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Ator por uma causa

Renato Góes, nossa capa da edição #12

por Carol Sganzerla 7 Abr 2019 11:48

Quando Renato Góes saiu de Recife, aos 19 anos, para morar sozinho no Rio de Janeiro, ele literalmente entrou numa fria. Uma das poucas coisas com a qual não se adaptou foi a água gelada do mar. Até mudar de cidade, dirigia 40 minutos para surfar em Porto de Galinhas. “Hoje, fico em frente à praia e mesmo assim não surfo. Quando cheguei, morava perto da praia da Barra e torcia para não conseguir pegar nenhuma onda para não precisar nadar tudo de novo”, conta. Por outro lado, a recepção no meio artístico foi calorosa. Em 2006, a cena pernambucana estava em alta no cinema com os diretores Cláudio Assis, Karim Aïnouz, Lírio Ferreira e Marcelo Gomes, com seus respectivos Amarelo Manga, O Céu de Suely, Árido Movie e Cinema, Aspirinas e Urubus. O sotaque arrastado, que poderia dificultar a entrada na televisão, foi bem recebido. “Não senti dificuldade em relação a isso, mas fui colocado em um nicho. Meu empresário na época não via meu potencial para outros tipos de papel, por um ‘pré-conceito’”, relembra. “As primeiras oportunidades que tive foram com personagens nordestinos, mas as mesmas autoras depois me deram papéis neutros, como em Cordel Encantado (2011) e Joia Rara (2013)”, diz ele, que estreou na novela Pé na Jaca, em 2006.

 

Conjunto de moletom e colar LOUIS VUITTON — Relógio IWC

 

Dez anos depois, Renato ganhou notoriedade em Velho Chico, em que interpretou o personagem principal na primeira fase da trama. Ambientado no sertão nordestino, à beira do rio São Francisco, o folhetim deu luz à vida dos ribeirinhos. “É muito bom fazer uma novela que tem um serviço. Dei sorte de fazer trabalhos que tinham uma causa”, comemora o ator. Em 2017, ganhou seu primeiro protagonista na superssérie Os Dias Eram Assim, passada nos anos de repressão da ditadura militar. Agora, no início de abril, vive um refugiado sírio na novela das 6, Órfãos da Terra, seu segundo protagonista. “É uma causa internacional. Meu principal objetivo é que as pessoas entendam que os refugiados não são fugitivos, não são terroristas, eles são vítimas”, explica Renato, que três meses antes de dar início à pré-produção da novela foi estudar árabe. “Imagina você chegar em um país para recomeçar sua vida, sem conseguir se comunicar, sabendo que sua casa, seus amigos e familiares não existem mais, e ter que esquecer de tudo e ser feliz. É uma contradição muito grande. O serviço prestado pela novela é ter o respeito, o respeito é ter conhecimento e você proliferar aquilo.”

 

Tricô LOUIS VUITTON — Na mão esquerda: no dedo indicador, anel SKULL; no médio e no anelar, anéis LIBERTY ART BROTHERS — Na mão direita: no dedo mínimo, anel MARIA DOLORES — Pulseira de ouro branco OMEGA e Pulseira de couro LIBERTY ART BROTHERS — Relógio MONTBLANC

 

QUERO SER GRANDE
Nascido no Recife, Renato fotografava desde os 3 anos e desfilava para marcas infantis, levado pela mãe, comerciante e empreendedora – o pai é representante na área de oftalmologia. Ficou nessa até os 9, quando ela passou a não aceitar os convites por achar que o filho deveria fazer as próprias escolhas. Perto dos 14 anos, pediu para voltar. Em um desfile, conheceu uma produtora de elenco, que o chamou para um comercial. “Eu fazia figuração, mas tinha um cara que falava. Perguntei: ‘Como faço para ser aquele cara?’. Eles indicaram que era só para ator. ‘Mas qual a diferença, também sei falar, me põe aí, pô’”, disse. Foi atrás de um curso de teatro e se apaixo- nou. Nessa época, O Auto da Compade- cida (2000), longa de Guel Arraes com Matheus Nachtergaele e Selton Mello, era sucesso de bilheteria. “Esse filme me fez querer ser ator, tinha vontade de tirar riso das pessoas”, conta.
No cinema, depois de rodar Por trás do Céu (2016), de temática sertão, foi convidado pelo cineasta Johnny Araújo para ser o Marcelo D2 em Legalize Já, lançado em 2018. “Pensei: esse cara tá maluco de me chamar para fazer um cara extremamente carioca e diferente de mim.” Emagreceu dez quilos, morou no bairro do músico, criou uma banda e trabalhou no camelódromo. “Sempre faço coisas que colocam o meu corpo em situações do personagem. Esse é o ofício do ator, ser o que você não pode ser.” Adepto dos esportes, sempre pôs o corpo para trabalhar: joga basquete e futebol uma vez por semana. “Talvez eu seja o mais antigo dessa pelada, vou há 13 anos, na Barra. E sempre treinei basquete com atores: José Loreto, Rômulo Estrela, Thiago Lacerda, Jorge de Sá”, revela.

 

Casaco e calça GIORGIO ARMANI — Camiseta LIBERTY ART BROTHERS — Na mão esquerda: no dedo médio, anel LIBERTY ART BROTHERS; no anelar, anel SKULL — Óculos POLO RALPH LAUREN — Alpargata GIORGIO ARMANI

 

Hoje, aos 32 anos e estudante do quinto período de história, comemora a participação em um projeto baseado na obra de Ariano Suassuna e com roteiro do pernambucano João Falcão. O Riso do Ariano tem previ- são de estrear no segundo semestre, assim como Macabro, um thriller de suspense policial, de Marcos Prado, em que vive o protagonista, um policial do Bope. Além desses dois longas, gravou o doc-ficção O Corpo É Nosso, da cineasta Theresa Jessouroun, de temática feminista. “Tenho a função de exemplificar o machismo e, mais uma vez, é um grande serviço”, diz ele, que reviu comportamentos nos últimos anos. “Combato meu machismo olhando para os lados, ajudando os outros a perceber. Se estou numa roda de amigos e alguém faz uma brincadeira, falo: “Olha esse machismo aí, para com isso’. Se o cara fala ‘foi mal’, o assunto morre. Mas, se diz ‘ah, que besteira’, pego pesado, digo que a cada cinco minutos uma mulher é vítima de violência no Brasil. Faço a minha parte justamente por saber que fui criado de forma muito machista, como quase toda família brasileira, principalmente no Nordeste”, diz. “Mas a liberdade que meus pais me deram de conhecer o mundo fez com que eu conseguisse entender da onde vim e para onde quero ir.”
Uma olhada nas imagens de sua conta no Instagram basta para ver que Renato já esteve em muitos lugares – viajar e fotografar é uma de suas paixões. Entre os destinos internacionais, Londres, Nova York, Amsterdã, Barcelona, Copenhague, Arizona, Los Angeles, Bariloche, Machu Picchu (“um dos lugares de mais energia em que já estive”). No ano passado, se mandou para a Califórnia com a então namorada – agora, noiva – a atriz Thaila Ayala, para assistir de perto a uma etapa do WSL, o campeonato mundial de surf, que acompanha desde que os brasileiros ganharam destaque. “Sou viciado em assistir. Fui à etapa que aconteceu no rancho onde o Kelly Slater fez uma piscina de ondas artificiais”, conta. “Realizei um sonho duplo: vi o surfe e assisti a um show do Blink-182, minha banda preferida da juventude. Foi inacreditável.”

 

Carol Sganzerla

Há mais de 15 anos, a jornalista paulistana Carol Sganzerla foi diretora de redação da revista Tpm, tem passagens pelas Harper’s Bazaar, Revista GOL e Carbono Uomo. Já colaborou com produção de conteúdo para veículos customizados como Personnalité, Revista da Faap, Audi Magazine, Natura e Corriere Fasano. Atualmente, é editora contribuinte da Marie Claire.

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