Lifestyle

Compreender a humanidade

Pedro Andrade viajou para 30 países durante três anos de gravações de seu programa, Pedro Pelo Mundo. No seu tempo livre, leva para sua vida dividida entre os EUA e o Brasil as lições que aprendeu pelo globo

por Artur Tavares 14 Dez 2017 12:58

Se é verdade que trabalhar com aquilo de que se gosta é não trabalhar nenhum dia da vida, então Pedro Andrade é a personificação de um sonho. Jornalista que divide seu tempo entre o canal norte- americano ABC e os nacionais GloboNews e GNT, o carioca está fechando 2017 com carimbos de 30 países diferentes em seu passaporte, fruto de uma rotina enlouquecedora para produzir Pedro Pelo Mundo. Ex-modelo que hoje detém uma das maiores credibilidades da televisão, Pedro Andrade diz que sempre sonhou com sua agenda atribulada e, em uma passagem pelo Brasil, arranjou algumas horas dos seus disputados dias para conversar com esta Carbono Uomo e refletir sobre as diferenças e semelhanças que formam a humanidade.

Descoberto muito jovem em areias cariocas pelo fotógrafo Mario Testino, Pedro Andrade foi morar em Nova York quando tinha 20 anos. Seu sonho de viajar pelo mundo começava a tomar forma: “Sempre quis ter a vida que tenho, mas foi uma construção. Sonhava desde moleque com um trabalho que me permitisse viajar, e estou nos Estados Unidos há 18 anos”. Estar, no caso dele, pode ser traduzido como ter um lugar para chamar de lar quando não está apenas de passagem. Na semana que nos recebeu, ele voltaria para os EUA em uma quarta-feira: “Então, gravo quinta para a ABC e sexta-feira para o Manhattan Connection. Na mesma noite, embarco para o Marrocos e, de lá, faço Londres e Malta. Volto para Nova York por 24 horas, e aí Canadá e Tanzânia”. Se à primeira vista a rotina de Pedro parece um sonho, há de se lembrar que para cada viagem há um voo e que muitos deles são longos: “Tive que aprender a apreciar meu tempo dentro dos aviões. Não é que eu ache viagens de 18 horas uma delícia, mas não reclamo, porque é quando tempo para fazer tudo aquilo que não faria se não estivesse ali. Hoje já não tenho tempo para ler, para ver filmes ou escrever. Mais exaustivo é fazer mala, ir de táxi até o aeroporto, esperar na segurança, fazer conexões”.

Das matérias jornalísticas que faz para a ABC e os comentários políticos que analisa no Manhattan Connection, Pedro Andrade tira o conteúdo que quer abordar em Pedro Pelo Mundo. O reality show fala de lugares passando por transformações irreversíveis e, neste ano, retratou China, Rússia e Líbano, apenas para citar alguns. O apresentador atribui sua audiência, uma das maiores da TV a cabo brasileira, à desenvoltura que criou com a temática de seus programas: “Tento ser coerente em tudo o que faço, mas, às vezes, os assuntos não são acessíveis. Se no Manhattan estamos falando da política externa de Cingapura, ou das eleições norte-americanas, talvez esses assuntos não interessem à dona de casa ou ao jovem. A minha linguagem, meu ponto de vista e a maneira como falo são iguais quando estou comendo uma aranha no Camboja, entrevistando um refugiado norte-coreano em Seul no Pedro Pelo Mundo, ou se estou entrevistando um viciado em heroína para a ABC”. Quando propôs o programa à GNT, sofreu rejeição: “A diretoria achou muito jornalístico. Ficaram receosos com temas como refugiados sírios na Alemanha ou ditatura em Mianmar. Pedi que acreditassem em mim e disse que eles subestimavam as donas de casa. Elas são mais curiosas e interessadas do que se pensa”. E assim decidiu que esse seria o desafio a enfrentar durante as gravações: “Eu costumo dizer que se não sei explicar aquele conteúdo para uma criança, então não entendi direito sobre o assunto. Tenho muita birra com palavras muito pomposas e pessoas que precisam falar difícil para dar uma impressão superior. Acho que less is more. A simplicidade é muito preciosa”.

Pedro Andrade, que tem pensado cada vez mais na possibilidade de ser pai, usa sua popularidade para dar voz a questões de igualdade em todo o mundo, seja mandando recados de carinho para a cantora brasileira Pabllo Vittar em sua conta no Instagram ou na escolha dos entrevistados de seus programas: “Alguns personagens contam algumas histórias maiores que eles mesmos: uma mulher que servia comida para manifestantes durante a Primavera Árabe, um gay na Arábia Saudita, um ativista mexicano que se posiciona contra o Trump, uma mulher que perdeu a família inteira no Vietnã”.

Mesmo com um claro avanço de posturas extremas, o jornalista não acredita que o planeta hoje é um lugar mais tenebroso do que aquele do início de Pedro Pelo Mundo, há três anos, quando o Brexit, Donald Trump e o ditador norte-coreano Kim Jong-un pareciam temas da ficção: “Tenho muita dificuldade com essa postura de ‘bons tempos’. Não sinto essa nostalgia nem na minha vida pessoal. Acho que o mundo é um pêndulo, que melhora e piora de forma cíclica. Às vezes, o que é melhor para um é pior para outro. Por isso, tento não olhar de maneira muito crítica”. Das suas viagens, prefere absorver aquilo de melhor que as pessoas têm a ensinar, e diz que não importa a distância, toda a humanidade se comporta da mesma maneira: “Há alguns pilares fundamentais: a forma como a mãe lida com o filho, como um homem lida com seu marido ou esposa, a maneira como nos expressamos pela arte. É tudo muito parecido. Aprendi demais viajando pelo mundo: existe um sentimento universal que nos conecta, independentemente de classe social, religião, raça, orientação sexual ou faixa etária. Todo mundo quer ser entendido, ouvido e amado. Todos querem ser compreendidos, independentemente das diferenças”.

Para o próximo ano, Pedro Andrade deve lançar um livro com registros fotográficos e textuais das viagens que faz pelo globo, mas não será uma extensão jornalística do Pedro Pelo Mundo. Pela primeira vez desde O Melhor Guia de Nova York, publicação que o alçou ao sucesso, fará algo pessoal: “Amo fotografar e sempre carrego minha câmera durante as gravações. O livro será metade de fotos, e a outra metade, de crônicas sobre aquilo que vivi”. Sem nunca ter tornado o Brasil parte de seu mundo na frente das telas, ele não descarta visitar sua terra natal na próxima temporada do programa: “Neste momento, a transformação brasileira ainda não foi definida. Ela existe e é cheia de esperança, mas ainda é difícil dizer objetivamente o que está mudando e aonde o País vai chegar. É um momento difícil, com um vácuo muito grande de otimismo político”. Ainda sem pauta definida, Pedro quer visitar a Amazônia e outros espaços rurais, como Parintins e Pantanal, e passar por praias como Porto de Galinhas e Trancoso. Sua única certeza, porém, é que amanhã estará dentro de mais um avião.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.