Gastronomia

Uma visita à Guaspari

Descubra como a vinícola paulistana produz vinhos admirados internacionalmente

por Shoichi Iwashita 24 Mai 2017 08:23

Da mesma maneira que um dia me surpreendi quando conheci o café baiano de Piatã, considerado há anos o melhor do Brasil, foi um choque depois de algumas taças me dar conta de que um dos melhores vinhos brasileiros — brancos e tintos — é um vinho PAULISTA cujos vinhedos estão a duas horas de carro da cidade de São Paulo (!!!), na Serra da Mantiqueira, região conhecida pela produção de café desde o século 19. Por isso hoje é dia de superar o seu preconceito com os vinhos brasileiros; e hora de passar por cima do seu preconceito — que nem existia — com os vinhos paulistas.

Na propriedade de uma família antiga e muito rica que comprou em 2001 duas centenárias — e belíssimas — fazendas de café que somam 800 hectares em Espírito Santo do Pinhal, bem na divisa com Minas Gerais, não foram medidos esforços em conhecimento e tecnologia para a produção de vinhos de variedades francesas como sauvignon blanc, chardonnay, viognier, cabernet sauvignon, cabernet franc, pinot noir, petit verdot e syrah, que representa quase 40% das plantações e é o grande destaque do catálogo (solo que é bom para o café também é bom para vinho, aprendi). De 2006, quando foram plantadas as primeiras videiras numa área de seis hectares; passando por 2008, quando foram produzidas apenas 30 garrafas de vinho; até hoje, com doze vinhedos — e doze terroirs distintos — entre 800 e 1300 metros de altitude totalizando 50 hectares, cada vinho recebe o nome da vista com a qual as uvas crescem e amadurecem (escolhido de acordo com o estudo do microclima de cada terroir ): o Vista da Serra, um syrah plantado a 1220 metros de altitude, tem vista panorâmica para a Serra da Mantiqueira; o Vista do Chá, outro syrah (o primeiro vinho brasileiro a ganhar uma medalha de ouro no Decanter World Wine Awards), tem vista para uma área onde a família pretende plantar chá; o Vista do Bosque, um viognier, para uma plantação de macadâmias; o sauvignon blanc Vista do Café para uma plantação do fruto; e assim por diante.

VITICULTURA DE PRECISÃO, MICROTERROIRS DENTRO DE UM JÁ PEQUENO TERROIR
Mas o cuidado da família com as uvas não está apenas na organização dos cachos (que ficam todos na mesma altura e lindamente organizados, foto acima); na colocação de telas protetoras (contra o ataque de tucanos, seriemas, macacos e até onças; parece que a região é rica também em animais); e na dupla poda que engana as videiras e permite que a colheita — toda manual — ocorra nos nossos meses mais frios em vez da estação mais quente e úmida (as chuvas acabam com as uvas). Do estudo físico-químico do solo de cada vinhedo surge uma subdivisão: o terreno é separado em parcelas que são definidas através do conjunto de diversas variáveis do solo, como condutividade elétrica, e da planta, como concentração de clorofila. E uma vez identificadas as melhores e mais homogêneas microrregiões dentro dos já pequenos vinhedos (sendo o vinho o reflexo do vinhedo, a homogeneidade da uva é sempre um aspecto muito importante), essas uvas — só os melhores cachos, claro — são colhidas e vinificadas em tanques próprios. Assim, um mesmo vinhedo, de uma mesma uva, pode gerar duas colheitas diferentes, armazenadas em tanques diferentes (e as uvas das parcelas que se mostram menos homogêneas são descartadas). Só com a evolução de cada vinho nos tanques e nos barris é que serão feitas outras análises, incluindo as subjetivas, para assim decidir quais vinhos irão na composição de cada rótulo.

A VISITA À VINÍCOLA GUASPARI
Por conta dos prêmios em concursos mundiais e o crescente interesse pela Guaspari, a demanda para as visitas à vinícola é grande, já tem lista de espera e eles só recebem aos sábados e domingos, em horários agendados. Por isso, não vá sem antes agendar sua visita, pois sem a reserva você só consegue visitar a loja, que abre de segunda a sábado, entre as 9h e as 18h (mas atenção: não tem degustação, você consegue apenas comprar as garrafas). Já para quem tem o acesso à visita, o passeio começa, em cima de um caminhão (vá com roupas confortáveis e escuras por causa da terra) por alguns dos vinhedos mais próximos à casa principal dedicados ao sauvignon blanc (infelizmente, não se pode visitar os vinhedos onde crescem as uvas responsáveis pelos vinhos mais especiais da Guaspari, e que são os mais lindos), passa pela área de produção onde ficam os tanques de inox, pela sala de barricas de carvalho francês, pela adega onde os vinhos já estão envelhecendo nas garrafas (onde ficam inclusive alguns vinhos ainda não lançados e guardados a sete chaves), e termina com uma degustação dos três rótulos mais simples do catálogo (um rosé e o branco e o tinto do Vale da Pedra), ao custo de R$ 120 por pessoa (atenção, não são admitidos menores de 18 anos). Mas você pode experimentar os outros vinhos mais especiais pagando as taças à parte (a partir de R$ 25). Só o resto da experiência que é um pouco complicada: na vinícola não dá para “pousar” depois da degustação de vinhos (tampouco dá para dirigir) e não há nada para comer… E o único restaurante simpático da região, a trattoria Opção em Espírito Santo do Pinhal, só abre para jantar (no restaurante, você também encontra os rótulos da Guaspari, mas só em garrafas, não em taças, o que é uma pena). Assim, o jeito é ir e voltar com motorista e, depois de ótimos vinhos, comer em um bom restaurante na volta, já em São Paulo.

SERVIÇO
Para fazer o agendamento para a visita é só ligar para o telefone 55 19 / 3661-9191 ou então escrever para enoturismo@vinicolaguaspari.com.br. O pagamento de R$ 120 por pessoa pode ser feito no cartão ou por depósito bancário.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.

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