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Falando com as mãos

Com o aplicativo que traduz texto e som para Libras (Língua Brasileira de Sinais), brasileiros se engajam na inclusão de deficientes auditivos e ganham reconhecimento mundial

31 Out 2017 17:34

Por Andressa Basilio

A primeira coisa que Marcelo Godinho, 13, faz quando conhece alguém é pedir o smartphone emprestado e baixar rapidamente o aplicativo Hand Talk. Só então começa a estabelecer um diálogo, que em outras circunstâncias seria muito difícil. Isso porque o menino sofre de perda auditiva severa e o aplicativo é a maneira mais rápida de traduzir texto e som para a Língua Brasileira de Sinais, Libras. “O Hugo (intérprete 3D do aplicativo) é o maior companheiro do Marcelinho e o ajuda a ter muita independência”, diz a irmã Jéssica, 24. “Família, amigos da escola e da natação, fonoaudióloga, amigos de amigos. Eu não conheço alguém próximo ao meu irmão que não tenha o Hand Talk instalado no celular.”

Assim como Marcelo, quase 10 milhões de brasileiros sofrem com algum grau de deficiência auditiva e 70% têm dificuldade de ler e escrever em português, já que sua comunicação é bastante visual. “O Hugo é muito mais do que um tradutor. Ele ajuda a criar uma relação entre as pessoas”, explica o alagoano Ronaldo Tenório, 31, o homem por trás da ideia do Hand Talk. O que começou como um trabalho acadêmico despretensioso virou uma empresa em 2012, com a entrada dos sócios Carlos Wonderlan, 34, e Thadeu Luz, 33, que assim como Ronaldo são de Maceió (AL). “Percebi que uma parcela enorme da população não estava inserida na sociedade, já que inclusão passa pela comunicação. Como empreender é solucionar o problema de alguém, partimos para a ação”, relembra Tenório, que é também o CEO da empresa.

Pouco depois da criação do primeiro protótipo, a inovação já alcançava o reconhecimento mundial. Em 2013, foi eleito pela ONU o melhor aplicativo social do mundo, desbancando alemães e japoneses na final do World Summit Mobile Awards (WSA), premiação conhecida como o Oscar dos aplicativos e que avalia 15 mil soluções de vários países. Um ano depois, o Hand Talk foi escolhido como a startup mais inovadora da América Latina pela empresa americana de telecomunicação Qualcomm, que investiu no desenvolvimento da tecnologia. Além disso, passaram por aceleradoras de impacto, como a Artemisa e a incubadora do Google. Somados os investimentos, a companhia já recebeu mais de R$1 milhão. “A Hand Talk tem um aspecto social fantástico, mas também é um negócio facilmente escalável para qualquer país do mundo. Desde que comecei a investir nela, já multiplicou seu valor de mercado (valuation) em pelo menos 20 vezes”, relata João Kepler, dono da micro venture capital Bossa Nova Investimentos e um dos primeiros a apostar na startup.

Os números do aplicativo impressionam: 1 milhão de downloads, 6 milhões de pessoas impactadas, mais de 160 mil traduções realizadas, com média mensal de 150 mil usuários ativos. O aplicativo é gratuito. Por isso, o faturamento da Hand Talk provém de outra origem: os clientes corporativos. A startup cria soluções para empresas se adequarem à Lei Brasileira de Inclusão (nº 13.146/jun. de 2015). A lei determina, entre outros tópicos, a acessibilidade a sites da internet mantidos por empresas ou órgãos de governo para uso de pessoas com deficiência, garantindo-lhes acesso à informação. “Muitas empresas estavam com as portas fechadas para essas pessoas. Por isso, nós desenvolvemos um plugin do Hugo que permite que qualquer palavra seja traduzida”, explica Tenório. Hoje a tecnologia é utilizada por mais de 5 mil sites, como Magazine Luiza, Natura, Sebrae e Pinacoteca de São Paulo.

Os planos, a partir de R$49 reais, variam de acordo com a complexidade do conteúdo que Hugo terá que traduzir. Como uma clássica startup, a empresa é enxuta, com apenas 11 funcionários e dois escritórios: sede em Maceió e time comercial em São Paulo. Os empreendedores agora estão voltando sua energia para a internacionalização da ferramenta, que deve chegar aos Estados Unidos no próximo ano. Se depender da credibilidade já alcançada pelo CEO Ronaldo Tenório, a expansão não será difícil. Em 2016, além de ter sido eleito pela Forbes Brasil como um dos 30 jovens mais promissores do país, o empreendedor entrou para a seleta lista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) dos 35 jovens mais inovadores do mundo. Foi o único brasileiro na história a pertencer ao ranking, que já teve nomes como Sergey Brin, do Google, e Mark Zuckerberg, do Facebook. “Sabe aquela frase do tio do Homem-Aranha que diz que grandes poderes trazem grandes responsabilidades? Eu me sinto assim”, afirma Tenório. “Cada prêmio que a gente conquista é como se fosse uma chancela que diz: ‘Cara, vai em frente que o que você está fazendo faz sentido’.”