Lifestyle

A Hora do Chay

Chay Suede cresceu em uma família evangélica e escutava punk rock escondido da mãe. Hoje, aos 24 anos, tem seu primeiro papel como protagonista de uma novela da Globo

por Artur Tavares 29 Jun 2017 12:22

De óculos de sol Ray-Ban hexagonal, cabelo encaracolado despenteado, sandálias brancas nos pés, Chay Suede desembarca no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, na manhã de domingo e logo é abordado por um fã, que pede uma foto. Protagonista da novela das seis Novo Mundo, que estreia em março na Rede Globo, ele não tira o sorriso do rosto. Sabe que a rotina de fotos e assédios só deve melhorar em meados de setembro, quando o folhetim de época terminar. Está gravando a vida do herói Joaquim Martinho sem parar desde 2 de janeiro, durante seis dias da semana, com folgas apenas no domingo. Foi assim que, depois de sete anos, reencontrei-me com um garoto de brilho cativante, olhares curiosos, um desejo de expressão sem fim.

Conheci o ator muito jovem – ele e eu –, quando cobria música na MTV. Chay era habitué dos corredores, galã de uma geração de grupos musicais coloridos, comandante da banda fictícia Rebeldes. A imagem que minha memória guardava era de um garoto tímido, carinha de anjo, com pouco a dizer. Mesmo assim, seu talento para a música e a atuação era visível, bastante comentado na emissora que depois lhe deu um programa próprio, A Hora do Chay. Espantou-me vê-lo praticar ativismo político (ainda que discreto) em suas redes sociais, e muito mais comandar com segurança impecável o ensaio de moda que você vê nestas páginas.

Novo Mundo, novela dirigida por Vinícius Coimbra e escrita por Alessandro Marson e Thereza Falcão, coloca Chay, aos 24 anos, no papel de um arlequim circense, participante da commedia dell’arte, muito comum no teatro popular desde a Idade Média. Convidado para se apresentar na festa de despedida da princesa Leopoldina antes de ela vir para o Brasil se casar com Dom Pedro I, o personagem Joaquim Martinho se envolve em uma confusão e acaba no barco da realeza, onde conhece Ana, dama de companhia da monarca, papel de Isabelle Drummond. Mais desventuras, uma batalha com piratas, e Martinho é separado da amada e resgatado por uma tribo indígena no Sul da Bahia.

Ele, que já interpretou o filho de um casal de lésbicas em Babilônia, conta que foi a temática arenosa que fez com que aceitasse seu papel recente. “Por ser uma novela das seis, há um limite de temas e profundidades. Mesmo assim, o assunto mais importante de Novo Mundo é algo que até hoje não está resolvido, a demarcação das terras indígenas, a discussão de qual seria o ideal de vida para povos em contato com brancos que querem manter suas origens, mas não podem, não conseguem, e acabam desistindo. É exatamente o que acontece há anos, muito antes da data de 1817, quando se passa a novela, e que perdura até muito depois.” Não é da boca pra fora, conversa para cativar jornalista. Chay tem o mapa do País tatuado em seu braço direito. “Sou completamente apaixonado por tudo que o diz respeito a este território que hoje conhecemos como Brasil, mas que tem muito mais de 500 anos e muito mais importância histórica do que as pessoas letradas conhecem. O Brasil tem uma origem muito profunda e mágica. Os povos indígenas têm uma origem migratória muito mais radical do que as navegações europeias. Isso sempre me tocou muito, e acho que só estou fazendo a novela porque já era um assunto importante para mim.”

Nascido em uma família ativa na comunidade Presbeteriana de Vila Velha, no Espírito Santo, Roobertchay Domingues da Rocha Filho aprendeu a cantar dentro de casa, acompanhando os pais e irmãos nos louvores cotidianos. Hoje, sua playlist vai da Jovem Guarda ao nigeriano Fela Kuti, passando pelo fino da música eletrônica atual e até quilombolas brasileiros. “Em casa escutávamos só música evangélica. Meu pai comprava discos de MPB escondido da minha mãe. Era uma família muito religiosa, que hoje se abriu para a música e para a arte. Mas, na minha infância, houve muitas restrições.”, lembra. “O grupo Vencedores em Cristo, muito famoso nos anos 1960 no circuito cristão, tocava a toda hora dentro de casa. Com 13 anos, comecei a me abrir. Conheci Offspring e me apaixonei. Também ouvia escondido da minha mãe, mas fui descobrindo bandas de punk evangélico americanas, como MxPx e POD, e ela deixou de implicar tanto. Como as letras eram inglês, eu misturava tudo, ela não entendia nada e deixava estar.”

Depois de Novo Mundo, Chay estará no cinema como Erasmo Carlos na cinebiografia Minha Fama de Mal, além do filme O Banquete. Ele lamenta não estar tocando com sua banda, Aymoréco – uma homenagem engraçada à tribo Aymoré, “bastante perseguida por brancos no início do século 20”. Canceriano clássico, como se define, prefere dedicar o pouco tempo livre a sua casa, seus cachorros e sua namorada, a atriz Laura Neiva, a quem ele chama carinhosamente de Laurinha. Ela, tão carinhosa quanto ele, cobria de elogios as fotos desta Carbono em trocas de mensagem no WhatsApp, ainda durante a realização dos retratos. Do pouco que Chay me deixou ler, era algo como: “Mais lindo do que nunca. Gostoso. Amei.” Um tanto encabulado, ele revela: “Descobri que quanto menos nos você tenta parecer bonito, mais fica.”

SOBRE ROMANTISMO E EMOTIVIDADE
“Não tenho certeza se ser um cara emotivo ajuda na atuação. Acho que atrapalha, pela cobrança pessoal. Para mim, é tudo
muito intenso, profundo, sério. Em casa, me esforço para manter o romantismo da maneira mais natural possível. Se não é assim, a Laurinha até ri da minha cara. Naturalmente sou romântico. Não é algo que preciso pensar muito.”

SOBRE CANTAR E ATUAR
“Foi um aprendizado muito lento, muito orgânico e pouco cerebral. Com os Rebeldes, não gostei de ser ator. A experiência valeu mais por motivos profissionais do que artísticos. Talvez porque a experiência artística não estivesse presente, não fosse importante lá. Era uma coisa plástica, enlatada e controlada. A princípio, detestei o que significava ser um ator, mas depois percebi que ser ator era tudo, menos aquilo. E então me interessou muito.”

SOBRE BELEZA
“Não tenho nenhum cuidado com a pele. A Laurinha nunca usa maquiagem, por isso cuida muito bem da pele. Ela tem várias coisinhas, sabonetinhos, adstringentes… Comecei a usar porque compartilhamos o mesmo banheiro. Confesso que lavo o rosto com sabonete próprio há coisa de um mês.”

SOBRE SUAS TATUAGENS
“A primeira tatuagem que fiz foi na costela, Amor/Humor, poema de Oswald de Andrade. Escrevi Here no coração pensando nesta outra do braço, Not Here, junto com a cruz. Acredito que Cristo ressuscitou no terceiro dia e que ele é filho de Deus. Então, a cruz vazia simboliza isso. Here no coração é porque, por meio do Espírito Santo, Ele vive em mim.”

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.