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A hora e a vez de empreender

Camila Farani, um dos principais nomes do investimento no Brasil e jurada do programa Shark Tank, fala sobre as dificuldades e os prazeres de fazer parte da cultura empreendedora do País

8 Nov 2017 11:34

Por Andressa Basilio

Aos 35 anos, a carioca Camila Farani é especialista em identificar boas oportunidades de negócio. Conhecida como uma das juradas do programa Shark Tank Brasil – Negociando com Tubarões, exibido pelos canais Sony e Band, ela é a primeira mulher a presidir o tradicional grupo de investidores Gávea Angels, já investiu em 25 startups e deu suporte e mentoria a mais de mil mulheres por meio do movimento MIA (Mulheres Investidoras Anjo), do qual é cofundadora. Antes de completar a maioridade, já ajudava a mãe na tabacaria da família. Aos 23 anos, comandava a própria empresa e, aos 26, tinha quatro negócios. A experiência lhe trouxe olhar apurado sobre o mercado, que está, segundo ela, cada vez mais favorável ao empreendedorismo. “Mas é um exercício constante de resiliência, coragem e bravura para absorver os ‘nãos’ e seguir acreditando em um propósito maior”, declara. Em um bate-papo com Carbono Uomo, ela fez um panorama do mercado e ofereceu dicas valiosas para quem pretende abrir o próprio negócio.

Carbono Uomo
Você começou a empreender numa época em que o mercado não era tão favorável a esse tipo de iniciativa. Quais mudanças nota de lá para cá?

Camila Farani
Nunca houve tanta oportunidade para empreender! Hoje existem cursos que ensinam a erguer o próprio negócio, há todo um ecossistema de startups espalhado pelo País, como as comunidades de troca de informação e apoio cariocas, no Rio de Janeiro, e o San Pedro Valley, em Belo Horizonte. Isso sem contar a quantidade de aceleradoras e investidores que estão surgindo. Há dez anos, nada disso existia. A tecnologia passava por uma evolução e as pessoas não tinham mentalidade de criar algo próprio, erguido do zero.

Carbono Uomo
Todo mundo pode ser empreendedor?

Camila Farani
É preciso ser persistente, estudar muito, ter vontade de aprender sempre, olhar os concorrentes, estudar estratégias diversificadas e se manter atualizado em seu campo de atuação. Mas o principal mesmo é acreditar no que se faz. Não precisa ser algo novo, desde que seja feito de um jeito novo. Ao meu ver, inovação se relaciona com trazer soluções para problemas cotidianos, trazer mudanças ao que já vem sendo feito.

Carbono Uomo
Fundar uma startup parece ser um grande objetivo dos mais jovens. Você acredita que isso vem de um descontentamento com os arranjos de trabalho mais tradicionais?

Camila Farani
Eu acredito que os jovens de hoje têm mais vontade de fazer algo relevante, de mudar o status quo e resolver as dores da sociedade. Vejo que a nova geração entende que os líderes atuais são grandes empreendedores, como Mark Zuckerberg, do Facebook, e Reid Hoffman, fundador do LinkedIn. Mas é importante saber que empreender não é esse glamour todo que se prega, não trará maior flexibilidade e tampouco mais tempo livre. Abrir um negócio é ter responsabilidade permanente. Além disso, é exercício constante de resiliência, coragem e bravura para absorver os muitos ‘nãos’ que se ouve pelo caminho e, mesmo assim, seguir em frente.

Carbono Uomo
Quando decidiu virar investidora-anjo?

Camila Farani
Foi em 2011 que decidi virar investidora-anjo. Quando um amigo me convidou para um encontro no Gávea Angels e eu me apaixonei pela gratificação que dá em ver ideias e projetos que podem impactar e gerar receita de forma consistente e que promova algum tipo de mudança na sociedade.

Carbono Uomo
O que você procura em uma startup antes de investir?

Camila Farani
Eu sempre considero a experiência do empreendedor e avalio se o negócio é escalável, replicável e para quem ele pode ser vendido. O ideal é começar com empreendedores que já tenham mais vivência de mercado, sejam elas positivas ou negativas. Também avalio se o negócio está dentro da área de interesse do empreendedor, pois assim as inserções terão mais impacto. Os riscos estão presentes em qualquer investimento, mas para minimizá-los é importante ter controle da ansiedade e não agir por impulso. Um investidor- anjo analisa umas dez startups num primeiro momento, procura obter o máximo de informações de cada uma, questiona, estuda o negócio em todas as suas vertentes. Só então toma uma decisão.

Carbono Uomo
Pelas estimativas da Associação Brasileira de Startups, 80% delas não sobrevivem ao chamado Vale da Morte (termo que identifica a dificuldade dos negócios em ganhar tração e ter caixa para segurar períodos de pouca entrada de dinheiro, no início das operações). Na sua visão, quais são as maiores dificuldades enfrentadas pelas startups brasileiras?

Camila Farani
Primeiro é achar que tem um negócio porque tem uma ideia boa. É preciso identificar uma oportunidade, acima de tudo. Sem ela, nem a melhor das ideias consegue ter sucesso. Além disso, empreendedores acreditam que ser o pioneiro garante o negócio. Na verdade, lançar algo que já existe pode ajudar bastante a não cometer falhas de um iniciante. Outro erro comum é não estudar o mercado. Por conta da ansiedade em lançar o produto, abrem-se brechas para startups improvisadas, sem a experiência necessária para conduzir os negócios.

Carbono Uomo
Por que decidiu criar o MIA (Mulheres Investidoras Anjo)?

Camila Farani
A vivência nesse meio fez com que Ana Fontes (da Rede Mulher Empreendedora, uma plataforma de apoio ao empreendedorismo feminino), Maria Rita Spina Bueno (da entidade de fomento ao investimento-anjo Anjos do Brasil) e eu sentíssemos falta de mais investidoras-anjo no mercado. Pesquisamos e descobrimos que mulheres investem mais em outras mulheres e tendem a dialogar mais com produtos voltados ao público feminino. Assim, fundamos o MIA, em 2014, com o objetivo de ajudar mais mulheres a criarem negócios inovadores e ter um impacto relevante em todo o ecossistema de startups.

Carbono Uomo
Você acredita que as mulheres ainda sofrem com a falta de espaço no empreendedorismo?

Camila Farani
Eu não costumo falar em sexismo, sobretudo no âmbito empreendedor. Acho importante destacar o crescimento do número de mulheres que estão empreendendo, sem contar a ascensão em cargos de gerência em empresas de grande porte. O mercado nunca esteve tão receptivo às mulheres e isso é o que devemos celebrar.