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O Astro Intranquilo

Longe das novelas há dois anos, Cauã Reymond alça voos mais altos ao produzir filmes e buscar desafios que cobram mais de si do que o cotidiano dos folhetins

por Artur Tavares 2 Out 2017 16:13

Cauã Reymond está longe das novelas e está feliz com isso. Se à primeira vista a frase pode soar estranha, essa é a impressão que se tem quando se conversa com o galã de 37 anos, que hoje dedica-se a produzir filmes e buscar papéis desafiadores, como os gêmeos Omar e Yaqub na minissérie Dois Irmãos, baseada na obra do escritor Milton Hatoum. Ainda de cabelos tingidos de um tom acobreado para as gravações do longa-metragem A Dupla, e se preparando para filmar Barba Ensopada de Sangue, adaptação do romance de Daniel Galera, Cauã falou à Carbono Uomo sobre a nova fase de sua vida. “Estou me sentindo bem longe das telenovelas. Fiquei feliz por a Globo me permitir tirar um tempo para descansar a imagem na televisão. Trabalhei intensamente nos últimos sete ou oito anos. Com muito prazer, acumulei muitos trabalhos positivos e muito sucesso. Me sinto sortudo, mas achava que o público precisava de um descanso de mim para sentir saudades.”

A nova fase do ator – que se inicia com a abertura da Sereno Filmes, uma produtora com seu empresário Mario Canivello – tem a ver com uma inquietude sentida durante boa parte de seu tempo na telinha: “Por um grande período da minha carreira, eu tinha essa insatisfação de não conseguir ficar parado. Sempre quis melhorar profissionalmente, mas hoje sinto uma vontade maior de construir coisas e situações novas, e enriquecer meu trabalho. Antes, a insatisfação vinha de maneira instintiva, mas agora ela é muito mais racional”. Quando percebeu que precisava deixar o lugar-comum ao qual estava acostumado, Cauã iniciou o trabalho em A Dupla, sua primeira comédia em nove anos, em parceria com a talentosa Tatá Werneck, que estreia nos cinemas em dezembro. “Acho que hoje a palavra que me define não é bem insatisfeito. É um sentimento que ainda existe e vai me acompanhar, mas o que se sobressai é o desejo de trabalhar com pessoas diferentes, poder me arriscar como me arrisquei fazendo uma comédia, e de construir coisas das quais quero me orgulhar.”

Carioca da gema, daqueles com paixão por sua cidade natal, Cauã era modelo antes de se tornar ator, no começo dos anos 2000. Trabalhou dentro e fora do Brasil com marcas como Gaultier e Zoomp. Na televisão, começou em Malhação em 2002. A aceitação do público foi instantânea, e desde então protagonizou oito novelas e quatro séries. Tudo parecia bem para o ator, mas não era bem assim: “Chegou um momento da minha carreira em que senti uma certa aversão à fama e uma necessidade de ter privacidade de novo. Depois de tudo que passei, acho que hoje tenho muita gratidão pelas pessoas por gostarem do meu trabalho, por elas me assistirem, quererem ver meu próximo filme. É claro que a perda de privacidade é incômoda, mas não adianta ficar choramingando. Faz parte da minha escolha, por mais que, quando eu a fiz, não sabia o tamanho dela”. Ser tietado é uma consequência, é claro, e ele explica como nunca perdeu a cabeça com os fãs: “Sou uma pessoa de temperamento muito forte, mas acho que sou muito educado. Quando falam da minha simpatia com o público, tem muito a ver com meu avô. Economista, era um homem muito simpático, chamado pelos amigos de Prefeito do Leblon. Eu não tenho nenhum artista na família, mas ele não deixava de ser um artista naquele quarteirão”.

Depois do desafio de fazer Dois Irmãos e de voltar para o mundo das comédias, Cauã ainda tem um outro projeto ambicioso pela frente. Ele está produzindo um filme sobre a figura de dom Pedro I. Não se trata de uma história de época, e sim de um longa focado no personagem, mais ou menos como Lincoln, de Steven Spielberg. “Hoje, o que busco são bons personagens masculinos. A dramaturgia está sendo dominada, assim como a vida, pelas mulheres – com muito prazer, é claro. Acho que estou na melhor fase como ator. Para o homem, ter entre 35 e 60 anos é conseguir os melhores personagens. Por isso estou em busca de histórias interessantes para contar. Isso me seduz.”

Foi essa necessidade que o levou ainda para outro desafio: o videoclipe Your Armies, da cantora Barbara Ohana, lançado em 2016. Nele, Cauã encarna o papel de um travesti: “Foi maneiro fazer um  travesti, não é?”, ele me pergunta, com sorriso no rosto e brilho no olhar. “Não sou um cara que dá statements políticos, mas foi a minha forma de falar sobre o respeito, sobre os limites, sobre entender o que é diferente de você, abraçar o outro. É preciso entender que se o assunto o incomoda, você tem que ficar na sua, não agir de forma agressiva. Fiquei muito orgulhoso desse projeto.”

Para lidar com caldeirão de emoções que habita dentro de si, o ator não deixa de lado momentos de lazer e cuidados com seu próprio bem-estar. Ele vai à praia e à academia com bastante frequência. Também adora surfar: “Pegar onda é o hobby que me liberta, que me coloca em um lugar onde tanto faz – o que tiver que ser, vai ser. Já peguei ondas muito grandes, como em Jaws e Outer Reef, no Havaí. Além de surfar, eu nado. Estar na água é aquele tipo de momento que traz paz interior, reflexões. É quando você organiza o computador interno. Eu vou fechando abas. Penso naquilo que está me incomodando e tento encontrar uma solução, fechar essa aba do meu computador”. Seu outro amor é a filha Sofia, fruto da relação com a atriz Grazi Massafera, hoje com 5 anos. “Encontro muita paz quando estou com ela. Eu construí lá no Rio um ambiente muito maneiro para minha filha. Quando tenho tempo livre, eu fico no meu apartamento, que tem vista para o mar, vendo minha filha brincar com as amiguinhas. Depois dela, deixei de me colocar em situações de risco. Há um tempo, queria comprar uma moto, e não comprei. Eu fiz muito esporte radical, já escalei, fiz rapel, rafting, pulei do maior bungee jump do mundo, mas hoje em dia minha onda é fazer boxe e pegar onda grande. Acho que ter um filho traz isso para a pessoa.”

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.