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Hugo Rodrigues – da falência ao sucesso

Publicitário conta como tornou-se CEO da terceira maior empresa de comunicação do mundo

por Hugo Rodrigues 1 Set 2016 09:52
Foto por Carol Quintanilha
Foto por Carol Quintanilha

Foi em uma rua industrial de Diadema, no ABC paulista, longe de qualquer glamour, que os meus mais inspiradores sonhos empresariais se evaporaram. Era 1992, quando a fábrica de espumas que eu havia aberto com um primo, dois anos antes, quebrou. Senti o baque, mas a falência não chegou a ser uma surpresa. Afinal, até ali, nada na minha trajetória profissional havia dado muito certo. Eu tinha sido vendedor de quase tudo enquanto teimava em bater à porta de agências de publicidade que, com a mesma obstinação, insistiam em me dizer não.

Trabalhar com comunicação, até aquele momento, parecia um devaneio que provavelmente não me levaria a lugar nenhum, como o meu pai profetizava. Mas a sabedoria popular diz que água mole em pedra dura tanto bate até que… Um dia a coisa vai. Devagar, mas vai. Entrei no mercado publicitário meio que pelas beiradas, atuando em agências pequenas e não muito conhecidas que faziam trabalhos considerados menos nobres.

Naquela época, o varejo era o patinho feio da propaganda. Nenhum profissional da área de criação, como eu, sonhava em fazer comerciais com locutores berrando ofertas de produtos ou encartes que anunciavam o preço do saco de arroz. Só que foi o que apareceu, e nunca fui de recusar trabalho. Abracei a causa com a sede dos iniciantes e o fervor dos apaixonados. Continuei a quebrar a cara, fui demitido algumas vezes e até pensei em desistir (mentira, confesso que a minha vontade sempre foi maior do que a frustração).

A verdade, porém, é que o sucesso fácil nunca me convenceu. Fora raríssimos casos de genialidade explícita ou de pessoas que já nascem com um futuro relativamente assegurado, parece-me fazer bastante sentido que o êxito na carreira venha de uma combinação de atributos, como esforço, resiliência e pelo menos algum talento. Cair, portanto, faz parte da caminhada.

Mas é claro que, depois de passado um tempo, fica fácil olhar para trás e racionalizar sobre essa trajetória. Quando você ainda não sabe se o empenho que põe na sua vida profissional te levará a algum lugar, não dá para manter o entusiasmo todo dia. Nos momentos mais duros, para não esmorecer, eu contava com as lições que tinha em casa.

Na minha família santista, dinheiro não chegava a faltar, mas também não sobrava. E, talvez por isso, o meu pai tenha sempre cobrado que eu superasse todos os meus limites. Minha mãe, por sua vez, mostrava uma crença inabalável de que, no fim, tudo daria certo. Por isso, mesmo quando fracassava, eu me sentia na obrigação de tentar de novo pelo meu pai, e mantinha a fé de que daria certo daquela vez pela minha mãe.

Em 1999, enfim, a estrada começou a clarear. Entrei na Salles DMB&B, que depois virou Salles D’Arcy, que depois me deu chance de abrir a Salles Chemistri, já uma agência do Grupo Publicis, atualmente o terceiro maior conglomerado de comunicação do mundo. Durante essa trajetória, fui aos poucos galgando alguns degraus. De redator, passei a supervisor de criação. De supervisor, a diretor de criação. De diretor, a vice-presidente; depois chief creative officer e chief operating officer. Em 2014, tornei-me CEO da Publicis Brasil, uma das dez maiores agências do País, que atende contas como Chevrolet, P&G, Nestlé, L’Oréal e Heineken.

O engraçado é que, embora a dedicação ao trabalho seja uma constante na minha vida, virar presidente de empresa não era uma meta. Quando penso em tudo o que me motivou, vejo que, muito antes de vaidade, poder ou dinheiro, foi o medo que me levou adiante. Medo de não garantir o meu lugar em uma indústria que pode ser tão criativa quanto excludente. Medo de ficar desempregado e, principalmente, medo de ficar sem dinheiro.

Mesmo hoje, acho que ter um grau moderado de insegurança é um elemento importante para desenvolver melhor o meu trabalho. Como disse Peter Drucker: “Se você está em uma posição de comando, é pago para se sentir desconfortável. Se está se sentindo confortável, é porque definitivamente não está fazendo a coisa certa”.

Esse desassossego me ajuda a desenvolver não apenas uma visão global do negócio como também uma visão específica para cada área, a identificar eventuais fragilidades na empresa, e, claro, novas oportunidades de negócio. Muita gente acha que a parte mais difícil da trajetória profissional é chegar lá. Para mim, quando os outros começaram a dizer que eu havia chegado lá, percebi que estava apenas começando.

Texto originalmente publicado na revista Carbono Uomo n° 1

Hugo Rodrigues

Hugo Rodrigues, 45 anos, é CEO da Publicis Brasil e da Salles Chrmistri e está por trás das campanhas de algumas das maiores marcas globais e nacionais como GM, P&G, Nestlé, L’Oréal, Sanofi, Discovery, Centauro, Sony, Senac e SBT

  • João Ramos

    Inspirador!!!
    Talento poucos reconhecem, persistência poucos tem.

  • Que história. O engraçado é que dei uma pausa na criação de anúncio pro varejo (Saco de arroz rsrsrs) pra ler isso rsrsrsrsrs. Sucesso na sua trajetória, Hugo.

  • Diomar Sartor

    Resiliência!!!