Gastronomia

Uma visita ao Factório

Misto de bar, café e restaurante onde você pode tomar um delicioso desjejum o dia todo

por Shoichi Iwashita 19 Out 2017 12:00

Sendo um notívago que não consegue comer comida ao acordar tarde (preciso do pão-queijo-fruta-café; mesmo às duas da tarde), quando descubro um desses raros lugares que servem bom café da manhã o dia todo, ele já ganha meu coração (com pessoas cruzando fusos horários com cada vez mais frequência, não vejo com simpatia tantos hotéis ainda servindo o café da manhã só até às 10h30, sem oferecer opções para o hóspede depois desse horário, que acaba tendo de ir para a rua). Se o lugar ainda for confortável; servir café bem tirado e com ótimos grãos (nem Nespresso nem Três Corações por aqui); produzir seus próprios pães e sorvetes e granolas; tiver wi-fi, água gratuita (com ou sem gás!), manobrista na porta e várias opções veganas e vegetarianas; e ainda tiver como dono o mais belo e estiloso restaurateur da cidade (o nome dele é Renato Calixto), é quase um coup de coeur. O Factorio (fala-se “Factório”), esse misto de café, restaurante e bar (sim, dá também para tomar um gin tônica às 8h), e sempre aberto o dia todo (incluindo feriados), ocupa o espaço do que era o Ecco, na Rua Amauri, no Itaim: essa rua pequena (com apenas 200 metros), cheia de opções (são quase dez estabelecimentos), extremamente bem cuidada, mas que sempre foi sinônimo de restaurantes que cobram muito mais do que entregam. O que não é o caso do Factorio.

O cardápio enxuto e criativo tem várias categorias que vão dos “Pequenos Pratos” – que podem servir ou como comidinhas para pequenas fomes ou como entradas – aos “Ovos”, onde você encontra duas opções excelentes (além do pão com ovo, que eu amo): uma frittata com abobrinha e parmesão e uma shakshuka (um prato típico da culinária do Oriente Médio feito aqui com ovo pochê e tomates e cebolas confitados; em meia ou porção inteira), passando pelos salgados, toasts, tapiocas e bolos da seção “Padaria e Confeitaria”. Mas se as comidinhas têm tamanhos generosos, o mesmo não dá para dizer dos pratos principais: apesar de saborosa e bem feita, se eu não tivesse pedido a entrada (bem servida), a tilápia com cuscuz de quinoa e molho de iogurte me deixaria com fome (e olha que o vinho ajuda na saciedade). A sobremesa que pedi também não agradou muito (veja foto comentada abaixo). No quesito bebidas, o menu é pequeno mas bastante correto. Além dos cafés feitos com grãos Wolff e chás Chá-yê, você vai encontrar não só sucos naturais (prove o de tangerina com amora e manjericão), como também cervejas artesanais, coquetéis clássicos e uma boa seleção de vinhos, entre espumantes, brancos, rosés, tintos e de sobremesa, com algumas opções de taça e meia-garrafa. O Factorio ainda serve um ótimo bufê de almoço, de segunda a sexta, das 12h às 16h, quando eles abrem todo o salão para o serviço (fora desse horário, cortinas fecham o restaurante, ficando só a parte da frente aberta, o que deixa o ambiente mais com cara de bar-café).

Apesar de eu ter restrições com esse visual hipster-Brooklyn-vintage fabricado de 9 entre 10 novos empreendimentos na cidade nos últimos cinco anos (ainda mais na localização Amauri-Faria-Lima-Itaim em que está), o Factorio é muito correto em sua multiproposta, atendendo perfeitamente desde quem quiser tomar apenas um espresso entre reuniões; almoçar com família ou amigos (tem várias mesas grandes); trabalhar tomando um drinque ou vinho no fim da tarde; e até o viajante com jet lag querendo tomar café da manhã às quatro da tarde. Sem os preços inflacionados da Faria Lima.

A porta grande e as grandes janelas: herança do que foi o Ecco. Na calçada, além dos bancos, tem também duas mesinhas para duas pessoas cada uma. Imagem: Shoichi Iwashita
Mesa comunitária, sofá, bar, mesas comuns com cadeiras, na parte da frente do Factorio, que funciona o dia todo. O restaurante, ao fundo do salão, só abre para o almoço durante a semana, das 12h às 16h. Imagem: Shoichi Iwashita
Ambiente aconchegante e que convida para a conversa. Imagem: Shoichi Iwashita
Café da manhã tardio: uma versão própria de shakshuka (em meia porção) com tomates confitados (extremamente saboroso, mas um pouco oleoso demais) acompanhado de um toast frio de queijo cottage com cogumelos. Para acompanhar esta combinação quase perfeita, o suco de tangerina, amora e manjericão. Imagem: Shoichi Iwashita
Mesa linda para o almoço servido em bufê, de segunda a sexta, das 12h às 16h. Imagem: Shoichi Iwashita
No almoço, em vez de ir no bufê, fui nos pratos do cardápio, que podem ser pedidos em qualquer hora do dia. De entrada, ótimos pimentões rústicos recheados com queijo fresco de cabra, lentilhas, cebolas defumadas e salada. E eu nem sou muito fã de pimentão. Imagem: Shoichi Iwashita
De prato principal, tilápia com cuscuz de quinoa e salada com molho de iogurte. Porção pequena para um prato principal. Imagem: Shoichi Iwashita
De sobremesa, fui nos profiteroles com sorvete de chocolate branco feito na casa com calda de avelãs. Além da apresentação não muito favorável, as bombinhas de massa choux que deveriam ser a protagonistas, aqui são coadjuvantes e de textura crocante (parecem cereais de bolinha). Não é muito o que a gente espera ao pedir a sobremesa. Imagem: Shoichi Iwashita
Excelente café feito com grãos Wolff. E ainda dá para pedir ristretto (10 ml a menos que o espresso), lungo, duplo e capuccino clássico (sem chocolate). Imagem: Shoichi Iwashita
Parte do salão ao fundo que funciona só durante o almoço bufê, entre 12h e 16h, de segunda a sexta. Imagem: Shoichi Iwashita

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.

Veja mais