Lifestyle

A real da maconha na Califórnia – Parte 2

Especial conta como a Califórnia mudou após a liberação da cannabis medicinal

por Ricardo Moreno 15 Ago 2016 11:50

Por Eloá Orazem – para o The Summer Hunter
Leia a primeira parte do especial clicando aqui.

Concluído o intensivo jurídico sobre as normas que tentam regular a maconha na Califórnia, fomos às ruas de Los Angeles ver exatamente como as leis se aplicam na prática, da forma mais orgânica possível. Sem qualquer documentação específica, escolhemos uma dispensary em uma área tradicionalmente familiar da cidade, a pacata Woodland Hills. Fomos atraídos por uma placa que nos levou a uma tabacaria, onde todos os produtos ficavam ao alcance dos olhos. Três clientes dividiam a atenção de dois funcionários bastante gentis, que, ao notarem a minha presença, vieram me acolher e explicaram mais de seu negócio: cigarros eletrônicos e vaporizadores para ajudar, gradualmente, fumante a abandonarem seus vícios. Disse a eles que procurava pela erva e fui encaminhada para a casa ao lado.

Dei de cara com um portão fechado, mas avistei uma cruz verde no segundo andar do prédio vizinho, na esquina da rua. Enquanto subia as escadas, vi uma moça de costas, revirando (ou escondendo algo) no fundo da mochila. Mesmo com o barulho da minha passada, ela não se virou para conferir quem chegava.

À prova de balas
Algumas folhas sulfite com avisos aos pacientes foram fixadas na porta que, a julgar pelo peso e espessura, era à prova de balas. Não havia campainha e ninguém parecia atender às minhas batidas insistentes. Virei a maçaneta e pude enfim entrar em um lugar que lembra uma casa de câmbio: do meu lado esquerdo dois sofás “de espera” e uma pequena mesa com panfletos; do lado direito um balcão e uma outra porta blindada. Um vidro separa o público da atendente, que tem ao fundo uma outra porta, por onde podia ver a loja e suas dezenas de potes com maconha. Notando o meu amadorismo, a moça ignora as saudações e questiona logo se aquela é a minha primeira vez ali. Ao ouvir a reposta positiva, ela se apressa a fechar a porta ao fundo, com alguma violência. Digo a ela que não tenho o cartão de paciente, mas que gostaria de fazê-lo, ela é rápida em cortar qualquer conversa e entrega dois panfletos, com o contato de médicos que poderiam assinar a carta de recomendação para deixar o processo todo legal. Ao telefone, sou informada de que a consulta só pode ser marcada mediante a apresentação de um documento californiano válido.

Tento outra dispensary, dessa vez uma das mais caras da cidade, em West Hollywood. Fico surpresa que um comércio considerado sofisticado possa ser tão malcuidado por fora, com muros descascando e sem identificação – apenas a boa e velha cruz verde. Passada uma nova porta à prova de balas, entro em uma sala de espera mais ampla e confortável, com sofás de couro e um quadro do Bob Marley na parede. A cabine tem um vidro fumê e é impossível ver o rosto de quem me atende. Sou novamente impedida de acessar o interior da loja pela ausência dos papéis e, mesmo depois de revelar a minha intenção puramente jornalística, o recepcionista misterioso diz que eu até conseguiria uma receita médica em Venice Beach, mas que seria necessário um documento local para que eu pudesse conhecer pessoalmente as dependências do local.

Sigo suas instruções e vou até um dos pontos mais turísticos da cidade, o calçadão de Venice Beach, que reúne moradores de ruas, artistas, loucos e santos. É uma espécie de Augusta planificada, onde tudo pode acontecer. Passados dois quarteirões e eu dou de cara com uma placa enorme alertando sobre médicos especializados na indicação da cannabis. Um homem de uns 30 e poucos anos preenche uma ficha enquanto sua filha e esposa aguardam sentada. O atendente, que não se esconde atrás de vidros e portas blindadas, garante que mesmo com documentos internacionais eu estou apta a conseguir a receita médica e a comprar maconha por ali. Enquanto sento para preencher a papelada, o rapaz é chamado pelo médico – a filha de dois anos o acompanha na consulta; a esposa espera do lado de fora.

A papelada é bastante simples, pede apenas meu nome completo e faz perguntas do tipo “você realmente tem alguma doença grave? HIV? Câncer? Alguma alergia?”. Na mesma página eles indicam que você está ali por estresse, insônia, falta de apetite e outros – na sequência, algumas linhas em branco são destinadas a quem quer escrever algum outro sintoma, se o tiver.

Depois de assinado, é hora de pagar a conta. O documento com validade para um ano custa US$ 150, que pode ser pago em dinheiro ou cartão. Digo ao rapaz que tenho apenas US$ 120 na carteira e ele aceita o valor mais baixo. Em menos de cinco minutos já estava cara a cara com o médico. Por um tempo ele continua com os olhos colados no computador, onde lê uma matéria no The New York Times e revela seu interesse por notícias diversas pelas abas abertas no navegador.

Finalmente seus olhos azuis me encontram e ele pergunta a minha naturalidade. “Brasil? Onde está seu biquíni? Ouvi dizer que todas as mulheres brasileiras andam de biquíni!” Abri alas para as “piadas” do doutor, que tirava a minha pressão e ouvia a minha respiração. Sem me perguntar nada, ele enfim assinou a minha papelada e, enquanto dobrava o documento, ele fazia um resumão do que considera vital saber: “a planta sativa deixa 8% das pessoas feliz e 20% das pessoas paranoicas e tristes; a indica ajuda a reduzir a dor e o estresse. Não fume no carro, porque se a polícia a parar e sentir cheiro de maconha, alguém ali vai ser preso. Por último, seja discreta”.

Antes de me despedir, peço a indicação de alguma dispensary que aceite me receber sem qualquer documento local e o atendente me encaminha para uma loja bem perto dali, mas não do calçadão. Na caminhada, passo pela famosa Dr. Green, que também vende atestados médicos. Ali os funcionários se vestem todos de verde e as cadeiras de espera estão praticamente todas ocupadas. O processo e o preço é o mesmo da loja anterior.

Driblando a lei
Já que tudo parece uma questão de encontrar a brecha certa na lei, o comércio especializado de maconha conseguiu driblar as regras com algumas palavras bem colocadas. Na Green Goddess, a dispensary indicada pelo médico do calçadão turístico, o cliente é abordado por um segurança logo na entrada, que o questiona, em casos de estrangeiros, os hotéis em que estão hospedados, para que memorizem o endereço exato. A loja fica em um sobrado e é só na parte de cima que toda a comercialização acontece; o primeiro andar é dedicado à recepção. Com exceção dos três seguranças (um na porta, um no térreo e outro no segundo andar), todas as funcionárias são mulheres. Preencho uma ficha dizendo que sei dos riscos do consumo da maconha, de que aquele lugar é uma instituição sem fins lucrativos e garanto, por escrito, que não sou um policial à paisana. Por fim, os clientes sem documento californiano têm de assinar um novo documento declarando que são moradores temporários em Los Angeles e que por um certo período de tempo têm como endereço residencial a rua e o número X (pode ser o logradouro do hotel mesmo). Toda cautela com as palavras preenchem as lacunas da lei, e os dribles acabam com a goleada no “cardápio” de maconha da casa, onde o termo “preço/valor” é substituído por “doação”, que não prevê lucro.

A loja ali lembra uma bomboniere, com centenas de jarras de vidro com diferentes misturas de cannabis. Novata em tudo, sou “guiada” pela budtender (como são chamados os especialistas em maconha) Luna, que coincidentemente acaba de voltar de uma vigem ao Brasil e se declara apaixonada, com a intenção de morar no país já no ano que vem. A moça explica que todas as ervas ali são resultado de misturas de sativas e indicas, e que se atesta a qualidade do produto pela quantidade e transparência de seus “cristais” – é aí que a moça abre um vidro e o coloca sob uma lupa, onde vejo a planta coberta por esses pontinhos brancos que atestam o pedigree da maconha.

Os preços das “doações” variam de US$ 20 a US$ 60 o grama. Comestíveis, óleos e loções estão à venda por preços diferentes, mas ali também eles só aceitam dinheiro. “Nenhuma dispensary aceita cartão porque a maconha não e algo nacional, como são os bancos, então só podemos aceitar dinheiro e é por isso que contamos com seguranças ou portas e vidros blindados”, explica Luna.

Sem desconfiar da minha enxurrada de perguntas, ela ainda me leva até a prateleira onde comercializa os produtos que ela mesma cultiva em seu jardim. Com embalagens que lembram as caixas metálicas de balas finas, as ervas cuidadas por Luna são orgânicas e trazem misturas ousadas, com limão e frutas vermelhas. Ao nariz, não sinto grande diferença das demais.

Peço um cartão da moça e acho curioso que não tenha seu nome, telefone ou email – apenas o endereço de sua “marca” nas redes sociais: Instagram, Facebook e Pinterest. Nas mídias digitais, a moça se mostra bastante discreta quanto ao uso das palavras e não planfeteia a venda da maconha, que seria ilegal – apenas se pode comprar a erva em lojas autorizadas e especializadas; o comércio da maconha por pessoas físicas é crime grave. Doação idem.

Depois de matada algumas curiosidades, ainda tenho aberta algumas perguntas, e uma das mais importantes dela é justamente essa: onde estão os grandes produtores da ganja?

Na próxima semana:
Onde vivem os monstros

Ricardo Moreno

Ricardo já publicou seus textos em jornais, sites e revistas como Wallpaper*, Wired Itália, El País, Freunde von Freunden, GQ, Playboy e Folha de S.Paulo. Foi diretor da Galileu e Band Outernet, editor de mídias digitais da MTV e Trip. É fundador do The Summer Hunter, e atualmente também trabalha como correspondente da revista Monocle.

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