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A revolução financeira fora dos bancos

Conheça o universo das fintechs, as startups de financial technology que vêm mexendo com os donos do dinheiro

5 Out 2016 09:59
Pedro Franceschi e Henrique Dubugras, da Pagar.Me

Quando os serviços de internet banking surgiram no Brasil, na década de 1990, a ordem era esquecer as agências bancárias. Afinal, não era mais preciso sair de casa para realizar tarefas corriqueiras, como transferências e pagamento de contas. Vinte anos se passaram, e agora não são apenas as agências que correm o risco de ficar obsoletas, mas, sim, todo o universo das finanças – pelo menos tal qual o conhecemos.

A revolução já começou, e por trás dela estão as fintechs, apelido das startups de financial technology. São pequenas empresas, muitas delas funcionando por meio de aplicativos, que pretendem fazer com as finanças o que o Uber fez com os transportes e o WhatsApp com a comunicação móvel. “Aquilo que entendemos como banco reúne uma série de produtos e serviços que não necessariamente precisam ser vendidos por um banco”, diz Pedro Waengertner, CEO da incubadora Aceleratech e professor de marketing digital na ESPM.

Um dos maiores símbolos desse fenômeno em todo o mundo é o bitcoin, moeda virtual criada em 2009. Mas o campo das fintechs vai além e inclui soluções para empréstimo, seguros, gestão financeira, contabilidade, investimentos e pagamentos, apenas para citar algumas. Segundo a consultoria KPMG, essas startups receberam US$ 19 bilhões em investimentos no ano passado, praticamente o dobro do registrado em 2014. “Sem dúvida, são as startups do momento”, diz Waengertner.

Exemplos de fintechs não faltam no Brasil. O caso de maior sucesso é o da Nubank. Lançada em 2014, a empresa que oferece cartão de crédito sem anuidade ou burocracia já contabiliza mais de 500 mil usuários, enquanto seu valor de mercado chega perto de R$ 1 bilhão. “O setor bancário brasileiro é bastante evoluído em termos de tecnologia, mas muito concentrado. Além disso, os bancos se tornaram gigantes e se distanciaram do cliente, principalmente da nova geração”, diz Pedro Conrade, fundador e CEO do Controly, que oferece cartão de crédito pré-pago e permite transferências de dinheiro via Facebook.

De fato, para quem já nasceu brincando com o celular, como a geração Y (ou millennials), até mesmo o internet banking pode parecer jurássico. Algumas instituições financeiras já perceberam esse movimento e, em vez de competir com as fintechs, estão juntando-se a elas. É o caso do espanhol BBVA, que em 2014 comprou a americana Simple, espécie de banco virtual, além de outras startups financeiras. A ideia, segundo o BBVA, não é comprar para minar, mas, sim, transformar esses serviços em um braço independente da instituição, livre para continuar operando da forma original. “Seria exagero dizer que os bancos vão acabar. Mas que estamos tomando uma fatia do bolo deles, isso estamos”, diz Conrade. Conheça, a seguir, cinco histórias de fintechs brasileiras que vêm chamando a atenção.

F(X)
A plataforma F(x) – leia-se “efe de xis”– lançada em outubro do ano passado, funciona como um ambiente para a concessão de crédito: de um lado, empresários precisando de dinheiro; do outro, instituições financeiras interessadas em emprestar. “Conversei com muita gente nesse setor e percebi que havia uma ineficiência dos dois lados”, conta Dan Cohen, 41 anos, CEO e cofundador da F(x). Com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro (ele foi sócio da corretora Hedging-Griffo), Dan passou uma temporada nos Estados Unidos, onde teve o insight. “O empresário brasileiro tem pouca informação sobre fontes alternativas de crédito, como os fundos de investimento”, conta ele. A F(x) já reúne mais de 60 instituições financeiras cadastradas e 50 empresas, todas com faturamento anual acima de R$ 30 milhões, um dos requisitos para participar. Um algoritmo ajuda a definir os credores mais apropriados para cada empresa, segundo suas características, e as partes pagam uma porcentagem à startup quando o negócio é fechado. Depois de um aporte da eGenius, a empresa fundada por Dan Cohen vem conversando com possíveis investidores para mais uma rodada de investimentos.

PAGAR.ME
Henrique Dubugras tinha apenas 12 anos quando conseguiu quebrar o código de um game e, com isso, jogá-lo de graça na internet. Já Pedro Franceschi ganhou fama na comunidade nerd por ser um dos primeiros a desbloquear o iPhone 3G no Brasil, antes mesmo de entrar na adolescência. Não chega a surpreender, portanto, que o Pagar.me, gateway de pagamentos criado pelos dois sócios, em 2013, tenha se transformado em case de sucesso no universo das startups brasileiras. A tecnologia, que já tem cerca de 1.500 clientes, faz a ponte entre a loja virtual e os bancos de uma forma, segundo Henrique, mais eficiente do que a concorrência. “Além de um sistema antifraude mais inteligente, a gente tem algumas funcionalidades típicas para o mercado brasileiro, como o recebimento parcelado”, diz o paulista de 20 anos. A ideia parecia tão promissora que, antes mesmo de colocá-la em prática, os sócios conseguiram um investimento de R$ 1 milhão dos fundos Arpex e Grid. Um ano depois, a plataforma já operava no azul. Engana-se, porém, quem imagina uma trajetória sem dificuldades. “É complicado entrar em um mercado dominado por gigantes, como no caso do setor bancário”, diz Henrique. “Essa é uma dificuldade inerente à maioria das fintechs, pois sempre vamos depender de uma instituição financeira lá na ponta.”

ZEROPAPER
É comum associar as startups a uma ideia genial. De fato, a maioria dessas empresas surge a partir de uma proposta original e criativa. Mas nem sempre é assim. Que o diga o brasiliense Arley Moura, de 32 anos. Em 2012, ele e dois colegas decidiram criar um software de gestão financeira e chegaram a se mudar para o Rio de Janeiro para uma temporada em uma incubadora. Até perceberem que a ideia inicial não fazia muito sentido na prática. A solução? “Saímos literalmente de porta em porta, entrevistando pequenos empresários para entender as dificuldades e as demandas do cliente na vida real”, conta Arley. Com base nessa pesquisa, eles desenvolveram o ZeroPaper, um programa de gestão financeira prático e intuitivo, que funciona baseado na nuvem. No primeiro mês de operação, chegaram a 4 mil usuários. Mas o salto veio mesmo no começo de 2014, quando a americana Intuit, uma das maiores empresas de software do mundo, fez uma proposta de compra da ZeroPaper. “Eles procuravam uma forma de entrar no mercado brasileiro e chegaram à conclusão de que nosso software funcionava como um complemento aos produtos deles”, diz Arley, gerente de desenvolvimento de produto. “No fim das contas, nosso grande diferencial foi ter ouvido o cliente”, diz ele.

CONTROLY
Se a geração dos millennials tem total familiaridade com a internet e os aplicativos móveis, e dificilmente vai a uma agência bancária, imagine o comportamento da geração Z. Nascidos no fim da década de 1990, esses jovens nunca viram o mundo sem internet e já nasceram brincando com um celular. É difícil prever com exatidão o comportamento dessa turma em relação aos serviços financeiros, mas já há algumas pistas por aí. O Controly é uma delas. Para se tornar correntista desse embrião de banco virtual, não é necessário ir a uma agência (nem poderia, pois elas não existem). Basta baixar o aplicativo que o cartão de crédito pré-pago é enviado pelos Correios, sem exigências ou burocracias. Os créditos no cartão podem ser feitos por meio do pagamento de um boleto, e o Controly também permite transferir recursos via Facebook e WhatsApp para outros usuários do aplicativo. “Em breve, quem tiver uma conta no Controly vai poder receber e fazer transferências para qualquer outro banco”, conta Pedro Conrade, fundador e CEO da startup, que já tem 10 mil usuários e recebeu um total de R$ 15 milhões em investimentos desde que entrou em operação, no fim de 2014. “É difícil entrar na disputa com os bancos, mas nós temos agilidade e podemos arriscar mais”, completa o empresário de 24 anos.

MAGNETIS
Ações, renda fixa, tesouro direto e poupança costumam figurar entre as opções de investimento mais lembradas pelos brasileiros. Mas esse universo é muito maior e inclui milhares de alternativas, com características para diversos perfis de investidor. Como definir a melhor delas? A resposta pode estar em um robô. É assim que funciona a Magnetis, startup criada, em 2012, pelo empresário Luciano Tavares, 41. Ao se cadastrar, o usuário informa seus objetivos, além da quantia que tem disponível, e um algoritmo vasculha uma base com 11 mil opções de investimentos em busca da carteira que melhor se enquadra em seu perfil. “Esse serviço é gratuito, e o cliente só paga se fizer efetivamente o investimento, o equivalente a 0,4% do montante”, diz Tavares. Periodicamente, a carteira é revista, para assegurar que aquele investimento continua sendo o melhor para o cliente. Outra vantagem da tecnologia, lembra o empresário, é a imparcialidade. “É comum gerentes de banco oferecerem produtos para cumprir suas próprias metas, deixando os interesses do cliente em segundo lugar”, completa ele. No ano passado, a Magnetis recebeu seu primeiro aporte de investimento (o valor não é divulgado), do fundo Monashees Capital.

Texto originalmente publicado na revista Carbono Uomo n° 1