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Formando Cidadãos

Instituição de ensino que ajudou na restauração da Rua General Jardim, a Escola da Cidade debate há 15 anos a arquitetura como maneira de reduzir as desigualdades do tecido social paulistano

por Artur Tavares 9 Fev 2018 11:04

Rua que liga o bairro de Higienópolis à Praça da República, a General Jardim movimenta o Centro dia e noite com A Casa do Porco, a Secretaria Municipal da Saúde, os clubes JazzB e CCPC, seu cruzamento com o Minhocão e a proximidade com o Copan, o Largo do Arouche e a Consolação. No fim dos anos 1990, esse ícone da revitalização da Vila Buarque era lar de dezenas de moradores de rua, de prédios abandonados, ponto de comércio sexual, um retrato da degradação que atingia a parte mais antiga da metrópole paulistana. A transformação começou em 2002, quando a Escola da Cidade se instalou em um par de edifícios abandonados projetados por Oswaldo Bratke nos anos 1940, e o ensino arquitetônico de profissionais como Paulo Mendes da Rocha, Helene Afanasieff, Rafic Farah, Alvaro Puntoni e Ciro Pirondi tomaram as rédeas no início da revitalização da região. O foco é formar arquitetos e urbanistas que pensam em como criar uma cidade mais acessível aos seus 12 milhões de cidadãos, embora alguns cineastas, cenógrafos e artistas também saiam de lá.

A Associação Escola da Cidade foi fundada, em 1996, por um grupo de profissionais que dividia a mesma forma de pensar no ensino da arquitetura. Por seis anos, a Escola tramitou no Ministério da Educação, tempo em que o projeto foi primeiro adequado à Casa Modernista, na Vila Mariana, e depois a uma instalação na Rua Apinajés, em Perdizes. Um dia o corpo diretor encontrou os prédios de Bratke, abandonados havia cinco anos, e deu entrada no pedido de aluguel: “Ter vindo para o Centro foi o melhor acerto. Aqui vemos o que se passa na cidade. O cenário urbano como roteiro é extremamente rico para os alunos”, conta Anália Amorim, professora envolvida na formação da escola e sua atual diretora. Ela diz que arquitetura é a última das profissões humanísticas, na qual os seres humanos estão no centro das preocupações: “São eles que têm o direito de ir e vir, refletir, propor e mudar em um espaço que cultuamos como diverso”. A arquiteta explica que os problemas se mantêm com o passar do tempo: “As questões da mobilidade, do tratamento das águas, das enchentes e da iluminação pública não mudam. Os termos urbanos são candentes.”

As paredes que separavam os dois prédios originais de Bratke foram derrubadas, mas a planta residencial foi mantida. Não há portas nas salas de aula – antes quartos, salas com lareiras aparentes e cozinhas; um bar ocupa o espaço de convivência tomado de intervenções artísticas no térreo, e os banheiros são unissex. A instituição não fecha durante as madrugadas nem aos fins de semana, quando recebe jovens que dividem seu tempo entre estágios em escritórios de arquitetura pela manhã e aulas que vão de tarde até o início da noite. Os notívagos passam noites em claro e, às vezes, sábado e domingo servem para que os alunos se debrucem nos desenhos e maquetes de suas lições. Do segundo ao sexto ano, o último, todos trabalham juntos em projetos que discutem desde a revitalização do Largo da Batata até o que fazer com o Minhocão. Seis viagens fazem parte do currículo e estão inclusas na mensalidade, entre elas: Rio de Janeiro colonial, Vale do Paraíba, Chile e Paraguai: “Muitos alunos vêm de condomínios, redutos urbanos muito poupados de problemas e de estética desafiadora. Tem quem chegue aqui no primeiro ano sem nunca ter pegado o metrô ou conhecer o Centro. Aqui, estão participando. Precisam entrar e sair. Percebem a pluralidade quevai do banqueiro ao mendigo, do comerciário ao comerciante. É muito rico estar aqui, um privilégio. Assim percebemos o quanto perdemos quando nos isolamos”, diz Anália.

Porém, há dias em que a recente ocupação na rua não é suficiente para ofuscar aquilo que a General Jardim já foi um dia: “A Região Metropolitana de São Paulo tem quase 22 milhões de habitantes, e 5 milhões deles circulam diariamente na República. Desses, 3 mil moram na rua. É um percentual muito significativo do ponto de vista da existência humana”. De acordo com um estudo da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) do ano passado, além dos 3 mil moradores de rua do Centro, outros 13 mil estão espalhados por São Paulo, número que dobrou desde 2000. Já medição recente da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado constata que mais de 1.800 pessoas passam pela cracolândia diariamente. O problema não é deixado de lado pelos professores e alunos: “Eu não tenho dados suficientes, mas gostaria de ter para entender por que os usuários viviam no Bom Retiro e foram tirados de lá. O que aconteceu com o Bom Retiro, como o bairro vem se desenvolvendo nos últimos dez anos por quem o ocupou? Por que agora se encontram na Luz e, ao saírem, o que ficará? Você joga um tecido social que desvaloriza imobiliariamente onde ocupa, para então comprar por um preço reduzido. Aí você expulsa essa massa de manobra e transforma o lugar”. Para ela, o mercado imobiliário interfere em outras regiões centrais: “É a discussão do Minhocão, cujo verdadeiro problema é embaixo, onde há acúmulo enorme de poluição e altos níveis de ruídos sonoros. Quanto é o valor do metro quadrado hoje na Amaral Gurgel e quanto seria sem o viaduto? Como poderia ser feita a transição dessa valorização espacial mantendo o IPTU de quem já morava lá em uma operação que não seja selvagem do ponto de vista da lei do mais forte?”.

O ambiente reflexivo promovido pela Escola da Cidade serviu bem à reformulação da República porque levou jovens para a Biblioteca Mario de Andrade e o Theatro Municipal, a Galeria Metrópole e a Praça Dom José Gaspar. Anália compara com a construção do Itaquerão e da Sala São Paulo, projetos que falharam em renovar seus entornos: “Isso é chamado de urbanismo de acupuntura. Você cria um lugar de equipamento e espera ele reverberar. Nem sempre acontece. Para isso, você precisa resolver um nível de desigualdade, porque se o seu vizinho fez, você tem a oportunidade de fazer também. Se o seu vizinho faz uma megainstalação, não é a vizinhança que vai melhorar. Esse tipo de intervenção injeta uma quantidade brutal de verba para um, e nada em capital humano.”

A educadora é otimista em relação ao futuro da cidade. Afirma que Plano Diretor representa os valores de uma sociedade civil, e diz que aquele em vigor desde outubro de 2014 é “mais humano”. Anália acredita que as ciclovias são “uma ousadia bem-vinda” e que a expansão da malha metroviária paulistana “promete ser boa para o transporte público, se a expansão for ágil”. Chama a Avenida Paulista de “lugar em que as pessoas se sentem mais paulistanas” e analisa sua abertura para pedestres aos domingos como “uma conquista quase cordial”. Conclui sua análise da mobilidade urbana dizendo que “a questão do trânsito vai ser resolvida, porque o zoneamento vai mudar e o transporte público absorverá muitas pessoas.”A pernambucana, que vive há 30 anos em São Paulo, confia no poder econômico da cidade: “O Edifício Martinelli por muito tempo foi um pardieiro, foi restaurado e continua lá. Com o Conjunto Nacional foi a mesma coisa. Um prédio lindo da década de 1950, que caiu em decadência e depois se levantou. Quando entrávamos nesse prédio, o esgoto descia pela escada do sétimo andar até o subsolo, e hoje está essa maravilha. A vontade humana, o afinco, o trabalho e o respeito podem renovar. Arquitetura é ver a promessa, porque qualquer ruína é promissora”.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.