Lifestyle

Cabeça Feita

Paulo Amaral, dono da marca Joe King, produz, à mão, capacetes disputados por motociclistas do mundo todo

por Piti Vieira 25 Mai 2017 12:46

Escondida atrás de uma fachada toda negra, dentro de uma galeria térrea embaixo de um prédio na Avenida Santo Amaro, zona sul paulistana, está uma oficina que produz alguns dos capacetes mais cobiçados do planeta. É ali que o paulistano Paulo de Tarso Amaral, 37 anos, finaliza as peças de sua marca, a Joe King. São fabricados por mês, em média, 100 capacetes estilo anos 1960 feitos inteiramente à mão. O valor começa em R$ 700 e vai até R$ 2 mil. Os países que mais compram são EUA, Canadá, Reino Unido, Bélgica, Alemanha e Brasil. “A ideia inicial não foi montar um negócio, mas fazer um capacete para mim, porque eu não conseguia achar um pequeno e bom. Nunca quis que virasse um business e duvidei muito da minha capacidade, mas virou o que virou”, conta ele.

Tudo começou em 2007, quando os amigos Ara Vartanian, joalheiro, e Daniel Klajmic, fotógrafo, pediram para Paulo fazer capacetes para eles também. Empolgado, resolveu postar na internet suas produções, mas elas não foram bem aceitas e acabaram sendo chamadas de porcaria. Mesmo assim, Paulo foi em frente e batizou a marca de Joe King. “Sempre gostei de tocar guitarra e amava AC/DC. Diz a lenda que quando Bon Scott, o primeiro vocalista da banda, morreu de overdose, em Londres, em 1980, ele estava com um traficante de drogas que teve de socorrê-lo. Esse cara precisou assinar a entrada do Bon no hospital e o fez como Joe King, um trocadilho para ‘joking’ (brincadeira). Como gosto de humor negro, quando li essa história decidi que se um dia eu tivesse uma marca ela ia ter esse nome.”

Em 2008, depois da flopada de seus capacetes na internet, aconteceu o São Paulo Moto Festival, exposição de motos no autódromo de Interlagos, em que outro amigo, Chrys Miranda, dono da Garage Metallica, oficina especializada em Harley-Davidson, participou e levou uns capacetes da Joe King para expor. No evento, Russell Mitchell, uma lenda do meio, proprietário da Exile Cycles, que customiza motos para o mundo todo, viu os capacetes e se apaixonou por eles. Acabou por ganhar um de presente. Passada uma semana, Paulo mandou um e-mail para o britânico se apresentando e Mitchell encomendou mais dez. Em seguida, ele recebeu outro e-mail que dizia mais ou menos assim: “Não sei se você me conhece, sou Adam Levine, vocalista do Maroon 5, eu queria um capacete”. “Eu estava de pijama no meu quarto, com meu cachorro e respondi: ‘Claro, nossa empresa vai atendê-lo’. Eu não tinha nada. Por causa desses clientes, todo mundo começou a achar legal os meus capacetes.”

Nos anos seguintes, os capacetes da Joe King foram comprados por ninguém menos que os atores Brad Pitt, Rob Lowe e Norman Reedus, o Daryl da série The Walking Dead, e alguns membros de bandas como Guns N’ Roses, Motörhead, Queens of the Stone Age e Lynyrd Skynyrd. Paulo, que fez o molde do casco, tem um especialista em fibra de vibra de vidro e três pintores que trabalham para ele full time. Quem fabricava o forro no começo da produção um dia desapareceu. Então ele precisou aprender na marra como fazer. “Foi bom, porque me envolveu mais com o produto e deixou uma assinatura bem pessoal. Minha mãe também ajudou por muitos anos. Hoje, ela até faz alguns, mas eu tenho dois costureiros para quem terceirizo a costura, e a montagem final, numerada, sou eu quem faz. Estou no número 3.350 e poucos.”