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Na Casinha

Duas editoras, uma plataforma de conteúdo e um escritório de design dividem o mesmo espaço de trabalho. Em comum, somente a amizade desses empreendedores e a vontade de nunca mais pisar em um escritório normal

por Artur Tavares 11 Jan 2018 10:58
Os sócios da Casinha, da esquerda para a direita: Ricardo Feldman, Maria Rita Alonso, Ricardo Moreno e Deca Paim

A fachada bem arborizada, de portão baixo, sem grades e aberto, que recebe os visitantes do número 91 da Rua Luís Anhaia, no coração da Vila Madalena, engana aqueles que se preparam para entrar em uma reunião de negócios formal. O que parece uma residência normal de um bairro é a sede de quatro empresas diferentes envolvidas com arte e produção de conteúdo: The Summer Hunter, Editora Livre, o escritório de design PAN e a base da jornalista Maria Rita Alonso, diretora de redação da revista L’Officiel e colunista do jornal O Estado de S. Paulo.

A Casinha, como é oficialmente chamada por suas cinco cabeças, não se trata de um coworking aos moldes tradicionais e, sim, um espaço comunitário administrado por todos. Fundada em fevereiro de 2016, era o ateliê da artista plástica Calu Fontes, amiga de Maria Rita Alonso. Disposta a ficar com a casa após a saída da designer, a jornalista convidou Ricardo Moreno, do The Summer Hunter, e Deca Paim e Sônia Penteado, da PAN, para compartilhar o local. O editor e diretor criativo Ricardo Feldman chegou com a Livre em julho. “Tive escritórios durante esses 15 anos da empresa e, quando veio a crise, comecei a revisitar todos os modelos que tinha como referência. A mobilidade foi outro aspecto importante. Quando comecei a fazer projetos grandes, notei que não precisava ter todo mundo comigo no dia a dia, e aí fui mudando minha cabeça. Percebi que a união faz sentido quando é com pessoas que você admira. É daí que nascem coisas novas”, diz Feldman.

Maria Rita e Deca Paim se conhecem desde a faculdade, há mais de 20 anos. A primeira fez carreira em redações das editoras Abril e Globo, enquanto a segunda largou a publicidade para se tornar diretora de arte do jornal O Estado de S. Paulo, no qual comandava 22 pessoas: “Eu vivia injuriada, você nem imagina como meu humor mudou”, conta a designer. Ricardo Moreno conheceu Maria Rita quando também fazia sua carreira nas redações, antes de abrir o The Summer Hunter. Hoje, produz conteúdo para marcas como Air France, Gol e Reserva: “A maioria dos amigos de 40 e poucos anos que tenho não conseguem seguir esse caminho de liberdade. Acho a vida muito mais bacana hoje do que quando passava 12 horas dentro de uma redação e fazendo a mesma coisa”, conta.

Nenhum dos administradores da Casinha passa muito tempo por lá, e as equipes são reduzidas. Nesses quase dois anos juntos, a composição só se sentou à mesa em três ocasiões: para assinar o novo contrato, à ocasião da entrada de Feldman, em um almoço, e para conceder essas entrevistas. E, mesmo assim, Sônia, alocada em um cliente, não estava presente. “Somos quase roommates, mas cada um tem seu negócio, seu CNPJ e suas contas a pagar. Estamos sempre na rua em reuniões”, explica Moreno. A estagiária do The Summer Hunter passa para receber feedback e lições, enquanto a redação da L’Officiel só aparece para o fechamento, uma vez por mês.

Eles, que já trabalharam juntos em um projeto para a Vivo, não descartam novas colaborações, mas só para 2018: “É preciso um tempo para as pessoas conhecerem suas convergências. O compartilhar está em entender o anseio dos outros. Cabe respeitar, tentar se ajudar e torcer pelo outro. Trabalhamos com cultura e arte, é óbvio que há trocas constantes de experiências”, afirma Feldman. Olhando para áreas em comum nos negócios da Casinha, ele conclui: “Acho que todos aqui gostariam de se aproximar de áreas como a realidade aumentada, o digital de inovação, e a realidade virtual. Mas as coisas têm que fazer sentido, e para isso um ritmo de encontros tem que servir para construir algo em comum”.

QUEM FAZ A CASINHA

Ricardo Moreno
Jornalista de formação, é criador da plataforma The Summer Hunter. Produz conteúdo colaborativo com empresas como Air France, Gol e Aperol. Em outra frente, cria projetos de mídia para marcas como Reserva e a carioca Ahlma. Sobre a Casinha, ele diz: “Aqui é uma startup de jovens de 40 anos, sem apoio de investidor. Seria mais fácil montar uma startup. Tem alguém bancando e, se dá errado, cada um vai para seu lado e nem precisa devolver o dinheiro perdido.” Entre novembro e fevereiro, o The Summer Hunter monta pop-up store dedicada ao verão na Galeria Nacional, com seleção de produtos de 20 marcas. Para ele, produzir conteúdo fora de uma redação tem benefícios: “A vantagem de ter sido jornalista muito tempo é saber entregar mais por um valor mais barato. Enquanto a agência de publicidade clássica coloca o preço lá em cima, nós sempre fizemos tanto por muito pouco: vamos atrás dos personagens, marcamos pauta, escrevemos o texto. Hoje cobro um valor mais alto do que uma empresa de conteúdo, mas menor do que o de uma agência”.

Maria Rita Alonso
Nascida no litoral paulista, a jornalista Maria Rita Alonso é referência em moda do Brasil. Além de chefiar a redação da revista L’Officiel, das colunas que mantém no jornal O Estado de S. Paulo e na Rádio Eldorado, encontrou na Casinha um espaço para desenvolver projetos pessoais: “A L’Officiel é da Editora Escala em parceria com uma editora francesa. Ficava em um lugar longe, e o clima empresarial e corporativo não me agradava mais. Não queria ir até lá todos os dias. Ofereci para eles fazer do meu jeito e entregar a publicação pronta. Eles toparam e, como contrapartida, ajudaram com a estrutura dos computadores”. Ela comemorou os 45 anos da Ellus lançando livro sobre a marca e, nos próximos meses, estreia na web com site próprio, chamado A Moda e a Cidade.

Ricardo Feldman
Figura conhecida no meio editorial e artístico, Ricardo Feldman é o mais velho da turma da Casinha e o mais novo integrante do local. Aos 51 anos, mantém há 15 a Editora Livre. É responsável pela produção da revista S/Nº com o fotógrafo Bob Wolfenson, curador de exposições e responsável por livros como Urbanas, um retrato sobre o street style em São Paulo: “Venho de uma geração que encarava o dia de trabalho das 9h às 18h, imaginava se aposentar. Houve uma mudança”, analisa, sobre as novas maneiras de compartilhar um espaço de trabalho: “Quando você tem seu próprio negócio em um lugar fechado, tudo fica ensimesmado, mesmo que se produza em diversas áreas. Com outras pessoas diferentes tocando seus projetos, cai o ego do negócio. Você olha em volta, absorve novas referências e constrói inovações”.

Deca Paim
Publicitária e designer de formação, Deca Paim comanda com Sônia Penteado a PAN – Presentation Art Narrative. A empresa é focada em produção de conteúdo empresarial, e atende um grande cliente no Rio de Janeiro. Faz apresentações institucionais, motion e trabalhos audiovisuais. Depois de fazer carreira em um jornal de grande circulação, Deca ainda sente falta de um espaço físico para trabalhar: “Tenho uma necessidade emocional e física de trabalhar aqui. Como dividimos bem as funções, a Sônia resolve tudo fora, enquanto fico na Casinha. No começo, pensar no design e na criação totalmente sozinha foi muito difícil. Hoje, depois de tudo que passamos, penso na vantagem da horizontalidade, mas ainda tenho a necessidade de vir. Para mim, uma conversa de três horas resolve a troca de e-mails de uma semana inteira.” Recém-premiada com o Cookbook, que produziu para a SAP Brasil, ela pensa em um 2018 tranquilo: “Estou muito otimista. Como lido com comunicação corporativa, só preciso perpetuar o que conquistei desde que vim para cá e continuar crescendo em um ritmo bom”.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.