Lifestyle

Comprando moedas estrangeiras sem estresse

Dicas para não passar apertado com dinheiro na hora de ir viajar para fora do País

por Shoichi Iwashita 15 Jul 2016 13:20

Dinheiro, passaporte, saúde e, de novo, dinheiro: as coisas ESSENCIAIS de uma viagem. E a primeira lição do câmbio é: a não ser que você tenha comprado na baixa e esteja vendendo na alta, você SEMPRE vai perder dinheiro ao comprar ou vender moeda. Faz parte do custo-turista. As taxas de câmbio variam MUITO entre bancos e corretoras, de uma modalidade para outra (e de um minuto para o outro!), entre o valor oficial e o turismo, o que sempre exige um tempo de pesquisa e o da retirada ou entrega da moeda.

Logo, o ideal é fazer o mínimo de operações possível. Compre dólar quando for para os Estados Unidos, libra quando viajar para os países do Reino Unido e euro para a Europa (mesmo se o país não fizer parte da zona do euro — apesar da quase onipresença do euro na nossa lembrança, ainda existem 28 moedas diferentes no continente europeu —, o euro vai ser a melhor moeda para trocar por moeda local, já que eles não aceitam real).

Não vá comprar dólar aqui para viajar para a Inglaterra e chegar lá ter de trocar o dólar pela libra só por que um dólar custa menos que uma libra (isso não tem NADA A VER): você vai perder dinheiro na hora de trocar os reais pelos dólares e perder de novo na hora de trocar os dólares pelas libras. Só leve dólar para a Inglaterra, se você já tiver a moeda e não estiver pensando em viajar para os Estados Unidos ou América Latina em breve.

DINHEIRO, CARTÃO PRÉ-PAGO OU CARTÃO DE CRÉDITO?
Ficar sem dinheiro ou sem um cartão de crédito com limite pode ser um GRANDE problema numa viagem, quando se está sozinho a milhares de quilômetros das pessoas que poderiam te ajudar numa emergência. Por isso, os três. Dinheiro (quanto mais seguro o país, maior a proporção de dinheiro que levo); cartão pré-pago (a maioria das vezes levo vazio, deixo no cofre do hotel com os documentos e recarrego pela minha conta no internet banking, mas só se precisar); e três cartões de crédito de bandeiras diferentes, sempre (dois na carteira e o outro no cofre do hotel, para o caso de perda ou furto da carteira com tudo dentro; não se esqueça de que hotéis e locadoras de veículos exigem cartão de crédito internacional para um bloqueio preventivo que cobre diárias, extras e problemas, e o envio de um cartão de crédito extra no exterior pode levar até cinco dia para chegar até você).

MOEDA EM ESPÉCIE: QUAIS MOEDAS COMPRAR NO BRASIL?
A dinâmica das operações de câmbio é bem complexa. Mas, como tudo na economia, ela depende da oferta e da demanda. Assim, moedas que não sejam abundantes no mercado brasileiro têm uma cotação tão ruim que talvez compense levar moeda forte como o dólar ou o euro daqui do Brasil e trocar por moeda local quando no país. E uma forma de saber se vale a pena comprar aqui é calcular a diferença entre o valor de compra e o valor de venda da moeda. Se a diferença estiver na casa dos 10% (divida o valor da venda pelo valor da compra, subtraia 1 e multiplique por 100), como acontece com o dólar, o euro e a libra, a cotação está equilibrada. Mas, se estiver na faixa dos 20% , ou pior, dos 40%, 60% (como no caso geralmente do yen japonês; imagina, os caras compram a moeda pelo preço justo e vendem por um preço 60% mais caro!), compre dólar e troque pela moeda local quando chegar no país de destino. Mesmo perdendo um pouco nas duas transações, ainda assim vai custar BEM MAIS BARATO que essa diferença enorme.

POR QUE LEVAR DINHEIRO?
A moeda em espécie é hoje a forma mais barata (pela taxa de câmbio que é sempre melhor e pelos impostos) e sem surpresas de controlar os gastos na viagem, ainda mais para compras em países que devolvem os impostos para quem não mora lá, através do Tax Refund: além de pagar bem menos IOF (o Imposto sobre Operações Financeiras) do que se comprar com cartão de crédito você ainda tem de 7% a 20% do valor do imposto da compra de volta! Em vez dos 6,38% de IOF que incidem sobre as operações com cartão (seja ele pré-pago ou de crédito), você paga apenas 1,1% de IOF ao comprar moeda em espécie (até 2015, era apenas 0,38%); não sofre com a instabilidade cambial (principalmente no Brasil; é horrível gastar um monte na viagem e no mês seguinte chegar a conta do cartão de crédito com um valor do câmbio do dia mais alto do que você esperava); e o câmbio pelas corretoras é bastante competitivo. Ainda mais se você comprar pela internet (já explico mais à frente). Só é preciso declarar à Receita Federal do Brasil e em alguns países onde você estiver entrando se você estiver levando mais de US$ 10.000 em espécie por passageiro.

OS ERROS AO COMPRAR MOEDA ESTRANGEIRA
O primeiro erro óbvio que a gente comete na pressa? Ir a um banco ou casa de câmbio qualquer e comprar sem pesquisar. O segundo? Deixar para comprar moeda no aeroporto no dia da viagem. As casas de câmbio possuem preço diferenciado — ou seja, mais caro — para as suas filiais instaladas nos aeroportos (e fuja do Safra do Terminal 3 no Aeroporto de Guarulhos; vá até a Cotação no Terminal 2, que tem um preço bem melhor). O terceiro erro? Comprar a moeda num banco; prefira as casas de câmbio. Além de cobrar uma taxa de câmbio diferente para correntistas e não correntistas, tem bancos que cobram até R$ 60 de tarifa para efetuar a venda. O que nos leva ao quarto erro: levar em consideração apenas a taxa de câmbio na hora de fechar negócio. Além do IOF de 1,1%, tem corretora que cobra tarifa e, às vezes, a taxa de câmbio mais barata é neutralizada pela tarifa. Assim, o que você deve observar é o Valor Efetivo Total, o VET, que seria a taxa de câmbio já turbinada com o IOF e qualquer tarifa que o banco ou corretora venha a cobrar. Por exemplo, se você for comprar US$ 100 a uma taxa de câmbio a R$ 3,50 por dólar, você acrescenta o IOF (1,1% de R$ 3,50 = R$ 0,0385 por dólar) e a tarifa de R$ 20 ao valor total (R$ 20 dividido por 100 dólares vai dar R$ 0,20 por dólar). Assim, apesar de a taxa de câmbio ser de R$ 3,50, o Valor Efetivo Total por dólar nesta compra será de R$ 3,74 por dólar.

PASSO-AO-PASSO PARA ENCONTRAR A MELHOR TAXA DE CÂMBIO
— A primeira coisa a fazer é entrar no site Melhor Câmbio, colocar a moeda e a cidade onde você está e clicar em “quero comprar”. A página de resultados já te dá, em ordem crescente, a taxa de câmbio (já com IOF e taxas) de mais de dez casas de câmbio, tanto para compra de moeda em espécie quanto para cartão pré-pago. O site do Banco Central possui um ranking mas é meio complicado basear a decisão nele, porque ele faz uma média de transações dos meses anteriores e só mostra a razão social das empresas, sem links.

— Já sabendo quais têm as melhores taxas, entre no site da corretora, preencha seus dados e faça uma simulação. A taxa de câmbio das reservas feitas pela internet é mais barata que se fechada por telefone ou comprada direto na loja (uns 2% de diferença no VET; isso da mesma empresa, viu?). E mesmo fazendo a reserva pela internet pagando mais barato, você pode retirar o dinheiro em qualquer loja.

— Se você precisar do dinheiro no dia ou no dia seguinte, faça a cotação e a reserva por telefone. Utilize as informações das taxas de câmbio do site Melhor Câmbio (mas não tem jeito, a taxa vai ser mais cara), e não feche de primeira, hesite. Na tentativa de fechar negócio, eles sempre vêm com uma oferta melhor. E vão te perguntar se você disser que vai ligar de novo mais tarde: “o que te impede de fechar o negócio agora?” Se eles cobrarem taxa de administração, tente negociar. Da última vez que comprei euro, por telefone, optei pela Get Money, que me cobrou R$ 3,96 de VET no dia que o câmbio oficial estava a R$ 3,78 (a Confidence ia me cobrar R$ 4,01 e a Cotação, R$ 4,05, VET; e ambas começaram a conversa com R$ 4,07). Ou seja, numa compra de € 1.000, a diferença do valor final da Cotação — a mais cara — e o valor da GetMoney — onde eu comprei — foi de R$ 90; o que dá para pagar um almoço bem gostoso :- ).

— Tendo feito a reserva ou pela internet ou pelo telefone, você vai até a loja que você especificou durante a reserva levando seu documento e os reais, e retira o dinheiro. E o bom é que algumas dessas casas de câmbio como a GetMoney, a Cotação e a Confidence possuem várias lojas em shoppings da cidade de São Paulo, o que torna mais segura a retirada do dinheiro.

JÁ NO PAÍS ESTRANGEIRO E PRECISO COMPRAR MOEDA LOCAL
Lembre-se que a taxa de câmbio do aeroporto é sempre pior, por isso troque só um pouco de dinheiro, o suficiente para o dia (despesas como transporte, um lanche, alguma compra pequena), e o restante em algum banco da cidade que faça operações de câmbio. Porque essa é outra lição: a taxa de câmbio de aeroportos, hotéis e casas próximas a atrações turísticas é sempre pior (nos fins de semana também). Mas tem a questão da segurança. Se você estiver em algum país violento, pergunte antes na recepção do hotel por bancos em regiões mais seguras.

O CARTÃO PRÉ-PAGO
Diferentemente dos travellers checks, os cartões pré-pagos são super bem aceitos na grande maioria dos países (por causa das bandeiras como Visa e Mastercard, onde aceita cartão de crédito, aceita cartão pré-pago). O melhor é que você tenha um cartão emitido pelo banco onde você tem conta corrente, pois você consegue recarregar de qualquer lugar, bastando ter acesso à sua conta pela internet (não se esqueça de levar os acessórios — token, telefone com aplicativo — de que você precisa para fazer a transação; ah, e a senha do cartão que vem com ele também!). E ao transferir o dinheiro para o cartão pré-pago, uma vez debitado o dinheiro da conta corrente, o seu cartão já fica imediatamente carregado e disponível para uso em saques em caixas eletrônicos (eles cobram uma tarifa por saque) ou compras. Mas nos cartões pré-pagos você precisa definir a moeda e a bandeira (Visa ou Mastercard) antes de comprar: não dá para ter libra e euro no mesmo cartão. E se você quiser pagar uma compra em dólar nos Estados Unidos com um cartão pré-pago em euro, vai cair naquela mesma dinâmica: vai perder mais um pouquinho de dinheiro na conversão. Porque a taxa de câmbio dos pré-pagos também é mais alta: com o IOF de 6,38% fica entre 5% e 8% mais caro que comprar moeda em espécie. Mas você estará protegido da instabilidade cambial, já que você já sabe o quanto pagou pelo dinheiro. E, se na volta, você quiser resgatar o que sobrou, é super fácil: você faz isso pelo próprio internet banking e eles te depositam o dinheiro na hora (com nova incidência de IOF…)! Mas tem de saber a senha do cartão.

CARTÃO DE CRÉDITO
É o meio MAIS FÁCIL. Para usar o cartão de crédito no exterior, basta que você comunique o banco emissor do seu cartão os países para onde você estará viajando e as datas, que você pode fazer muitas vezes pelo próprio internet banking, o que é bem prático. O cartão de crédito não protege da instabilidade cambial (as compras são contabilizadas sempre em dólar e você vai pagar a taxa de câmbio, não oficial, do dia do fechamento da sua fatura; ou seja, você provavelmente já estará no Brasil quando isso acontecer, e se houver diferença, para mais ou para menos, entre a taxa de câmbio do dia do fechamento e do dia do pagamento, a conta ou o crédito vem na próxima fatura), a incidência de IOF é 6,38%, massss… dá para ganhar milhas. E tem cartões com ótimas conversões de dólar para milha, que vai 1,5 a 2,2 pontos por dólar gasto…

A TAXA DE CÂMBIO DOS CARTÕES DE CRÉDITO
Cada banco cobra a taxa de câmbio que quiser. E os bancos públicos são os que têm melhor conversão. A taxa de câmbio dos cartões da Caixa é praticamente o valor do dólar oficial (apenas 0,3% até 0,45% acima) + IOF. Já os outros bancos famosos podem cobrar de 3,5% a 7,5% acima do dólar oficial + IOF de 6,38%, o que dá uma boa diferença… Por isso, se você viaja bastante vale a pena pesquisar a taxa de câmbio cobrada pelo seu cartão de crédito e optar pelo banco emisso com taxa de câmbio mais atraente; ao longo de um ano essas pequenas porcentagens fazem uma diferença.

Essa matéria é um panorama do meu último ano de experiências com câmbio, em 2015 e 2016, mas as regras do jogo sempre podem mudar. Espero ter elucidado algumas questões básicas do funcionamento do mercado de câmbio porque a única regra que não muda nunca é que tendo informação a gente sempre faz melhores negócios, e melhores viagens.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.