militar, as Diretas Já, Collor, Lula e Dilma. A pior crise, sem dúvida, foi a da Dilma, que aconteceu por um motivo muito simples. Ela mais do que extravasou as despesas em relação às receitas. Concedeu benefícios sem ter. A direita deveria montar um programa educacional para mostrar as razões para a esquerda não dar certo. Empresa precisa ter dono, não dá para oferecer benefícios de graça. São muitos os descalabros”, afirma Haberkorn.

Mas, afinal, quem é esse homem de fala mansa, apaixonado por programação e decidido a jamais se aposentar? “Se eu morrer à tarde, quero trabalhar de manhã”, diz. Ernesto Haberkorn, 73 anos, filho de pais judeus nascidos na Alemanha e convertidos ao catolicismo, é um nome muito conhecido e respeitado no universo da TI (Tecnologia da Informação). Formado em administração pela Fundação Getulio Vargas, criou em 1974, a SIGA (Sistema Integrado de Gerência Automática), um bureau de serviços. Foi nesse momento que esse homem de exatas, sempre interessado por matemática e física, começou a programar. Sua ideia era ajudar as empresas a gerenciar seus processos.

Em 1983, um fato conhecido no mercado de TI mudaria a vida da empresa e de Haberkorn para sempre. Um funcionário chamado Laércio Cosentino, que havia entrado cinco anos antes na Siga como estagiário, o chamou sério para uma conversa. A expectativa era ouvir um pedido de aumento ou de demissão. Na verdade, o assunto era outro. Durante o papo, Cosentino perguntou ao chefe se ele gostaria de ficar rico e propôs sociedade. A ideia do calado, porém atento, Cosentino era aproveitar a onda de downsizing que ocorria naquele momento com a proliferação dos microcomputadores, bem mais potentes e capazes de substituir os mainframes. Haberkorn ofereceu 10%, mas ele não aceitou. Depois, 20%, e ele continuou sem aceitar. Até a hora em que o jovem funcionário tirou um business plan debaixo da mesa, com o novo nome, Microsiga, e a proposta de que cada um ficasse com 50% da nova empresa. Haberkorn sucumbiu ao pedido por ter uma certeza. “O Laércio é um gênio. Com visão, calma e que fala pouco.”

E assim se fez a Microsiga, com Laércio administrando o negócio e Haberkorn fazendo do que mais gosta: programar. “Programar, para mim, é ser chefe de uma máquina que, diferentemente das pessoas, te obedece. Quando você vê na tela o resultado do que programou, é um orgasmo”, conta o homem que até hoje programa de dia, de noite, de madrugada e até o fez na lua de mel. Eis que anos depois, a Microsiga viria a se tornar a Totvs, e Cosentino seu CEO. Hoje, ele é o homem por trás da maior empresa de software do Brasil. E Harberkorn, como acionista, poderia se aposentar e aproveitar o dinheiro que ganhou para curtir uma vida de dolce far niente depois que foi feito o IPO (oferta inicial de ações), em 2006. Naquele ano, ele foi para o conselho de administração da companhia. Na prática, isso significa que ele poderia, literalmente, dar as caras na empresa uma vez por mês.

Mas, para Haberkorn, não há doçura alguma em não fazer nada. Foi assim que ele deixou o conselho da Totvs para fundar a TI Educacional, em 2007, ano em que concluía seu mestrado em engenharia de computação no IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas). A nova empresa nasceu para oferecer cursos de programação e sistemas de gestão, com direito a muitos exercícios, jogos e vídeos. Mas a verdade é que a programação jamais abandonou Haberkorn. “Já tínhamos um ‘ERPzinho’, um software para o aluno treinar, fornecido gratuitamente. Por que não fazer algo novo? A ideia era atender as faculdades com um sistema que rodasse na web, cloud computing, dispensando toda a estrutura de TI”, relembra. Desse desejo nasceu o ERPFlex, um software de gestão empresarial 100% na nuvem. Hoje, ele é usado no Brasil por mil empresas de todos os portes e setores como indústria, comércio e serviços.

Tanto na Totvs como na TI Educacional, é inevitável perguntar a Haberkorn qual foi seu método para construir empresas de sucesso. Hoje, como ele mesmo conta, o Brasil é o único país do mundo onde a alemã SAP, uma referência mundial em ERPs (software de gestão empresarial), não é o primeiro. Esse lugar é da Totvs. “O pulo do gato é trabalhar para burro. Tanto na Totvs como na TI Educacional, os dois carros que chegam primeiro, às 7h, são o do Laércio e o meu. E na hora de sair idem. Não tem segredo. É trabalho, trabalho e trabalho.” Quando não trabalha, Haberkorn malha. É sagrado. De segunda a sexta, das 12h às 14h, quem o procurar ouvirá que o empresário está na academia nadando, caminhando ou fazendo musculação. Uma forma de cuidar bem do corpo e da mente e, como ele ensina, impor metas a si próprio. “A vida sem metas é monótona. O prazer está em atingir uma meta. Não seja espectador e, sim, protagonista”, alerta.

E qual a nova meta de Haberkorn, que, como apaixonado por programação, conseguiu transformar seu ERPFlex no maior faturamento da TI Educacional? Ele acaba de inaugurar a ERP Business School, uma escola de negócios que estreou em outubro e, diferentemente da TI Educacional e seus cursos de informática, programação e ERP, traz cursos menos técnicos para atingir os tomadores de decisão – de executivos a donos de companhias. Os cursos podem ser conduzidos na empresa do cliente ou no Hotel SPaventura Ecolodge, em Ibiúna (SP), que pertence a Haberkorn. O objetivo é transmitir as melhores práticas de administração utilizando os indicadores dos oito pilares do ERP (controle, cliente, tributos, processos internos, suprimentos, financeiro e contabilidade, produto e pessoal), adotados na prática. Ou seja, sua nova meta é levar mais conhecimento e inspiração aos gestores e líderes empresariais e fazer sua ERP Business School decolar como fez com suas últimas empresas.

Uma lição que ele ensina em suas palestras e que tem muita ligação com o conceito de felicidade é que o trabalho precisa dar prazer. Quando alguém diz a Haberkorn que não está feliz em seu emprego, ele faz a pessoa prometer que pedirá demissão no dia seguinte. Foi assim que ele se demitiu do cargo de conselheiro da Totvs para ficar apenas como acionista. No lugar, fundou a TI Educacional, mais recentemente, a ERP Business School, dentre um total de 11 empresas que faturam de R$ 500 mil a R$ 1 milhão por ano, com exceção da gigante que fundou ao lado de Laércio Cosentino. De olho na sede da nova geração em inovar, ele entrou também como investidor em uma startup de educação chamada Edulabzz, que conheceu em um evento na Fiesp. “Sempre gostei de fazer jogos de empresas usando ERP. Agora, estamos desenvolvendo games educacionais para jogar no smartphone. É um jogo que faz uso de nove decisões, a exemplo de como utilizar o budget do marketing, definir preço, escolher matéria-prima e por aí vai”, conta o empresário, que vê como público-alvo as faculdades.

E a Edulabzz não será a última empresa para a qual Haberkorn olhará. A favor da reforma da Previdência, ele revela, por mais de uma vez, que jamais parará. “Se você não gosta do trabalho que faz hoje, é só arranjar outro trabalho. Não vou me aposentar, pois quero ter metas.” Como costuma dizer, em tom de brincadeira, mas com fundo de verdade, o maior problema da humanidade é o que fazer quando não tem o que fazer.