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Meu Bairro – Santa Cecília

O artista plástico Felipe Morozini conta sobre as transformações urbanas no bairro Santa Cecília

por Piti Vieira 7 Out 2016 10:17

O artista plástico, fotógrafo, ativista e advogado Felipe Morozini, 40 anos, é apaixonado por Santa Cecília, bairro paulistano onde vive há 15 anos. Seu apartamento de cobertura na Avenida São João – de cara para o Minhocão e com uma vista incrível do skyline da cidade – é herança da bisavó. “Antes, eu morava no Tatuapé. Depois que ela morreu, minha mãe queria vender esse apartamento. Vim passar um fim de semana aqui e nunca mais saí”, conta ele. “Não conhecia nada do bairro. Quando era adolescente, ficava horas na frente do prédio olhando tudo. Não entendia nada. Era essa sensação de ver toda essa mistura, tão diferente do Tatuapé, que tomava a minha imaginação.”

Espécie de embaixador local, Felipe recebe a visita de muitos artistas em seu apartamento e não perde a oportunidade de mostrar a eles seus locais preferidos no bairro. “De seis anos para cá, a Santa Cecília é outra. E essa mudança ficou ainda mais intensa nos últimos três anos”, diz ele. “Os apartamentos ficaram mais interessantes. Os prédios foram pintados, as janelas trocadas, chegaram muitos jovens, artistas, criativos, pessoas que não podem mais pagar aluguel em outros bairros mais nobres, mas que, aqui, por causa do Minhocão, ainda conseguem morar. Os preços são 70% mais baixos para quem tem apartamento de frente para o elevado.”

Felipe conta que a Rua Barão de Tatuí, uma de suas preferidas, era podre. A Palmeiras, uma das principais do bairro, uma zumbilândia de madrugada, com muitos usuários de crack. “Agora é lotada de gente jovem. A padaria aqui do lado fica repleta de hipsters. Quando me mudei, tinham umas dez famílias que moravam debaixo do Minhocão. Não esqueço que vi uma criança de 2 anos que viveu ali até os 7. Ninguém falava nada. As pessoas faziam as necessidades na sarjeta. O dia que trocou a iluminação, fiquei lembrando como, há seis anos atrás, tudo ali era escuro, sujo e fedido. E, pela primeira vez, eu estava vendo um lugar claro, limpo e com um monte de ciclistas.”

A relação de Felipe com o Minhocão é de amor e ódio. Quando aberta ao tráfego de 70 mil veículos diários, a obra é um pesadelo não só para o artista como para os moradores do entorno. Quando fechada – o que acontece das 21h30 às 6h30 todos os dias, e das 15h de sábado até a manhã de segunda – se transforma no orgulho do artista, que é diretor da Associação Parque Minhocão. “O elevado é muito vivo, pulsante, quando não tem carro. Além dos frequentadores comuns, há provas de corrida, nightbikers, aulas de ioga. Aos domingos, tem um cara que pratica golfe lá. Adoro pensar meu bairro como outro país. Quando olho para a arquitetura, para o estilo das pessoas, fico com a sensação de ser um estrangeiro na minha própria cidade. O que mais acontece nessa região é essa quebra de paradigma de ‘nossa, esse lugar podia estar em Berlim, podia ser Nova York’, mas é Santa Cecília!”

GRAFFITI DAS PILASTRAS DO MINHOCÃO
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As pilastras do Minhocão vêm ganhando obras de grafiteiros expressivos em São Paulo (como a de Thassio Bertani, acima). “Onde antes não tinha nada, agora tem street art”, conta Morozini. Ele acredita que isso melhora a relação da pessoa com o entorno: “Gosto de pensar a ocupação do espaço público de forma mais humana. É importante que no seu trajeto diário, a pessoa tope com árvores bonitas, boa arquitetura, obras de arte. É fundamental ter essa possibilidade do encontro, da pausa, de um lugar para contemplar”.

MONUMENTO AO BAIXO ESCALÃO
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Em 2011, a Praça Marechal Deodoro, em frente à estação de metrô homônima, foi reformada e ganhou área verde, iluminação, parquinho infantil e quatro estátuas de bronze de tamanho natural, representando o gari, a auxiliar de limpeza, o jardineiro e a copeira. “Uma praça, uma ode ao baixo escalão das profissões, onde o Marechal Deodoro convive bem com a tia do cafezinho”, diz Morozini.

ARTEMÓVEIS: GARIMPE OS ORIGINAIS DE ÉPOCA
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Há mais de 20 anos no mesmo endereço – Avenida São João, 2.115 –, quase embaixo do Minhocão, a Artemóveis compra, vende e aluga objetos antigos. “Esse lugar tem todos os móveis originais ainda com um preço que não é de mercado. É um ótimo achado na Avenida São João, que já é conhecida por ter lojas de antiguidades.”

PIQUENIQUE NO MINHOCÃO
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No meio de uma disputa entre um grupo que deseja destruí-lo e outro que prefere transformá-lo em um parque, o Elevado Costa e Silva movimenta Santa Cecília – para o bem e para o mal. O prefeito Fernando Haddad sancionou uma lei que transforma o local em parque quando a circulação de carros está fechada, o que acontece entre 21h30 e 6h30, durante a semana, e das 15h de sábado até a manhã de segunda. “Indico fazer um piquenique no Parque Minhocão para estar mais próximo do ambiente urbano”, diz Felipe, que milita contra a demolição do elevado.

PAIR STORE: SÓ ROUPAS P&B
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Aberta, há nove meses, em um galpão na Rua Barão de Tatuí, 195, a Pair Store só vende produtos preto ou branco. Há peças vintage e contemporâneas, e grande parte dos itens de moda veste homens e mulheres. A curadoria é feita por Carla Ribeiro, que comanda o showroom da MiCasa. “Essa loja poderia estar em Berlim, Londres, Tóquio ou Nova York”, diz Felipe.

GALERIA PILAR: DIVERSAS MÍDIAS
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Inaugurada em 2011, por Elisio Yamada e Henrique Miziara, a Galeria Pilar também fica na Barão de Tatuí (número 389). A principal proposta é promover artistas que trabalham com as mais diversas mídias, como fotografia, pintura, escultura, instalação e vídeo. “Esse lugar e o bairro eram outros quando essa galeria abriu. Já trouxe vários gringos aqui e eles adoram.”

BANCA TATUÍ: PUBLICAÇÕES INDEPENDENTES
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Na esquina das ruas Barão de Tatuí e Imaculada Conceição fica a banca Tatuí. O local, que estava em péssimo estado e ficava ao lado de um ponto de venda de drogas, transformou-se em referência para quem deseja encontrar todo tipo de publicações independentes. “É um jeito simpático de dar uma volta no bairro e contar mais uma vez a história da cidade, já que eles vendem diversos livros sobre a capital.”

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