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A visão empreendedora de Thiago Bernardes

Uma entrevista com o mais badalado dos arquitetos cariocas

por Athena Advisers 30 Nov 2017 13:26

Escondido em uma rua tranquila do Rio de Janeiro, a poucos quarteirões de um dos jardins botânicos mais icônicos do mundo, fica um bangalô colonial emoldurado por palmeiras imperiais centenárias que se elevam aos céus. Passe por lá em uma sexta à tarde, quando músicas da Bossa Nova ecoam nas paredes, e você certamente será tomado pela sensação de que ali se encontra a encarnação máxima do bohemian chic tropical, aquela marca de design especial que o Brasil parece emanar sem esforço e que o resto do mundo tenta recriar. No entanto, esta não é uma casa particular, é o estúdio de Thiago Bernardes, um dos principais arquitetos contemporâneos do Brasil. Independentemente de seus ciclos econômicos e políticos, quando se trata de arquitetura e design, o Brasil continua inabalável em seu domínio global e Bernardes é um nome reconhecido. Filho e neto de dois dos arquitetos mais famosos do país, Sérgio e Claudio Bernardes, a posição de Thiago nos anais da magnificência arquitetônica foi selada com sua concepção revolucionária do MAR, o Museu de Arte do Rio de Janeiro, um edifício tão evocativo e simples quanto inovador e contemporâneo. Construído em parceria com o ex-sócio de seu pai, Paulo Jacobsen, o MAR se transformou rapidamente em um símbolo global da revitalização da área do porto da cidade, em preparação para as Olimpíadas de 2016. Enquanto o Brasil enfrenta mais uma ciclo de crescentes desafios sociais e econômicos, Thiago compartilha sua visão sobre sair da sombra de sua família, a verdade por trás da arquitetura sustentável e como ele acredita que a arquitetura pode influenciar a maneira como vivemos.

Nascido na família de dois dos arquitetos mais iminentes do Brasil, você já pensou em trabalhar com alguma outra coisa?
Eu digo que queria ser um biólogo marinho, mas desde que me entendo por gente, estava rodeado pela arquitetura, pelo maneira como meu pai e meu avô olhavam a terra e o modo como as pessoas viviam nela. Olhando para trás, a arquitetura já tinha me prendido e não havia escapatória. Estava escrito. Para ser sincero, tentei fugir, principalmente porque tinha medo da minha relação com o meu pai e meu avô, de ficar à sombra deles. Para muitas pessoas, eu fui privilegiado por ter nascido nesta família de grandes arquitetos, mas esta era a parte mais difícil, como me encontrar diante da grandeza deles, construir meu próprio nome independentemente deles.

Então como você fez isso?
Eu comecei muito cedo, aos 17 anos, e pouco depois de começar a trabalhar abri meu próprio escritório, aos 19. Ao invés de aproveitar as oportunidades que surgiram por causa deles, eu as evitei na tentativa de traçar meu próprio caminho.

O que você aprendeu com eles?
Eles são duas pessoas muito diferentes. Meu avô era muito mais do que um arquiteto, para ele, a arquitetura era uma maneira influenciar os desafios políticos, sociais e ambientais que o Brasil enfrentava naquela época. Ela proporcionou a ele uma plataforma, uma voz por meio da qual as pessoas começaram a escutá-lo. Em comparação, meu pai era arquiteto na década de 80 e 90, durante uma das épocas mais difíceis do Brasil, quando o país estava em crise, então seu trabalho era muito focado internamente no Brasil. Depois de sua morte, os avanços na comunicação fizeram com que a arquitetura brasileira de repente voltasse ao cenário mundial. Aprendi muitos com ambos, cada um possuía uma relação muito especial com o modo com que viam o mundo. Eles acreditavam que a arquitetura pode trazer mais felicidade e bem-estar, e é uma maneira para que as pessoas sintam uma maior conexão com o mundo. Eles acreditavam que a arquitetura pode inspirar as pessoas a se abrirem. A arquitetura não está relacionada somente à estética, claro que precisa ser funcional e racional, mas também surge de dentro pra fora e esta é uma visão que compartilho com eles.

Atualmente, o Brasil está enfrentando um momento difícil, tanto economicamente quanto politicamente. Você acredita, como seu avô, que a arquitetura tem um papel a desempenhar nisso? Você acha que a arquitetura pode mudar o mundo?
Sozinha, não acho que possa. Dito isso, acredito que a arquitetura tem o potencial para fazer uma grande diferença, pois permite que as pessoas reinventem como elas podem viver juntas em harmonia. Porém, isso precisa de apoio político e econômico para que a mudança seja duradoura. Meu avô aprendeu isso da forma mais difícil: ele tentou mudar a sociedade através da arquitetura e, quanto percebeu que não podia, ele a deixou para trás e se envolveu mais na política.

Qual o trabalho que você está fazendo no momento que mais lhe inspira?
Estamos trabalhando em muitos projetos ao mesmo tempo, de imóveis residenciais a projetos públicos, e é isso que mantém o estúdio ocupado. Porém, o projeto no qual estou mais concentrado, que mais me inspira, é uma mini cidade que estou desenvolvendo perto de Paraty, uma antiga colônia de pescadores situada na costa entre o Rio de Janeiro e São Paulo. No momento, ela só está no papel, ainda não se tornou real, mas é minha visão sobre uma nova maneira das pessoas viverem no Brasil. O modo como as pessoas estão entulhadas em cidades como o Rio e São Paulo e a qualidade de vida que aturam não é mais sustentável. Com esta mini cidade, quero mostrar a elas que existe uma maneira diferente de se viver em comunidade e se conectar com a terra, uma maneira de escapar dos excessos de consumo da sociedade moderna. Estou trabalhando com diversos especialistas, analisando tudo, de educação a disposição de lixo. Temos uma enorme injustiça social no Brasil e também temos uma enorme quantidade de terras. Não faz mais sentido as terras estarem divididas em grandes propriedades privadas: precisamos usá-las de uma forma diferente. Porém, não posso fazer isso sozinho. Este projeto perto de Paraty é o primeiro passo, mas, na verdade, o projeto não tem limites. Se for bem sucedido, pode ser replicado em qualquer área rural do Brasil.

Seu estilo arquitetônico é conhecido em todo o mundo por sua integração com a natureza. Você se identifica com um estilo específico quando se trata do seu trabalho?
Cada projeto com o qual eu trabalho tem sua própria evolução, sua própria alma. Nunca há um conceito ou estilo definido, mas cada um é desenvolvido em relação a forma que ele se encaixa no terreno onde está localizado. Eu adoro trabalhar assim. Quando estou trabalhando em um novo projeto, não consigo dormir pensando nos diferentes materiais, estilos e tecnologias que poderiam funcionar. Eu evito as modas e tendências, que dão à arquitetura uma vida útil curta. O que mais me preocupa é como podemos usar a tecnologia para minimizar o impacto no terreno.

Você diria que seu estilo de arquitetura é particularmente ecológico? Quais são as práticas sustentáveis mais avançadas que você recomenda que as pessoas adotem no que se refere à construção?
Uma moradia sustentável ou ecologicamente correta não diz respeito tanto aos materiais utilizados, mas à inteligência que você emprega quando se trata de construção. A coisa mais importante é integrar a arquitetura ao ambiente natural e não o contrário. Por exemplo, você posiciona as janelas e as paredes de modo que proporcionem um isolamento natural para que não seja necessário ar-condicionado. O que mais me interessa atualmente é como construir com o menor impacto possível no terreno, então estamos analisando novas formas de construção a seco, onde fazemos muito do processo fora do local da obra e portanto causamos pouco impacto no meio-ambiente ao redor. Quando desenvolvemos um projeto, não pensamos nele apenas artística e conceitualmente, mas pensamos em quem vai construí-lo e como. Como arquitetos, esta é nossa responsabilidade.

Como foi projetar o MAR?
Foi um projeto muito especial que surgiu de uma série de desafios de como transformar dois prédios abandonados que possuíam estilos tão diferentes em um único museu. O resultado estava intimamente relacionado com a consideração de como o fluxo de pessoas iria fluir através dos edifícios. Queríamos que a experiência começasse de cima, para que as pessoas saíssem do elevador e vissem o Morro de Conceicão, o morro onde o Rio foi criado. Primeiro fizemos o terraço que conecta os dois edifícios abaixo plano, mas ficou feio, parecia a rodoviária. Então o plástico derreteu e assumiu este aspecto curvo. Isto se tornou a terceira peça do quebra-cabeça, o que o define.

Você trabalha muito com clientes particulares, como você descreveria seu processo criativo?
É muito silencioso e introspectivo. Eu olho o terreno e interpreto o seu passado, sua história e o que ele precisa, o que está pedindo, eu leio o vento e o sol. Isto fica na minha mente e não consigo dormir, então começo a desenvolver o projeto. Eu escuto o terreno e encontro um equilíbrio entre o que ele precisa e as necessidades do cliente. Quanto mais desafios e problemas o terreno traz, mais bacana fica o projeto. É assim que as coisas precisam ser criadas. O projeto mais difícil para mim é um terreno plano sem desafios ambientais! Já houve clientes que viram projetos meus e pediram para que eu criasse algo parecido para eles, mas, como explico, não é assim que funciona! Precisa fazer sentido! eu tenho que continuar desenvolvendo e adaptando o projeto e os materiais para cada realidade individual, é isso que agrega valor.

O que mais lhe inspira?
Os desafios do terreno e o desejo de criar uma arquitetura que traz um sentimento duradouro de paz. É isto que eu quero que meu legado seja, criar projetos que inspiram as pessoas a sentir uma profunda sensação de paz. Eu quero que meu escritório seja um local de pensamento criativo. Eu não trabalho sozinho, mas com uma equipe de pessoas incrivelmente talentosas, cada um com sua personalidade própria e seu próprio ego. Então, meu trabalho é equilibrar os egos de todos e fazer o que é melhor para o grupo. Adoro trabalhar com pessoas sinceras, humanas, claras e diretas. Acredito na energia das coisas, em como ela fluiu e no que as pessoas sentem. O que criamos para os clientes vem da energia da nossa equipe como um todo e as pessoas sentem isso, mesmo que não possam vê-la. Não sou mais do que os arquitetos com os quais trabalho e nunca quero ser.

Athena Advisers

Investimento, propriedades e lifestyle. A Athena Advisers é uma consultoria boutique especializada em propriedades high-end em Lisboa, Barcelona, Côte d’Azur, Alpes, Paris e Londres. A agência foi uma das primeiras a fincar bandeira na capital portuguesa prevendo o boom imobiliário que faz da cidade o novo eldorado do real estate internacional.